O Futuro da Humanidade

AUGUSTO CURY

Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE
pela equipe Digital Source com a inteno de facilitar o acesso ao conhecimento a quem
no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de
conhecerem novas obras. Se quiser outros ttulos nos procure
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros , ser um prazer receb-lo em
nosso grupo.

http://groups.google.com.br/group/digitalsource
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros


O Futuro da Humanidade A SAGA DE UM P E N S A D O R

4a Edio

SEXTANTE

Copyright  2005 por Augusto Jorge Cury

edio Regina da Veiga Pereira reviso Antnio dos Prazeres Srgio Bellinello Soares
capa Raul Fernandes projeto grfico e diagramao Valria Facchini de Mendona
fotolitos RR Donnelley impresso e acabamento Lis Grfica e Editora Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS 
EDITORES DE LIVROS, RJ C988f Cury, Augusto Jorge, 1958O futuro da 
humanidade: a saga de Marco Polo. / Augusto Cury. - Rio de Janeiro : Sextante, 2005. 
ISBN 85-7542- 162-X 1. Psicologia - Fico. 2. Fico brasileira. I. Ttulo. 05-0460. 
CDD 869.93 CDU821.134.3(81)-3

Todos os direitos reservados por Editora Sextante / GMT Editores Ltda. Rua 
Voluntrios da Ptria, 45 - Gr. 1.404 - Botafogo 22270-000 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: 
(21) 2286-9944 - Fax: (21) 2286-9244 E-mail: atendimento@esextante.com.br 
www.sextante.com.br

Agradecimentos

Agradeo a cada um dos pacientes que encontrei ao longo da minha trajetria como 
psiquiatra e pesquisador da psicologia. Eles me ensinaram a ver com os olhos do 
corao, a perscrutar um mundo deslumbrante que se esconde nos vales das perdas e 
nos penhascos das dores emocionais. Eles so prolas vivas no teatro da existncia. 
Dedico esta fico a eles e a todos os que foram e so mutilados pela vida. De algum 
modo eles esto retratados nas linhas deste texto.

Captulo 1

A ansiedade pulsava no interior de alguns jovens. Um grande sonho encenava-se no 
teatro de suas emoes. Movidos pela euforia, percorriam como crianas os corredores 
das salas de aula da Faculdade de Medicina. Olhos fixos nas paredes, cativados por 
estranhas e belas imagens que retratavam detalhes do trax e msculos. Imagens de 
corpos nus dissecados revelavam que por dentro os seres humanos sempre foram mais 
iguais do que imaginaram. A fotografia de um crebro, saturado de reentrncias, como 
riachos que sulcam a terra, indicava o centro vital de nossa inteligncia e de nossas 
loucuras. Chegou o grande dia, o mais esperado e o mais temido. Os novos alunos 
teriam a primeira aula de anatomia. Desvendariam os segredos do objeto mais complexo 
da cincia: o organismo humano. Aguardavam, impacientes, seus mestres do lado de 
fora do laboratrio, que exalava um ar de enigma. No lhes cabia no imaginrio o que 
os esperava. Queriam ser heris da vida, aliviar a dor e prolongar a existncia, mas o 
currculo insensvel da medicina os abalaria, sem nenhum preparo, com a imagem 
grotesca da morte. O sonho de se tornarem heris da vida receberia um duro golpe. Iam 
se deparar com corpos despidos, dispostos seqencialmente, como animais. Enfim 
chegaram os professores e os tcnicos de anatomia. Subtraiu-se a palavra, e um silncio 
glido envolveu o grupo. Os professores entraram na grande sala do laboratrio e 
convidaram os sessenta alunos a acompanh-los. Caminharam, espremidos, lentamente 
pela porta dupla, mas estreita. Como espectadores de um grande show, a tenso 
expandiu-se e procurou rgos para se alojar, provocando sintomas psicossomticos. 
Uns sentiram palpitao, outros ficaram ofegantes e ainda outros transpiravam. Ao 
entrar, um choque emocional ecoou no mago da jovem platia. Os alunos viram 12 
cadveres completamente nus, deitados rgidos, com o peito e a face voltados para o 
teto. Cada um estava estendido sobre uma alva mesa de mrmore branco. O cheiro de 
formol, usado para conservar os corpos, era quase insuportvel. Com olhos estatelados e 
mentes abismadas, os alunos contemplavam os olhos opacos e inertes dos cadveres. A 
maioria de meia-idade. Entre eles o de um velho, cuja pele estava sem brilho, mas seu 
rosto expressava doura. As mesas estavam separadas dois metros e meio umas das 
outras. Cada grupo de cinco alunos ficaria encarregado de dissecar e estudar um cadver 
durante todo o ano. Teriam de rebater a pele, separar os msculos, encontrar o trajeto 
dos nervos e das artrias. Teriam de abrir o trax e o abdmen e vasculhar com preciso 
a cor, o tamanho, a localizao e a disposio de cada rgo interno. Os jovens 
deveriam ser artesos que penetrariam na mais bela obra de arte. Mas, no momento, 
ningum desejava dissec-los. Todos estavam sob o impacto que a cena causara. 
Permeados por conflitos existenciais diante do retrato desnudo da vida humana, os 
alunos se perguntavam: "Quem somos?", "O que somos?", "Em que nos tornamos 
diante do caos da morte?" "Qual o sentido da existncia humana?" Perguntas simples e 
intrigantes, mas que

sempre perturbaram a humanidade, geraram um drama no palco da inteligncia dos 
jovens espectadores. O ambiente produziu um abalo emocional repentino e 
incontrolvel. Alguns jovens, em especial algumas alunas mais sensveis, procuravam 
sair subitamente da sala. Estavam com os olhos lacrimejando, amedrontadas e 
apreensivas. No eram seus parentes nem seus amigos, mas viram naqueles corpos o 
espelho da existncia humana. Vislumbraram que a vida  to vasta e to efmera, to 
complexa e to frgil. Enquanto elas queriam sair da sala, outros colegas desejavam 
entrar. O tumulto aumentou. Ningum se entendia. Contrapondo os conflitos dos alunos 
estavam os professores e tcnicos no fundo da sala. Alguns se entreolhavam e riam 
diante do desespero da platia. "So calouros", pensavam com prepotncia. No passado, 
eles tambm tiveram suas inquietaes, mas ao longo dos anos perderam a 
sensibilidade, obstruram a capacidade de perguntar e de procurar respostas. Sufocaram 
seus conflitos, tornaram-se tcnicos na vida. No currculo dessa famosa faculdade no 
existiam aulas de filosofia e psicologia que preparassem os alunos para enfrentar o 
dilema da vida e da morte, o paradoxo entre o desejo de preservar a sade e a derrota 
diante do ltimo suspiro. Os sonhos eram dilacerados, a paixo pela vida esmagada. O 
prejuzo no inconsciente dos futuros mdicos era intenso. Treinados para serem lgicos 
e objetivos, no desenvolviam habilidades para lidar com o territrio da emoo. Pouco 
a pouco, os pacientes deixavam sua condio de seres humanos nicos para se tornarem 
rgos doentes, que precisavam se submeter aos exames e no ao dilogo. Desse modo, 
a mais bela e importante das cincias se submetia ao crcere da economia de mercado. 
Hipcrates, o pai da medicina, se revolveria em seu tmulo se soubesse disso. 
Procurando controlar o impacto inicial, o Dr. George, chefe do departamento de 
anatomia, pediu silncio e solicitou que todos retornassem ao laboratrio e fizessem um 
crculo ao redor da sala. Comeou sua aula. Ignorando o caos emocional que os alunos 
atravessavam, sequer pensou na angstia deles. Com voz imponente e gestos 
eloqentes, aquietou a agitao dos presentes. Iniciou apresentando suas credenciais. 
Primeiro se especializara em cirurgia gastrintestinal. Depois se tornara um especialista 
em anatomia. Fez doutorado em Harvard. Era reconhecido internacionalmente. Tinha 
mais de cinqenta artigos publicados em revistas cientficas. Um cientista notvel em 
sua rea. Escondendo-se atrs do seu currculo, ele apresentou o programa da sua 
disciplina. Aps a introduo, comeou sem demora a revelar algumas tcnicas de 
dissecao da pele, msculos, artrias e nervos. Tudo transcorria normalmente como em 
todos os anos, at que um aluno subitamente levantou a mo. Seu nome era Marco Polo. 
O Dr. George no gostava de ser interrompido. No era um amante dos debates. Cada 
aluno teria de ruminar as suas dvidas at o final da aula, para depois perguntar a ele ou 
aos outros trs professores e trs tcnicos que o auxiliavam. Desprezou o gesto de 
Marco Polo. Alguns colegas ficaram apreensivos. Para no fazer papel de tolo, o jovem 
abaixou a mo. Marco Polo era intrpido e determinado. No conseguia elaborar o 
turbilho de pensamentos que transitavam no anfiteatro da sua mente na sala de 
anatomia. Mas era um observador e no tinha medo de expressar suas idias. Embora 
imaturo, exercitava uma importante caracterstica dos grandes pensadores que brilharam 
na histria: as grandes idias surgem da observao dos

pequenos detalhes. Cinco minutos depois de ouvir sobre tcnicas e peas anatmicas, 
Marco Polo no suportou o calor da sua ansiedade. Estava transpirando. Novamente 
estendeu a mo. O professor, irritado com sua ousadia, explicou que as dvidas 
deveriam ser colocadas sempre no final de cada aula. E disse que abriria uma nica 
exceo. Fez um gesto com as mos para que Marco Polo falasse, como se lhe prestasse 
um grandioso favor. Com uma sinceridade cristalina, Marco Polo perguntou: - Qual  o 
nome das pessoas que vamos dissecar? Dr. George recebeu um golpe com a pergunta. 
Olhou para os professores que o auxiliavam, meneou a cabea e balbuciou: "Sempre h 
algum estpido na turma." Com a voz impostada, respondeu: - Esses corpos no tm 
nome! Diante da resposta seca, os alunos saram repentinamente da apreenso para o 
riso tmido. Constrangido, Marco Polo passou os olhos pelos cadveres e comentou: - 
Como no tm nome? Eles no choraram, no sonharam, no amaram, no tiveram 
amigos, no construram uma histria? A platia ficou muda. O professor mostrou-se 
indignado. Sentiu-se desafiado. Ento debochou do aluno publicamente: - Olha, rapaz, 
aqui s h corpos sem vida, sem histria, sem nada. Ningum respira, ningum fala. E 
voc est aqui para estudar anatomia. Saiba que h muitos mdicos medocres na 
sociedade porque no se dedicaram a essa matria. Se no quer ser mais um deles, deixe 
de filosofar e no interrompa a minha aula. Os alunos fizeram um burburinho maior, 
sentindo que Marco Polo levou uma lio que o paralisaria. Diante das risadas mais 
soltas, o professor sentiu-se vitorioso. Mas Marco Polo ainda teve flego para retrucar: - 
Como vamos penetrar no corpo de algum sem saber nada sobre sua personalidade? 
Isso  uma invaso! E, para alfinetar seu professor, resolveu filosofar. Emendou: - O 
homem sem histria  um livro sem letras. A platia ficou surpresa com a dimenso da 
frase. Interrompendo-o, o Dr. George foi direto e agressivo: - Vamos parar com essa 
filosofia barata! Se voc quer ser um detetive que investiga a identidade de mortos, 
escolheu a faculdade errada. V fazer carreira policial. Os colegas dessa vez zombaram 
de Marco Polo. Alguns emitiram sons como se estivessem numa disputa, num estdio. 
Marco Polo observou a cena e ficou abalado, no tanto pela agressividade do professor, 
mas principalmente pela complexidade da mente humana. H poucos minutos seus 
colegas estavam numa sala de terror e, agora, no centro de um picadeiro, e ele era o 
palhao. Comeou a entender que a dor e o riso, a loucura e a sanidade esto muito 
prximas. Em seguida, o professor fechou a questo, dizendo: - Esses cadveres no 
tm histria. So mendigos, indigentes, sem identidade e sem famlia. Morrem pelas 
ruas e nos hospitais e ningum reclama a existncia deles. No seremos ns que a 
reclamaremos. Alm de humilhar publicamente seu intrpido aluno, ele o desafiou com 
sarcasmo. Fitou-o e disse-lhe:

- Se voc quiser tentar identific-los, procure informaes na secretaria do 
departamento. Ah! E se, por acaso, encontrar uma histria interessante de um desses 
indigentes, por favor, traganos para que possamos ouvi-la. Com isso, Marco Polo calou-
se. Um professor auxiliar sussurrou aos ouvidos do chefe: - Parabns! Voc foi terrvel 
com o garoto. Um outro lhe expressou: - Voc  um especialista em cortar as asas dos 
novatos. O Dr. George sorriu; entretanto, sua emoo no estava uma lagoa plcida, 
mas um mar atormentado. Nunca um aluno levantara essas questes no laboratrio de 
anatomia. Marco Polo saiu daquela aula com a impresso de que h um preo a pagar 
para os que querem pensar. Era mais confortvel silenciar-se, seguir o roteiro da grade 
curricular e ser mais um aluno na multido. Todavia, o conforto de calar-se geraria uma 
dvida impagvel com sua prpria conscincia... Tinha de fazer uma escolha.

Captulo 2

Marco Polo estava inconformado pela maneira como fora tratado por seu professor. Ele 
se questionava sobre a pertinncia de suas perguntas. "No podiam ser tolas. Cada ser 
humano  um mundo", pensava ele. Muitos amam a rotina, outros no vivem sem 
aventura. O jovem pertencia ao segundo grupo. Detestava o mercado da rotina. A ltima 
frase do Dr. George provocara sua inteligncia, no saa da sua mente. Tornara-se um 
desafio obsessivo. No dia seguinte foi atrs dos papis que registravam a entrada dos 
cadveres. Ficou decepcionado. No havia registro de nomes, atividades e parentescos. 
Aps folhear diversos papis, apenas encontrou uma informao vaga, sem detalhes, 
sobre um dos corpos. A informao foi colhida por uma das assistentes sociais do 
hospital da faculdade. Ela relatou que o velho possua um apelido bizarro: Poeta da 
Vida. Escrevera no pronturio: "Um mendigo maltrapilho, apelidado de Falco, que 
freqenta a praa central da cidade, identificou o corpo. Ele no conseguiu expressar-se. 
Tudo indica que seja portador de uma grave e incapacitante doena mental. Por isso, 
no deu detalhes do morto, apenas disse que ele era seu amigo e se chamava Poeta da 
Vida." Essas palavras vagas mexeram com o imaginrio de Marco Polo. "Quem poderia 
ser? Por que o indigente morto tinha o apelido estranho de Poeta da Vida?" refletiu. 
Procurou a assistente social para mais informaes. Marco Polo encontrou-a 
conversando com uma psicloga. Ele se identificou e perguntou-lhe como poderia 
encontrar o tal de Falco descrito em seu relato, pois queria entrevist-lo. Indagado 
sobre os motivos da informao, ele disse, para espanto das duas profissionais, que era 
para desvendar a histria de um dos cadveres do laboratrio de anatomia. A assistente 
social, sem meias palavras, o desanimou. - Eu me lembro desse tal Falco. Fiquei mais 
de 15 minutos tentando faz-lo falar. Mas o coitado era um demente, com a 
personalidade destruda. No conseguia manter um dilogo racional. Voc perder seu 
tempo se conseguir encontr-lo. A psicloga, mostrando um psicologismo autoritrio, 
foi mais longe: - Esses cadveres da sala de anatomia, na grande maioria, so portadores 
de graves doenas mentais. No tm documentos, cultura e mal sabem conversar. 
Vivem por instinto  margem da sociedade, saem como animais pelas ruas e estradas. 
Marco Polo ficou indignado com a posio fechada delas. Elas conseguiram ser mais 
contundentes que seu professor de anatomia. Era como se esses cadveres fossem 
montagens de peas anatmicas sem direito a uma histria nica. Inconformado, 
confrontou-as: - No concordo com seus pensamentos. Ser que esses mendigos no 
tm personalidades complexas ou ns  que somos incapazes de entend-las? - Voc 
est iniciando seu curso de medicina agora e j quer dar uma de professor? - disse a 
psicloga, impaciente com a petulncia do estudante. Marco Polo no quis prolongar a 
conversa. Despedindo-se, saiu, frustrado. Aps sua sada, a assistente social comentou 
com a psicloga: - No se preocupe. Essa febre romntica passa nos anos seguintes.

O jovem procurou durante dias seguidos o tal de Falco na praa central. Ela era enorme 
como o Central Park de Nova York, muitas ruas, bosques, bancos e imensos gramados. 
Devido  dimenso da praa, bem como ao aumento do nmero de sem-teto pela crise 
financeira e ao fato de os mendigos serem nmades, a tarefa de encontrar o tal Falco 
era dantesca. Marco Polo fazia sua investigao por tentativa e erro. Abordava qualquer 
mendigo que encontrava. Alguns no entendiam o que ele falava, outros fingiam no 
ouvir e ainda outros davam alguma ateno, mas diziam que no tinham ouvido falar de 
nenhum Falco. Um deles saiu dando risadas imitando o vo de uma ave. s vezes 
Marco Polo tinha a impresso de que algumas pessoas conheciam Falco, mas o dilogo 
no evolua. Nunca conseguiu conversar mais do que um minuto com os que lhe deram 
ateno. Estava comeando a se convencer de que os outros estavam certos e ele, 
errado. Pensava em terminar sua aventura de Indiana Jones sobre os banidos da 
sociedade. Entretanto, toda vez que passava perto do seu professor sentia-se provocado. 
Os colegas o irritavam perguntando: "Cad a histria do mendigo?" Alguns mais 
engraados e desrespeitosos apontavam para um cadver e diziam: "Este foi Jlio Csar, 
o imperador de Roma!" Todos riam. Os cadveres j no causavam espanto na turma. O 
anormal se tornou normal. Marco Polo observava todos esses fenmenos. No os 
entendia, mas os registrava. Comeou a perceber que o ser humano se adapta a tudo, 
inclusive ao caos. A humilhao colocava combustvel no seu desafio. Desistir 
perturbava-o. Um ms depois da primeira aula de anatomia, resolveu fazer mais uma 
tentativa. Novamente entrou na imensa praa, percorreu centenas de metros, conversou 
com alguns indigentes, mas no obteve a resposta que procurava. Dois deles, sentados 
no mesmo banco, balbuciaram algumas palavras entre si quando indagados por Marco 
Polo. Mas silenciaram-se sobre Falco. De repente, cinqenta metros  sua frente, viu 
mais um mendigo abordando os transeuntes num local movimentado. Tentava conseguir 
uns trocados para uma possvel refeio noturna. Tinha barba longa e branca. Seus 
cabelos eram revoltos como os de Einstein zombando do mundo, mas parecia que ele 
zombava era do banho. A pele estava seca, sem brilho, desidratada, roada pelo tempo. 
Vestia um casaco preto, remendado com tiras brancas. Cheirava a azedo ctrico. 
Aproximou-se dele, deu-lhe o pouco dinheiro que tinha no bolso e perguntou-lhe se 
conhecia o tal Falco. O mendigo olhou para ele, Pegou o dinheiro e fingiu que no 
ouvira. Marco Polo perguntou novamente. Dessa vez, o mendigo ps o dedo na boca e 
disse: - Silncio! A princesa est chegando. O jovem olhou de lado, no viu nada. Mas o 
mendigo continuava atento. Em seguida, levantou-se e comeou a perseguir com os 
olhos uma borboleta, totalmente deslumbrado. Levantou os braos e comeou a fazer 
um movimento imitando seu bailado. Ela voou no alto da copa e retornou pousando 
suavemente na sua mo. Marco Polo, admirado, no conseguia dizer se o pouso foi uma 
coincidncia ou uma atrao instintiva e inexplicvel. O mendigo respirou 
profundamente e contemplou a borboleta. Parecia livre como ela. Depois a soprou 
suavemente, dizendo: - Adeus, princesa! Voc encanta este lugar, mas siga o seu 
caminho e cuidado com os predadores. Marco Polo ficou intrigado com essas palavras. 
Perguntou pela terceira vez:

- Voc conhece o Falco? O mendigo fitou-o e respondeu: - H muitos anos me 
pergunto quem eu sou. Quanto mais me pergunto, menos sei quem sou. O que penso 
que sou no  o que sou. Marco Polo ficou confuso. No entendeu nada, mas ficou 
extasiado com a possibilidade de aquele homem ser Falco. Rapidamente se identificou 
e pediu informaes sobre o tal Poeta da Vida. No percebeu que sua ansiedade 
bloqueara o andarilho. Para piorar as coisas, acrescentou ingenuamente: - Quero essas 
informaes, pois o Poeta est na sala de anatomia da minha faculdade de medicina e eu 
e meus colegas iremos dissec-lo. Gostaria de conhecer algo sobre sua vida. O mendigo 
ficou assombrado com essas informaes. Marco Polo percebeu que fora frio e 
agressivo na conversa. Tentou amenizar rapidamente o que dissera: - Mesmo depois de 
morto, o Poeta ser til para a formao de mdicos e, conseqentemente, para a 
humanidade. Com os olhos embebidos em lgrimas, o indigente parecia ter sado do 
lugar, estava em outro mundo. Como viajante do tempo, olhava vagamente para o 
infinito. Marco Polo insistiu, perguntando se ele era o Falco. O mendigo no deu 
resposta. Levantou-se e partiu em profundo silncio. O jovem estudante ficou sentado 
no banco, paralisado em sua inteligncia. Parecia ser ele o miservel. Tinha muito e no 
tinha nada. No sabia definir seus sentimentos e sentia-se incapaz de compreender o 
mundo desses andejos que vagam pela vida sem direo. Voltou no outro dia e no 
encontrou o mendigo. Ficou abatido. Trs dias depois, encontrou-o novamente. Desta 
vez foi mais comedido. Sentou-se delicadamente no banco. Ficou um minuto sem 
conversar. Dava olhadelas para o mendigo, que parecia ignor-lo. - Por favor, senhor, 
diga-me se voc  o Falco. Depois de outra insistncia, o mendigo voltou-se para ele e 
perguntou: - Quem  voc? Marco Polo se identificou, disse seu nome, seu endereo, 
onde estudava e outras informaes. - No estou perguntando o que voc faz, mas quem 
voc . O que est na sua essncia, por trs da sua maquiagem social. Marco Polo sentiu 
um n na garganta. Foi pego de surpresa pelo raciocnio perspicaz do mendigo. "Esse 
mendigo no  um demente. Ao contrrio. No primeiro encontro ele usou a palavra 
"predador", agora fala sobre "maquiagem social", analisou. No soube o que responder. 
Ento o mendigo disse: - Se voc  lento para dizer quem , como ousa perguntar quem 
eu sou? O jovem recebeu mais um choque. Por isso, insistiu: - O senhor conheceu o 
Poeta. Quem era? Por que tem esse apelido? - Garotos perfumados, trajando belas 
roupas, vivendo na superfcie da existncia. Quem so vocs para estudar o Poeta da 
Vida? Retalhem seu corpo, mas jamais penetraro em sua alma. Tais palavras abalaram 
Marco Polo. Era um raciocnio brilhante, embora ofensivo. Convenceuse de que esse 
mendigo era o Falco. Em seguida, fez-se um silncio glido. O mendigo levantou os 
braos, cerrou os olhos e ouviu atentamente a serenidade do farfalhar do vento nas 
folhas das rvores prximas. Respirou fundo e expressou para si mesmo:

- Que brisa maravilhosa! Marco Polo, embasbacado, persistiu: - Fale-me sobre seu 
amigo! Falco no gostou do seu tom de voz. - No me d ordem, garoto! No me 
controle! No estou em seu mundo! Sou livre! - Desculpe-me a insistncia. - S 
continuo a conversa se voc me responder uma pergunta. - Terei o maior prazer em 
respond-la - disse apressadamente, confiando que um mendigo no faria uma pergunta 
complexa. - Qual a diferena entre um poeta e um poeta da vida? - indagou, penetrando 
nos olhos de Marco Polo. O jovem percebeu que cara numa armadilha. Subestimara a 
inteligncia do mendigo. Esfregou as mos no rosto, abaixou a cabea e, depois de 
muito pensar, reconheceu: - Perdoe-me, senhor, mas no sei a resposta. - Um poeta 
escreve poesia, um poeta da vida vive a vida como uma poesia. Meu amigo era um 
Poeta da Vida. Marco Polo quis ensaiar uma nova pergunta. Cortando-o, Falco disse-
lhe: - Seja honesto. Voc no respondeu e a conversa se encerrou. Marco Polo ficou 
plantado no banco. Achava-se muito esperto, mas deparara-se com sua estupidez e 
arrogncia. Apesar de decepcionado consigo mesmo, estava eufrico com a inteligncia 
de Falco. Falco levantou-se e, como se nada estivesse acontecendo, comeou a 
caminhar. Abraou uma rvore. Beijou-a. Agachou-se diante de uma flor, parecia querer 
penetrar-lhe as entranhas. Dizia algumas palavras inaudveis, como se estivesse fazendo 
uma orao ou elogiando a flor. Marco Polo, teimoso e com a voz embargada, arriscou 
dizer algo para manter o vnculo: - At amanh! Falco se levantou e comentou: - O 
tempo no existe, garoto. Amanh a chama da vida pode ter se apagado! Em seguida 
saiu sem se despedir. Enquanto andava, abria os braos e fazia um movimento de dana. 
Com uma voz vibrante, cantava, olhando para a natureza, What a Wonderful World, de 
Louis Armstrong, com algumas modificaes na letra: Eu vejo o verde das rvores, 
rosas vermelhas tambm Eu as vejo florescerem para a humanidade E eu penso 
comigo... Que mundo maravilhoso. Eu vejo o azul dos cus e o branco das nuvens. O 
brilho do dia abenoado, a sagrada noite escura. E eu penso comigo... Que mundo 
maravilhoso. O mundo intelectual de Marco Polo no estava maravilhoso, pois passara 
por um vendaval. Profundamente intrigado, ele disse consigo mesmo: "Que homem  
este que se esconde na pele de um miservel? Que mendigo  este que parece ter muito, 
mas possui to pouco?"

Captulo 3

Ao retornar para a repblica de estudantes, onde morava, Marco Polo recolheu-se em 
seu interior. Seu pai, Rodolfo, sempre fora um admirador do italiano Marco Polo, um 
dos maiores aventureiros da histria. O viajante veneziano tinha apenas 17 anos quando, 
em 1271, partiu da belssima Veneza para a sia com seu pai e seu tio. A incrvel 
odissia durou 24 anos. Correram enormes riscos, navegaram por rios e mares, andaram 
por desertos, escalaram montanhas, pisaram em solos nunca antes tocados por um 
europeu. A aventura revelou um mundo fascinante, jamais descrito. Sua obra O livro 
das maravilhas: A descrio do mundo influenciou o mapa-mndi traado em 1450, 
hoje exposto na Biblioteca Marciana de Veneza. Rodolfo era um vido admirador da 
ousadia de Marco Polo, e por isso deu seu nome ao filho.  medida que ele foi 
crescendo, relatava com excitao para o pequeno Marco Polo as peripcias do 
aventureiro italiano. Contava-lhe, com doses de fico, os sonhos do navegador 
veneziano, sua coragem imbatvel e sua incontrolvel motivao de conhecer novos 
mundos, explorar novas culturas, costumes, culinria. O menino bebia as palavras do 
pai. Entre as suas muitssimas descobertas, Marco Polo trouxe o macarro inventado 
pelos chineses para a Itlia. Os italianos, com sua habilidade culinria mpar, o 
aperfeioaram. O senhor Rodolfo, amante de uma boa massa, toda vez que comia um 
espaguete fazia um brinde a Marco Polo. Uma frase dita e repetida pelo pai ecoava na 
mente do pequeno Marco Polo: - Meu filho, os aventureiros realizam suas conquistas e 
as demais pessoas os aplaudem. Saia sempre do lugar-comum! Agora o jovem era um 
estudante de medicina. Desejava conhecer os mistrios do corpo humano. Entretanto, 
como a vida tem cruzamentos imprevisveis, ele se deparou com um desafio muito 
maior: conhecer o complicado mundo da mente humana. No bastasse esse pungente 
desafio, a personalidade que precisava descobrir era a de um ser humano que vivia na 
periferia da sociedade e, como tal, tachado de louco, impenetrvel e portador de uma 
histria existencial desprezvel. Teve a impresso de que no conseguiria aprofundar-se 
no universo de Falco, pois viviam em ambientes e culturas completamente distintas. 
"Como fazer isso? Que ferramentas usar?, Que atitudes tomar sem caracterizar uma 
invaso? Certamente o Marco Polo do sculo XIII tambm se perturbaria diante dessa 
aventura!", pensava constantemente. Precisava ser ousado e criativo para percorrer os 
solos intangveis da alma humana e caminhar no indecifrvel territrio da emoo. Aps 
viajar em seus pensamentos e fazer anotaes sobre os fatos ocorridos, uma luz brilhou. 
Teve uma idia incomum para romper as barreiras e distncias entre ele e o mendigo 
pensador: "Preciso tornar-me um deles", imaginou. No dia seguinte, um sbado 
ensolarado, entrou no banheiro, passou pasta de alho no rosto, pegou um nabo podre da 
cozinha e esfregou nos braos e peito. Pegou gel, misturou com a pasta de alho, 
esfregou na cabea e despenteou os cabelos. Ficou parecido com um pequeno monstro 
ou com algum que acabou de receber um choque eltrico. Mas valia tudo para tal 
conquista. Afinal de contas, no agentava mais ser alvo de chacotas dos colegas. Em 
seguida, foi ao quarto, pegou uma camisa de um vermelho-vivo, rasgou-a e vestiu-a.

Colocou uma cala preta desbotada e manchada que comprara num brech. Vestiu um 
casaco preto e remendado, comprado no mesmo lugar. Ao passar pela sala, os colegas 
levaram um susto. Marco Polo no parecia um mendigo, mas um ET. De tantas 
gargalhadas, todos se deitaram no cho. Seu dia comeara mal. No dava para explicar 
nada aos amigos, ningum entenderia. Saiu de casa saltitando e deixou estticos seus 
colegas da repblica de estudantes. Cheirava to mal que ningum conseguia passar 
perto dele nas ruas sem abanar o nariz. O excntrico jovem causava espanto nos adultos, 
mas divertia as crianas. Nunca tinha chamado tanto a ateno. Ao se aproximar da 
praa, as pessoas apontavam-lhe o dedo e debochavam dele. Comeou a sentir raiva dos 
normais. Deu vontade de tirar satisfao. "Ser mendigo deve ser uma vida dura", 
pensou. Mas sua meta o impelia, era a sua prioridade, e estava convicto de que Falco 
se aproximaria dele. Aps meia hora de procura, encontrou Falco e sentou-se ao seu 
lado. Fez um grande silncio, queria impressionar. Falco se afastou dele. No suportou 
o cheiro. Disfaradamente, deu uma olhadela no estudante, da cabea aos ps. Afastou-
se mais um pouco. Cada um assobiava e olhava para o lado oposto. De repente, os 
olhares se cruzaram. Quando Marco Polo pensou que estava causando impacto, Falco 
gritou: - Como voc  feio! Em seguida, desandou a gargalhar. A praa se emudeceu 
com tanto riso. Marco Polo ficou vermelho, no sabia se ria ou se corria. Preferiu rir. 
Riu muito. Riu para no chorar. Era a primeira vez que ria das prprias tolices. Era um 
jovem inteligente e intrpido, mas engessado e sem grande senso de humor. Rir de si 
mesmo foi um blsamo. Os passantes se aproximaram. Queriam um pouco da alegria 
dos dois alienados. Marco Polo apontou para a platia e aumentou seu riso. A platia 
comeou tambm a rir, ningum sabia por qu. Riam sem motivo. Uns riam dos outros. 
Era a terapia do riso, to ilgica e to singela. Momentos depois, o show encerrou-se. 
Surgiu o silncio. Com o silncio, a platia dispersouse. Enquanto se dispersavam, 
jogavam moedas. Falco disse: - Meu Deus, como os normais esto carentes. Como  
fcil diverti-los. At um palhao de primeira viagem vira atrao. Marco Polo franziu o 
rosto e ficou pensando se a carapua no era para ele. Mas resolveu seguir seu plano. 
Pegou sua sacola, deu-lhe alguns alimentos bem embalados e uma caixa de bombons. 
Pensou que depois do circo e dos presentes havia conquistado Falco. Ledo engano! O 
mendigo olhou para o jovem e desferiu-lhe um golpe inesquecvel: - O seu alimento 
sacia minha fome, mas no compra minha liberdade. - Eu no quero comprar sua 
liberdade! - reagiu imediatamente. - Seja honesto! Voc deseja que eu fale, que lhe d 
informaes. Quem vende sua liberdade nunca foi digno dela - expressou Falco. Marco 
Polo coou sua cabeleira arrepiada e novamente se perguntou: "Quem  essa pessoa to 
rpida nas respostas e to ferina nas idias?!" Ele sentiu a pobreza do seu plano para 
conquistar algum to incomum. No fundo, ele estava querendo comprar aquilo que no 
tem preo. Precisava usar a estratgia da transparncia. Reconhecendo seu erro, disse: - 
Desculpe-me pelas minhas segundas intenes. Eu realmente quis que meus presentes

abrissem as janelas da sua mente. Mais afetivo diante da humildade de Marco Polo, 
Falco adocicou a voz: - Garoto, o seu nome  o de um desbravador, mas voc nunca 
ser como um de ns. Voc pode maquiar-se, vestir roupas rasgadas, cheirar mal, mas 
continuar sendo voc mesmo. No seu mundo, vocs crem que a embalagem muda o 
valor do contedo. No meu mundo isso  uma tolice. Voc continuar sendo um 
prisioneiro. Marco Polo ficou abismado: - Prisioneiro do qu? - Do sistema. - Eu sou 
livre! - Voc pensa que  livre. Voc tem os ps livres para caminhar e a boca livre para 
falar. Mas voc  livre para pensar? - Creio que sim. - Ento me responda com 
sinceridade: Voc sofre pelo futuro, ou seja, voc se atormenta por coisas que no 
aconteceram? - Sim - disse, consternado. - Voc tem necessidades que no so 
necessrias? - Sim. - Voc sofre quando algum o critica?  preocupado com a opinio 
dos outros? - Sim. Falco se calou e Marco Polo ficou pensativo. Lembrou-se do quanto 
as opinies do seu professor e de seus colegas de classe o atormentaram. A 
discriminao que sofreu fora registrada de maneira privilegiada, gerando um conflito. 
Perdeu o sono algumas vezes. Deixou que o lixo de fora invadisse sua emoo. 
Comeou a analisar o que estava fazendo naquela praa. Conquistar Falco era 
motivado pela dor da discriminao e no pelo que realmente ele representava. Assim, 
comeou a rever seu foco. Com honestidade, admitiu: - No sou to livre como 
imaginava. Falco continuou e pela primeira vez o chamou pelo nome. - Marco Polo, o 
mundo em que voc vive  um teatro. As pessoas freqentemente representam. Elas se 
observam o tempo todo, esperando comportamentos previsveis. Observam seus gestos, 
suas roupas, suas palavras. A liberdade  uma utopia. A espontaneidade morreu. Marco 
Polo jamais pensou que poderia encontrar sabedoria em um maltrapilho. Recordou a 
primeira aula de anatomia, as palavras preconceituosas do seu professor, da psicloga e 
da assistente social. Percebeu como somos superficiais ao julgar pessoas diferentes. 
Compreendeu a prpria superficialidade. Entendeu que muitos indigentes podiam ser 
doentes mentais sem condies de expressar grandes idias, mas todos eles tiveram uma 
grande histria. Alm disso, comeou a descobrir que alguns miserveis das ruas, como 
Falco, e provavelmente alguns doentes mentais, tinham uma sabedoria que intelectuais 
no alcanaram. Convenceu-se de que cada ser humano  uma caixa de segredos a ser 
explorada. Quando os exclumos,  porque no os entendemos. A partir da, comeou a 
ser fascinado pela mente humana. Despertou-lhe pouco a pouco o desejo de um dia se 
especializar na mais enigmtica e complexa das especialidades mdicas: a psiquiatria. 
As idias do pensador das ruas o

inspiraram. Aps questionar sua prpria liberdade, Marco Polo fez alguns minutos de 
silncio. Falco recostara-se folgadamente no banco. Em seguida, o jovem voltou  
carga revelando suas inquietaes e sua famosa incapacidade de ficar calado. Resolveu 
provocar Falco: - Ser que pelo fato de no ter tido sucesso no sistema que condena, 
voc no se alienou dele? Quem me convence de que voc no  uma pessoa 
socialmente frustrada e interiormente presa? Marco Polo foi perspicaz em seus 
argumentos, mas, depois de dizer tais palavras, sentiu que corria risco de destruir seu 
relacionamento com Falco. Recordou que criara problemas com o Dr. George pela sua 
impetuosidade. Por menos, o mdico o havia humilhado publicamente. Quando a 
relao parecia ter ficado estremecida, surpreendeu-se. O brilho nos olhos e um sorriso 
entrecortado de Falco indicavam que ele gostara de ser provocado. Com lucidez, o 
mendigo deu uma breve resposta, sem grandes detalhes: - Voc tem futuro, garoto! 
Voc pensa. O sistema me feriu drasticamente e me baniu. A dor que vivi poderia me 
destruir ou me construir. Resolvi deix-la construir-me. Atormentado, sa sem endereo, 
procurando um endereo dentro de mim mesmo... Falco emudeceu. No deu mais 
detalhes da sua vida, e Marco Polo no queria invadir a sua intimidade. Havia 
profundidade e intenso sofrimento nessas breves palavras. Sentiu que era hora de partir. 
Saiu calado e reflexivo. O filsofo das ruas estava se tornando mestre de um jovem da 
elite social. O jovem admirou o mendigo e o mendigo se encantou com o jovem. 
Comearam a ser amigos. Ambos viviam em mundos distintos, mas foram aproximados 
pela linguagem universal da sensibilidade e da arte de pensar. Uma fascinante histria 
seria desenhada.

Captulo 4

A descoberta do mundo rico e profundo que se escondia atrs dos escombros da misria 
de Falco parecia loucura nas sociedades modernas, que valorizam muitssimo a 
tecnologia e pouqussimo a sabedoria. Esta descoberta deixara Marco Polo atnito. No 
prximo encontro, ainda teve receio de ir com suas vestes normais. Novamente foi 
trajado de mendigo, mas mais discreto e menos ftido. Os cabelos continuavam em 
estado de choque. No levava jeito para ser um andarilho. Bem-humorado, Falco no o 
censurou. Marco Polo j no era um invasor de territrio. O mestre das ruas continuava 
sua vida sem aparentemente darlhe muita ateno. Ele observava os caminhantes e dava 
risadas. Marco Polo se esforava para entender, mas no sabia o que estava 
acontecendo. Falco se divertia imaginando o que as pessoas estariam pensando naquele 
exato momento. Minutos depois, permitiu que o jovem entrasse na brincadeira. Queria 
ensinar-lhe uma lio. - Est vendo aquele sujeito apressado, apreensivo, de gravata 
torta. Olhe como ele torce o nariz e faz caretas. Deve estar pensando: "Eu no agento 
mais meu chefe! Eu vou pedir demisso e mand-lo plantar batatas." Coitado! Ele  o 
melhor plantador de batatas dessa cidade. Faz anos que repete a mesma coisa. Marco 
Polo abriu um sorriso analtico. Pensou: "Sempre foram os normais que zombaram dos 
trejeitos dos marginalizados. Eles falam sozinhos, gesticulam, so curiosos. No 
imaginava que alguns deles vissem a sociedade organizada como um circo." Falco 
chamou a ateno para outra pessoa. - Est vendo aquela mulher toda embonecada, 
tentando equilibrar-se naquele salto enorme. Olhe l. Como ela anda torta. Quase caiu. 
Que coisa mais estranha. Nunca ningum olhou para aqueles saltos, mas ela no desce 
deles. Deve estar pensando: "Quem ser que est me admirando?!" Em seguida, 
perguntou ao jovem: - Quem est admirando aquela mulher? - No sei - respondeu 
Marco Polo. - S ns, seu tonto! Ficou mais de uma hora sofrendo diante do espelho 
para dois tolos observ-la - respondeu, brincando. E completou: - Se voc no brincar 
com a vida, a vida brigar com voc. Marco Polo entendeu o recado e topou a 
brincadeira. Em seguida, chamou a ateno para um homem aparentemente muito 
famoso, devia ser um ator ou cantor. Estava rodeado por seguranas e era perseguido 
por alguns reprteres tentando entrevist-lo. Agressivo, desdenhava dos jornalistas. - 
Ele deve estar pensando: "Eu sou o heri desta cidade!" Marco Polo no conseguiu 
dizer mais nada sobre o homem e percebeu que Falco no apreciara sua frase. - Voc 
escolheu o personagem errado. Ele no tem graa nenhuma, vive em torno da fama, pisa 
nos outros. Morre todos os dias um pouco, mas se acha acima dos mortais. A mdia o

produziu e a mdia o detesta. Marco Polo, incomodado, perguntou-lhe: - Quem eu 
deveria escolher? - Voc poderia escolher aquela jornalista tentando entrevist-lo. Ela 
est bufando de raiva por dentro! Deve estar pensando: "No acredito que ganho to 
pouco para entrevistar um cara to vazio." Marco Polo parou para meditar nessas 
palavras. Falco completou: - Os jornalistas so profissionais interessantes. So como 
bactrias que criticam o sistema, mas dependem dele para sobreviver. Enquanto Falco 
e Marco Polo se divertiam, algo rompeu abruptamente o momento de descontrao. 
Perto deles, um jovem de 15 anos, usurio de drogas, aproveitou estar no meio da 
multido e roubou, pelas costas, a bolsa de uma senhora idosa. Para que ela no o visse, 
empurrou-a impiedosamente. Ela caiu, feriu os joelhos e seus lbios. O infrator correu. 
A senhora gritava sem parar: "Minha bolsa! Roubaram minha bolsa!" Na confuso, os 
passantes no conseguiram identificar o ladro. Dez metros  frente estavam dois 
policiais, que ouviram os gritos. Saram correndo ansiosos para ver se o pegavam. Ao 
perceber que estava sendo perseguido, o jovem, amedrontado, atirou a bolsa no colo de 
Falco, que se levantou para procurar sua dona. Os policiais, ao passar por ele, viram a 
bolsa. Deduziram que um mendigo no poderia ser proprietrio de tal pea. Agarraram-
no. Marco Polo implorava a ateno dos policiais. Tentava em vo explicar o que eles 
no queriam entender. Um dos policiais foi at a senhora, que estava a uns trinta metros, 
e perguntou se a bolsa lhe pertencia. Diante da resposta positiva e vislumbrando joelhos 
e lbios sangrando, saiu indignado. Uma pequena multido, sequiosa por vingana, o 
acompanhava. Daria voz definitiva de priso ao violento mendigo. Falco estava 
relativamente calmo. Sabia que nenhum argumento seria convincente. O momento era 
tenso. Mais uma vez seria alvo de policiais que odiavam andarilhos. Alguns gritavam 
palavras de ordem querendo linch-lo. A agressividade gerava agressividade, revelando 
o inextinguvel ciclo da violncia. As sociedades modernas vivem tempos insanos. A 
serenidade  um artigo de luxo. Sob o coro da multido, os policiais, revoltados, mal 
recitaram os direitos do cidado e o algemaram. Que direito tem um maltrapilho? Que 
advogado ter motivao para defend-lo? Quem poderia crer na sua inocncia? Marco 
Polo tentava em vo defend-lo. Estava desesperado diante da injustia. De repente, 
Falco tentou tirar algo volumoso do bolso. Os policiais pensaram que ele estaria 
sacando uma arma. Eles o socaram, derrubaram-no e colocaram os joelhos sobre seu 
pescoo. Mas era um tubo de metal e no uma arma. Ao ver o amigo cado e ferido, 
Marco Polo tomou uma atitude inesperada. Aos berros, dizia: - Fui eu! Fui eu! Fui eu 
que roubei a bolsa! Ele  inocente! Os policiais ficaram confusos. A platia silenciou. 
Falco, perturbado, o desmentiu. Gritou: - No! Fui eu. Eu a roubei. Ningum entendeu 
nada. Os policiais estavam atnitos. Nunca tinham presenciado uma reao como essa. 
Marco Polo foi mais incisivo. - Pai! Voc  um velho. A vida inteira me protegeu. No 
tem fora nem para andar. Como

poderia roub-la? Eu roubei a bolsa e a depositei em seu colo. No assuma minha culpa! 
Sem se desculpar com Falco, os policiais simplesmente trocaram as algemas de pulsos. 
Marco Polo foi conduzido ao carro num cortejo em que a populao gritava: - Ladro! 
Ladro! Mata ele! - alguns gritavam. Ao se aproximar do carro policial, Falco pegou o 
tubo de metal, abriu-o e dele saltou uma rosa de seda vermelha. Ele a entregaria aos 
policiais como um sinal de paz. Agora, achara algum mais digno de receb-la - o 
jovem amigo. Falco era amigo das crianas. Ganhara esse presente de um menino que 
de vez em quando lhe trazia comida na praa. Os olhos do mendigo penetraram nos do 
jovem. Seu silncio gritou em agradecimento, mas estava apreensivo com as 
conseqncias da sua atitude. Marco Polo entrou no carro e partiu. Nunca havia entrado 
numa delegacia. No podia alegar inocncia, havia assumido o delito. Durante o 
inqurito, a capacidade de argumentar de Marco Polo se tornou intil. Todos estavam 
revoltados com um criminoso que rouba e machuca frgeis idosas. No interrogatrio, o 
delegado lhe perguntou se alguma vez havia estudado ou trabalhado. Marco Polo o fitou 
e disse-lhe que era um estudante de medicina. O delegado e o escrivo quase estouraram 
de tanto rir. - Era s o que me faltava! Um palhao na delegacia. No estou aqui para 
brincar, garoto gritou. - O que voc faz na vida! - Eu j lhe disse. Sou estudante de 
medicina. - Um mendigo futuro mdico? Se com essa cabeleira linda ser um mdico, 
ento eu sou Marilyn Monroe. O escrivo morria de rir. Abriu as portas e chamou vrias 
pessoas para entrar na sala. Apresentou-lhes o intelectual mendigo. Todos zombaram, 
aplaudiram, fizeram algazarra. Marco Polo comeou a entender o peso de ser uma 
pessoa excluda, os perigos de viver fora do modelo social. Porm j estava ficando 
calejado. Com sua esquisita cabeleira e seus trajes rasgados, no era possvel ser levado 
a srio. O delegado sabia que os mendigos, na maioria, eram pacientes psiquitricos. 
Pensou que Marco Polo estivesse delirando. Sem respeito, balbuciou para alguns: "No 
agento esses vermes." Em seguida, aproximou-se e gritou: - Diga-me quem voc , seu 
crpula! Se voc  um futuro doutor, ento mostre sua carteira de estudante. Marco Polo 
engoliu em seco. No tinha carteira de identidade e nem de estudante no momento. - 
Esqueci em casa. - Ah, seu espertinho, esqueceu em casa. Muito bem. O delegado no 
teve dvida. Como montara um palco, queria continuar o espetculo. - Ento me 
descreva o corpo humano. D uma aula sobre o que voc tem estudado em classe, seu 
megalomanaco. A platia foi ao delrio diante da esperteza do delegado. - Voc  uma 
fera, chefe! - diziam os subordinados, querendo exaltar seu ego. O delegado, por sua 
vez, acariciou sua cabea avantajada. Mas mexeram com um vespeiro. No sabiam em 
que armadilha tinham cado. Marco Polo, por ser perseguido nas aulas de anatomia, 
tinha de ser um excelente estudante para passar nas provas.

Ele fixou seu olhar nos presentes e comeou, com a maior segurana, a discorrer sobre 
os intricados msculos do antebrao. Logo nas primeiras informaes, as pessoas 
ficaram de olhos estatelados. Depois comeou a descrever o trajeto do nervo radial. Em 
seguida deixou-os pasmos comentando os trios e os ventrculos do corao. Relatou o 
nascimento da artria aorta, seus ramos e sub-ramos. Apontou tambm quantos ossos 
tinha o esqueleto humano. Aps ter conquistado a platia, resolveu fazer uma sutil 
chacota com o delegado. - Pelo crnio enorme que o doutor delegado possui, certamente 
seu crebro  privilegiado. Pegou uma folha de papel que estava sobre a mesa. Dobrou-a 
e pediu para medir a testa da autoridade. E fez cena. -  de se supor que o senhor tenha 
uns noventa bilhes de neurnios. O delegado, desde a infncia, tinha complexo de 
inferioridade por causa de sua cabea volumosa. Seu apelido na escola era Cabeo. 
Seus colegas zombavam dele.  medida que cresceu, tentava compensar sua baixa auto-
estima sendo agressivo e autoritrio. Impunha suas idias e no as expunha. Mas, diante 
da descrio supostamente favorvel de Marco Polo, sentiuse um intelectual. No sabia 
que Marco Polo brincara reduzindo o nmero de seus neurnios. Um crebro normal 
tem mais de cem bilhes de neurnios. Bem-humorado, Marco Polo o chamara 
solenemente diante dos amigos de "grande crebro". - Grande crebro! Nunca ningum 
me chamou desse modo. Satisfeito, passou as mos novamente na cabea, pela primeira 
vez com alvio. Diante do vasto conhecimento de anatomia do jovem e sentindo-se 
elogiado por suas palavras, mudou seu tom no interrogatrio. "Esse rapaz tem 
comportamentos estranhos, mas parece uma boa pessoa", novamente analisou consigo 
mesmo. Alm disso, ele realmente poderia ser um estudante de medicina excntrico e o 
delegado temeu sofrer um processo por abuso de autoridade. Perguntou por que Marco 
Polo estava trajado daquele jeito. Recebeu as explicaes. Diante da histria indigesta e 
no sabendo como proceder, deixou o rapaz numa sala especial at esclarecer os fatos. 
Uma hora depois apareceu uma testemunha para depor espontaneamente. Era um 
balconista que trabalhava numa loja nas vizinhanas. No momento em que transitava 
pela praa, viu o menor infrator Jogando a bolsa em cima do velho mendigo. Comentou 
ainda que esse mendigo freqentava a praa h algum tempo e era conhecido dos 
passantes por sua inteligncia e bizarrice. Contou como Marco Polo protegera o velho. 
E, antes que o delegado o inquirisse, disse que no tomara nenhuma atitude na hora 
porque o ambiente estava conturbado. Teve medo de esclarecer os fatos na praa. Mas, 
comovido com a atitude do jovem, veio depor a seu favor. O delegado esfregava as 
mos na nuca. Piscava os olhos e respirava fundo. Tentava descobrir se aquilo era sonho 
ou realidade. Estava to perplexo, que comentou: - Nunca ouvi falar sobre um indigente 
inteligente, nunca ouvi falar sobre algum assumir a culpa de outrem, nunca vi um 
estudante de medicina mendigo! Isso  demais para mim. Isso  coisa de gente maluca. - 
Ou de gente que se ama - emendou o balconista. Sabendo que havia sido autoritrio 
com Marco Polo, chamou-o  parte e tentou justificar o

injustificvel: sua atitude discriminatria. Disse que no poderia imaginar que na pele 
de um andarilho estaria um jovem da elite. E aproveitou para confirmar se ele achava 
mesmo que seu crebro tinha muitos bilhes de neurnios. - Sua cabea  a de um 
gnio. Freud teria inveja do senhor - disse-lhe Marco Polo. O delegado foi para as 
nuvens. Mas Marco Polo estava consternado. Deixou o templo da justia decepcionado. 
Sentiu na pele que a justia  forte para com os fracos e frgil para com os fortes... 
Apesar disso, saiu cantarolando. Afinal de contas, seu mestre o ensinara a brincar com a 
vida e no a brigar com ela.

Captulo 5

No outro dia, Marco Polo foi novamente encontrar o amigo. Trajava roupas usuais. 
Entretanto, dia a dia se convencia de que os normais eram mais doentes do que jamais 
percebera. Falco, desta vez, o aguardava. - Fazia tempo que no me preocupava pela 
sorte de algum. - Voc se preocupou comigo? - indagou Marco Polo, surpreso e 
prazeroso. - Voc se esqueceu de que arrumei um filho cabea-dura? - brincou. A 
situao em que os dois se envolveram foi to incomum que Marco Polo conseguiu algo 
raro do velho sbio: que ele falasse sobre seu mundo. Falco era um cofre. O jovem 
estudante s conseguiu que ele abrisse sua boca porque conquistou a sua alma. 
Sentaram-se e tiveram uma longa conversa. Marco Polo estava boquiaberto com as 
revelaes de Falco sobre o Poeta da Vida. Relatou que ele sabia transformar as coisas 
simples num espetculo aos seus olhos. Fazia da aurora um momento de meditao. 
Considerava o orvalho da manh como prolas annimas que por instantes aparecem e 
logo se dissipam, mas s os sensveis as percebem. Despedia-se da Lua como se 
despede de uma amiga. Cantava quando as gotas de chuva umedeciam a terra. Era 
apaixonado pela vida, pela natureza e pelo Autor da existncia. O jovem absorvia as 
palavras do velho qual sedento no deserto. Marco Polo sentiu que os que estavam  
margem da sociedade tinham muitas Perturbaes, mas viviam mais aventuras, pelo 
menos alguns deles. A sociedade se tornara um mercado de tdio, sem poesia e 
sensibilidade. Falco tinha uma maneira peculiar de se expressar: falava olhando para 
uma platia invisvel e no diretamente para Marco Polo. Quando queria, era um 
homem de detalhes, dissecava os sentimentos. Tinha uma habilidade impressionante de 
produzir frases de efeito. Relatou ainda que o Poeta da Vida era um grande crtico do 
sistema social. Dizia que na sociedade havia muitas pessoas tentando conquistar o 
mundo exterior, mas no o seu mundo interior. Elas compravam bajuladores, mas no 
amigos; roupas de grife, mas no o conforto. Colocavam trancas nas portas, mas no 
tinham proteo emocional. "Mendigam o po da tranqilidade. Esto piores do que 
ns, meus amigos", dizia a mim e aos que o rodeavam para beber da sua inteligncia. 
Ele gostava de proclamar que ricos so os que extraem muito do pouco e livres os que 
perdem o medo de ser o que so. "Somos ricos e livres", gostava de falar aos miserveis 
das ruas, tentando consol-los. Alguns no entendiam suas palavras, mas ainda assim 
no deixava de dizlas. De repente apareceu um mendigo pedindo comida a Falco. Ele 
s tinha alguns trocados, mas os deu. Despediu-se dele desejando que caminhasse em 
paz. - Voc deu todo o dinheiro que possua. No vai passar fome  noite? - Pode ser. 
Mas h uma fome que saciei agora. A fome de aliviar a dor de algum. Marco Polo 
emudeceu. Aps um momento de silncio, Falco olhou novamente para a sua platia 
invisvel e perguntou. - Voc passa pelos vales da dor? Marco Polo refletiu e 
considerou:

- Algumas vezes sim. - No se intimide. Eu e o Poeta comentvamos que no h 
pessoas isentas de sofrimentos, nem no meu nem no seu mundo. O que h so pessoas 
menos encarceradas que outras. Todos somos refns de algum perodo do passado. 
Falco no fez comentrios sobre as algemas do seu passado e nem Marco Polo se 
atreveu a question-lo. Continuou descrevendo o Poeta. Disse que quando a fome 
apertava, ele no pedia dinheiro, fazia os homens viajarem. - Viajarem? - Sim. Viajarem 
para dentro de si mesmos. - Como? Falco subiu num banco da praa e repetiu a cena 
que seu amigo fazia e que ele aprendera a fazer. Conclamou a multido a se aproximar. 
Comeou a declamar altissonante uma poesia  natureza. Os caminhantes, admirados, 
fizeram um semicrculo. Apontou um belo pssaro e levou a multido a viajar nas suas 
asas. - Mais sbios que os homens so os pssaros. Enfrentam as tempestades noturnas, 
tombam de seus ninhos, sofrem perdas, dilaceram suas histrias. Pela manh, tm todos 
os motivos para se entristecer e reclamar, mas cantam agradecendo a Deus por mais um 
dia. E vocs, porta dores de nobres inteligncias, que fazem com suas perdas? Em 
seguida, colocou o esgarado chapu  sua frente. Calou-se e sentou-se ao lado do 
deslumbrado Marco Polo. Os ouvintes, extasiados, o aplaudiram e lhe deram dinheiro. 
Marco Polo indagou: - Voc recebeu muitas esmolas? - No recebi esmolas. Elas 
pagaram pela viagem que lhes proporcionei. Saiu barato. Aquilo era demais para a 
mente de Marco Polo. Ele ficava atnito a cada frase de Falco. Aps a disperso da 
multido, vrios mendigos famintos se aproximaram. Falco distribuiu o dinheiro entre 
eles. Este ritual era comum. - Voc deu-lhes todo o dinheiro? - Em meu mundo, os mais 
fortes servem aos mais fracos. No seu, os mais fracos servem aos mais fortes. Qual  
mais justo? Marco Polo sentiu um n na garganta. Achou desnecessrio responder. 
Aps este fato, Falco comeou a contar a identidade social do Poeta. H semanas 
Marco Polo esperava por isso. Contou que o Poeta era um mdico respeitado na 
sociedade. Casou-se e foi apaixonado por sua esposa. Tiveram dois filhos que 
encantavam o casal. Amava-os at o limite do seu entendimento. Beijava-os 
diariamente. Raramente um pai foi to presente e to afetivo. Todavia o "pssaro" 
enfrentou a mais dramtica tempestade noturna. O ninho do Poeta desabou. Certa vez, 
toda a sua famlia viajava de carro. Chovia muito. Numa ultrapassagem, ele perdeu o 
controle do carro e sofreu um grave acidente. Toda a sua famlia se fora. Um dos filhos 
no morreu no ato. Ficou um perodo prolongado em coma. O Poeta, tambm, mas por 
poucos dias. Quando acordou, o mundo desabou sobre ele. Atormentava-se dia e noite 
com idias negativas que financiavam seu sentimento de culpa e esmagavam sua 
tranqilidade. Como conseqncia, teve sucessivas crises depressivas. Nada o 
consolava. - Ele no se tratou, no tomou antidepressivos? Para a surpresa de Marco 
Polo, Falco comentou:

- Antidepressivos tratam da dor da depresso, mas no curam o sentimento de culpa e 
nem tratam a angstia da solido... - Ningum conversava com ele? Ele no fez terapia? 
- Ele tinha sede de compreenso, de interiorizao, e no de conselhos e tcnicas frias. 
Poucos tm maturidade para entender o drama de algum que perdeu tudo. Que teoria e 
que tcnica psicolgica poderiam arrebatar a esperana no caos? Os terapeutas tinham 
teoria, mas lhes faltava sabedoria... Tais palavras causaram um eco no jovem Marco 
Polo, abriram o leque da sua inteligncia. Desejou anotar com mais detalhes as 
conversas com seu mestre. Estimulado por seus dilogos, tambm comeou a refletir e a 
anotar os comportamentos das pessoas que o rodeavam. Pouco a pouco, aprendia a ser 
um garimpeiro do indecifrvel mundo da mente humana. A conversa continuou e o 
jovem perguntou: - O Poeta nunca foi internado em hospitais psiquitricos? - Ele se 
isolava por dias no quarto da sua casa para organizar suas idias, procurar sentido para a 
sua vida, mas seus psiquiatras interpretavam esse isolamento como agravamento da 
crise depressiva. Por isso, o internavam. No hospital, os medicamentos embotavam seus 
sentimentos. No conseguia pensar, refletir, nem alimentar sua lucidez. Com isso, se 
deprimia mais ainda, deixava de se alimentar e de ter contato social. Ento conduziam-
no  terapia com eletrochoque. No apresentou nenhuma melhora. - Mas como ele foi 
parar nas ruas? Falco relatou que o Poeta, ao saber que seu filho tivera uma parada 
cardaca e morrera na UTI depois de mais de seis meses em coma, ficou agitado, entrou 
em desespero. Foi o golpe fatal. Internaram-no novamente. - Se tivesse sido 
simplesmente abraado, ouvido, amparado, talvez tivesse suportado seu caos. Mas foi 
tratado como um doente. A dor tornou-se insuportvel. No tentou suicdio, no desistiu 
de viver, mas fugiu do hospital e saiu sem destino pelo mundo. Falco contou que, tal 
como ele, tornara-se um caminhante sem endereo, pois procurava um domiclio dentro 
de si mesmo para descansar. Um lugar de conforto nos destroos das suas perdas. 
Queria resgatar uma razo para continuar respirando fisicamente e oxigenando sua 
emoo. - Como foi a sua adaptao num ambiente inspito? Suas crises no pioraram 
quando saiu sem rumo? - Nas ruas, o Poeta encontrou miserveis como ele. Conheceu 
os incompreendidos, os dilacerados pelas perdas, os mutilados pela culpa, os 
transtornados pelas psicoses, os que so considerados lixo do sistema. Ajudar a todas 
essas pessoas deu-lhe nimo. Em seguida, apontou ao longe uma mulher indigente, 
chamando-a pelo nome, dizendo que ela perdera seus pais, sua segurana, seu cho. 
Brbara no tinha mais parentes nem amparo. Tornou-se alcolatra. Saiu pelo mundo. 
Apontou outras pessoas. - Tiago era rico e perdeu tudo: dinheiro, privilgios, esperana, 
autoconfiana, capacidade de lutar. Tinha status, glamour, mas perdeu sua glria e seus 
amigos e, no suportando o anonimato, abandonou-se. Aquele de casaco preto  Toms. 
Foi um brilhante jornalista. O alcoolismo e as crises depressivas roubaram-lhe o 
emprego, a mulher, os bens e a serenidade. Em seqncia, apontou para mais duas 
pessoas. - Joo e Adolfo ainda possuem psicose, deliram, atormentam-se com imagens 
aterradoras.

Ambos foram professores universitrios. Cansaram de suas crises e das internaes. 
Fizeram do mundo um lugar mais amplo para fugir de seus fantasmas. Em seguida, 
apontou uma mulher magrrima. Joana fora modelo na sua adolescncia. Engordou, 
perdeu as curvas do corpo, a beleza exterior e admirao social. Foi descartada, abateu-
se, teve anorexia nervosa. Seus pais adotivos morreram. Ela ficou s. Foi internada de 
hospital em hospital, at que resolveu procurar um lugar onde ningum se preocupa 
com a aparncia. - A sua sociedade usa as pessoas e as descarta como objetos. Cuidado, 
meu jovem! Os aplausos no duram. Marco Polo estava impressionado. Todas aquelas 
pessoas tinham riqussimas histrias, porm passavam despercebidas aos 
preconceituosos olhares dos passantes. "Ningum teria coragem de abandonar 
completamente o conforto social se no tivesse uma vida dilacerada, um motivo 
fortssimo", refletiu. Respirou fundo e, em seguida, relatou seu encontro com o amigo. 
Disse que o Poeta chorara muitas vezes ao longo das estradas. Tinha varado noites 
derramando lgrimas nas praas das cidades e nos becos escuros perguntando: "Por 
qu? Meus filhos, onde vocs esto?" Numa dessas praas, Falco encontrou-o 
pranteando. As lgrimas os aproximaram. Ambos no disseram nada. Choraram juntos, 
cada um pela sua histria. Nenhum dos dois precisou apresentar-se ou mostrar suas 
credenciais. - Eu o compreendi sem ouvi-lo e ele me entendeu sem escutar-me. Das 
lgrimas nasceu uma grande amizade. - Respirando pausadamente, completou: - Para o 
Poeta, ajudar os abandonados era prestar uma homenagem aos seus filhos e  sua 
esposa. Pouco a pouco, ele resgatou a f em Deus. Comeou a ver a assinatura do 
Criador no delrio de um psictico, no desespero de um deprimido, no perfume de uma 
flor, no sorriso de uma criana. Marco Polo ouvia sua prpria respirao, enquanto 
escutava o relato de Falco. - Desse modo, o Poeta saiu do casulo, levantou-se das 
runas. Fez das suas perdas uma cortante lmina para lapidar sua inteligncia, coisa rara 
no seu e no meu mundo. Sua saudade jamais foi resolvida, mas as perdas no mais o 
asfixiaram. Por isso, citava seus filhos e sua esposa sem culpa e com alegria nas longas 
conversas com os excludos. Eles estavam vivos no nico lugar em que jamais poderiam 
morrer - dentro dele. - Voc foi ajudado por ele? A pergunta de Marco Polo ecoou 
dentro de Falco. O homem forte dissipou-se, entristeceu-se e conteve seus soluos. Sua 
voz emudeceu. Marco Polo leu seu silncio. Percebeu que Falco no perdera apenas 
um amigo, mas talvez toda a sua famlia. Tocou em seus ombros afavelmente em sinal 
de compreenso. Levantou-se. Era o momento de partir e no de dialogar. Enquanto 
caminhava para casa, sabia que seu amigo caminhava pelas avenidas do seu passado. 
Roupas rasgadas, coraes despedaados, feridas abertas, enfim, uma histria de 
segredos que fora reconstituda e tornou-se uma brilhante poesia. "Foi uma pena no ter 
conhecido o Poeta", pensou. E refletiu se no estava perdendo a oportunidade de 
conhecer outros Poetas, outras pessoas interessantes que estavam passando pela sua 
vida, mas que s conhecia superficialmente. Pensou particularmente em seu pai, que 
morava em uma cidade distante da sua. O senhor Rodolfo sempre fora incompreendido 
pelo seu idealismo social e por no se preocupar com o

amanh. At sua pr-adolescncia, Marco Polo o admirava e era influenciado pela sua 
habilidade em contar histrias. Todavia,  medida que foi crescendo, os atritos de sua 
me, Elisabete, que era ambiciosa, com o pai, que era desprendido, aumentaram. Ela 
acabou exercendo maior influncia sobre o filho nos anos que antecederam a sua 
faculdade. Elisabete amava seu marido, mas freqentemente o criticava para Marco 
Polo, dizendo que seu pai deveria ter menos sonhos e mais dinheiro. Tomando o partido 
da me, Marco Polo teve alguns atritos com seu pai. Chegou a pensar que ele era um 
fracassado, um alienado e uma Pessoa mal-resolvida. Agora que estava com uma 
personalidade mais formada e tinha melhor conscincia crtica, precisava julg-lo 
menos e compreend-lo mais. Seu contato com Falco o fez ver o mundo por ngulos 
que jamais vira. Precisava ir alm da aparncia. Necessitava descobrir os traos sutis 
que compunham o quadro de pintura dos comportamentos do seu pai. Chegando em 
casa, escreveu-lhe uma carta. Pai, Desculpe-me pelas atitudes impensadas. Eu sei que o 
feri pelas minhas crticas precipitadas. Perdi tanto tempo julgando-o. Eu tenho a 
impresso de que no o conheo interiormente, embora tenha vivido com voc num 
pequeno espao durante tantos anos. Fomos estranhos morando na mesma casa. 
Gostaria de saber quem voc , quais foram as lgrimas que voc no chorou, quais 
foram os dias mais tristes da sua histria e quais foram seus desafios que nunca teve 
coragem de me contar?! Pai, se eu pudesse retroceder no tempo, no apenas pediria que 
voc voltasse a me contar as belas histrias de aventura, mas principalmente que me 
contasse a sua prpria histria, falasse dos seus projetos, dos seus sonhos, das suas 
derrotas. Tenho certeza de que ela  fascinante. Eu tenho muitos defeitos, mas gostaria 
de ter uma nova chance de ser seu amigo. Ao receber essa carta, o senhor Rodolfo ficou 
profundamente comovido. No sabia o que se passava com seu filho, mas tomou 
conscincia de que tambm no o conhecia. Poderia ter brincado, conversado e vivido 
mais momentos descontrados com ele. Agora, separados pela distncia fsica, 
comearam a se corresponder, a se aproximar e a se admirar. Marco Polo entendeu que 
um dia a maioria das pessoas precisaria recolher seus pedaos e reescrever sua histria. 
Contudo, aprendeu que reconstruir as relaes sociais no era uma tarefa simples - 
exigia audcia. Ao anotar o ltimo encontro com o filsofo mendigo, fechou seu texto 
escrevendo: "Muitos dos que tm endereo certo passam pela existncia sem nunca 
percorrer as avenidas do prprio ser. So forasteiros para si mesmos. Por isso, so 
incapazes de corrigir suas rotas e superar suas loucuras."

Captulo 6

Marco Polo chegou s 15 horas na praa. O dia fora cansativo, mas encontrar Falco era 
um convite a novas experincias. Ele estava com um comportamento estranho, tenso, 
fechado. Parecia querer distncia. Remoer o passado no dia anterior mexera com seu 
nimo. Marco Polo tentava distra-lo, mas seu olhar era opaco, sem o brilho das outras 
vezes. Estava circunspecto. Percebendo que a conversa seria um monlogo, resolveu ir 
embora. Respeitou seu momento. "No vale a pena pressionar quem no est disposto 
ao dilogo", refletiu. Aps os primeiros passos, Falco disse-lhe: - No  recomendvel 
que os normais se aproximem de mim. Marco Polo, intrigado, sabia que ele no se 
abriria se no provocasse sua inteligncia. Mas no poderia ser estpido. Arriscou dizer: 
- No h um normal que no seja anormal e nem um anormal que no seja passvel de 
ser um mestre. Falco olhou admirado o amigo, mas desferiu-lhe um golpe inesperado: - 
Disseram-me que sou perigoso para sua sociedade. O que voc espera de mim? Sou um 
doente mental.  melhor desaparecer. Marco Polo ficou calado. Sempre fora impulsivo, 
mas estava aprendendo a difcil arte de pensar antes de reagir. Aps um momento de 
introspeco, disse: - Os aparentemente saudveis sempre cometeram mais loucuras 
contra a humanidade do que os loucos. Voc no  perigoso, a no ser para os que tm 
medo de pensar. Falco esfregou a mo direita na testa, levantou-se, foi at uma flor e 
comeou a falar com ela. - Voc  to linda e eu sou to rude, mas obrigado por invadir 
meus olhos e me encantar sem nada exigir! Marco Polo tambm se levantou. Foi at 
uma rvore prxima, abraou-a, beijou-a e disse algumas palavras em voz audvel: - 
Voc  to forte! Suportou tantas tormentas. Mas fortaleceu-se e hoje d sua sombra 
gratuitamente para mim que sou to frgil. Obrigado por sua perseverana! Falco 
entreolhou sutilmente o jovem e deu um sorriso. Os transeuntes tropeavam uns nos 
outros ao ver a cena. Davam risadas. Faziam gestos expressando que estavam diante de 
dois loucos. Voltando-se para eles, Falco declarou: - Quem nunca abraou uma rvore 
ou conversou com uma flor nunca foi digno das ddivas da natureza! No sejam 
insensveis! Aprendam a amar quem tanto lhes d! Envergonhadas com as idias do 
mendigo, as pessoas se dispersaram reflexivas. Trinta metros adiante, um adolescente 
com cabelo estilo punk abraou um imenso tronco e beijou-o. Ao seu lado, um idoso 
senhor abaixou-se diante de uma pequena flor. Parecia reverenci-la. Um adulto de 
terno e gravata tambm abraou um tronco de rvore por um minuto. Outras pessoas 
repetiram a cena. A sensibilidade foi contagiante. Em seguida, os amigos sentaram-se 
no banco e reiniciaram uma longa conversa. Depois do Poeta, Marco Polo se tornara a 
primeira pessoa para quem Falco relataria a sua surpreendente histria. Nem seus 
companheiros de caminhada conheciam certos becos da sua vida.

- Por que voc tem o apelido de Falco? - Coisa do Poeta. Dizia exageradamente que 
minha inteligncia era aguada como os olhos de um falco e minha criatividade voava 
alto como as suas asas. Mas, na realidade, nasci das cinzas. - Como assim? Uma breve 
pausa. Falco olhou para sua platia invisvel e comentou. - Eu sou Ph.D. em filosofia. 
Marco Polo quase caiu do banco. O cu da sua mente clareou subitamente. Agora estava 
entendendo o gnio que o ensinava. - Fui professor de filosofia numa grande 
universidade. J brilhei no pequeno mundo de uma sala de aula, embora tenha sido 
sempre crtico do sistema acadmico. Escrevi textos, orientei teses, formei alguns 
pensadores. Em seguida, falou espontaneamente da sua intimidade. Relatou que sua 
famlia era de origem humilde e saturada de problemas. Seu pai era explosivo, 
materialista e alcolatra. Sua me, tmida, afetiva e vtima da agressividade do marido. 
Ele crescera no centro da misria fsica e emocional. Por serem pobres, seus pais no 
tinham condies de financi-lo na universidade. - Para conquistar meus sonhos, tive de 
estudar e trabalhar muito. Mas no trabalhei meus conflitos. - Voc constituiu famlia? 
Mais uma pausa. Desta vez longa e dolorida. - Eu era considerado o melhor aluno da 
faculdade e o mais destacado orador. Encantei uma linda jovem da mesma universidade. 
Amei e fui intensamente amado por ela. O pai dela era um famoso e rico advogado. Dr. 
Pedro era fascinado pelo dinheiro e vidrado em status social. Continuou relatando que 
no conseguiu dar o padro que sua esposa tivera na casa dos pais. O pai dela sempre 
estimulou a separao. Era frustrado pelo fato de a nica filha no ter se casado com um 
juiz ou promotor de justia. Ter um filsofo e um pobre professor universitrio na 
famlia foi um pesadelo que sempre o perturbou. - Os professores so heris annimos, 
meu amigo. Trabalham muito, ganham pouco. Semeiam sonhos numa sociedade que 
perdeu sua capacidade de sonhar. Ao ouvir esse relato, Marco Polo ficou embaraado. 
Passava os olhos sobre a imagem de Falco enquanto ele discorria sobre si mesmo e no 
entendia como uma pessoa intelectualmente brilhante pde ser completamente excluda 
da sociedade. Ficou pensando se Falco teve perdas semelhantes s do Poeta. Desenhou 
um quadro imaginrio com falecimentos, depresso e solido. De repente, piscou os 
olhos, fez um movimento rpido com a cabea e voltou para a realidade. Sentiu Falco 
abatido, percebeu que no queria tocar mais no assunto da famlia. Marco Polo, 
procurou mudar um pouco a direo da conversa. - Quando voc comeou a adoecer? - 
Seis anos depois de me casar, comecei a ter insnia. Meus pensamentos eram agitados e 
acelerados. Estava ansioso, no conseguia coordenar minhas idias. Milhares de 
imagens transitavam na minha mente num processo ininterrupto. Pouco a pouco, 
comecei a perder os parmetros da lgica. J no conseguia distinguir a realidade da 
fantasia. Falco dissecava suas mazelas com a preciso de um cirurgio na sala de 
anatomia. S conseguia fazer tal descrio porque era um brilhante pensador que muitas 
vezes penetrara na sua prpria histria tentando compreend-la. Marco Polo sentia 
opresso no peito e n na garganta

diante da exposio do amigo. - Comecei a ter parania. Achava que algumas pessoas 
liam meus pensamentos e queriam controlar minha inteligncia. As idias de 
perseguio me atormentavam. Ter inimigos fora de si  perturbador, ter dentro da 
prpria mente  apavorante. A sensao de ser invadido no nico lugar em que devemos 
ser livres me assombrava. - Voc no tinha controle do seu raciocnio? - No comeo, 
desconfiava dos meus personagens, tinha certa conscincia de que eram irreais, mas eles 
se avolumaram e pouco a pouco comecei a lutar com eles como se fossem reais. Eles 
tornaram-se predadores e eu, a caa. Marco Polo estava perplexo com o relato vivo da 
destruio de uma complexa personalidade. - Nesse embate delirante, perdi a maior 
ddiva de um ser humano: a sua conscincia crtica, a sua identidade. No sabia quem 
eu era. A minha mente se tornou um tenebroso teatro. Antes da psicose, eu era o ator 
principal desse teatro, semanas depois era um ator coadjuvante, meses depois tornei-me 
platia da minha misria psicolgica. Foi horrvel. Fiquei confuso, desorientado e 
amedrontado. Minha estrutura intelectual esfacelou-se. Marco Polo no sabia o que 
dizer. No conseguia formular uma pergunta. Falco parecia algum to lcido, no 
imaginava que tivesse vivenciado tamanho sofrimento. Passado o primeiro impacto, 
indagou: - Como foi que voc parou de lecionar? - Os alunos admiravam minha 
eloqncia. Era o professor mais procurado e o mais solicitado para ser paraninfo das 
turmas. Batalhava para que aqueles garotos pensassem, no fossem formatados, no se 
tornassem repetidores de idias, mas engenheiros de novos pensamentos. Mas, quando 
comecei a ter minhas crises, foi um desastre. Falco disse que quem o conhecia ainda o 
respeitava, mas os demais zombavam dos seus gestos bizarros. s vezes, ficava dias 
sem dar aulas. Fez mais uma pausa e contou como fora excludo da universidade. Certa 
vez, ensinava sobre a tica dos filsofos gregos para uma turma de direito. A sala estava 
cheia. Falava com vibrao. Subitamente interrompeu sua fala e comeou a discutir com 
os personagens do seu imaginrio. Os alunos se entreolhavam assustados. - Eu delirava 
e alucinava, sentia-me na Grcia Antiga, sentado num cenculo repleto de pensadores, 
entre eles Plato. Levantei a voz e proclamei: "Plato, a tica est morrendo! A 
violncia faz parte da teia social. As pessoas no sabem perscrutar os recnditos das 
necessidades dos outros!" Ao fazer a descrio dos fatos ocorridos na sala de aula, 
Falco inspirou profundamente e soltou o ar como se quisesse expulsar os demnios do 
passado. Marco Polo estava ansioso para saber do desfecho. - Ao ouvir minha fala, os 
alunos aplaudiam e assobiavam, tanto pelo brilho das idias quanto pela loucura do 
espetculo. No compreendiam que eu estava num surto psictico. Falco comentou que 
os aplausos dos alunos o excitaram. Ele subiu na cadeira e continuou seu discurso com 
mais veemncia. Alguns gritaram: "Louco! Louco!" Ento voltou-se para eles e 
comeou a provoc-los. - Gritei para os alunos: "Eis uma platia de servos gregos! 
Sorriem das misrias alheias porque escondem suas misrias debaixo das suas vestes. 
Vocs no sabem filosofar, s sabem ser comandados. Servos!"

Marco Polo exclamou: - Mas suas idias tinham coerncia! - No h louco que no seja 
lcido e nem lcido que no seja louco. O problema  que os psicticos mesclam idias 
coerentes com delrios na mesma cena. Os pensamentos ficam entrecortados. Eu parava 
de falar com os alunos e comeava a conversar com meus personagens. Rebatia um, 
concordava com outro, discutia com outros. Todavia, brincando com seu passado, 
Falco disse a Marco Polo: - Eu fui to genial que Plato ficou assombrado com meus 
pensamentos...! Mas, em seguida, olhando vagamente para o espao, recordou o 
desfecho do doloroso momento. Quando provocou os alunos, saiu imediatamente dos 
aplausos para as vaias. Alguns chamaram rapidamente o diretor da faculdade. O diretor 
solicitou que trs seguranas o retirassem do ambiente. Ele se recusou. Diante do 
tumulto, outros professores se aproximaram. Eles o agarraram como a um animal. - 
Senti-me como Scrates, condenado  cicuta, destinado ao eterno silncio. E bradei 
novamente: "Hipcritas! Destituam as armas! Enfrentem-me no campo das idias!" 
Diante do breve silncio de Falco, Marco Polo se antecipou com ansiedade: - Eles o 
levaram para um hospital psiquitrico? - Quando puseram as mos em mim, eu tinha a 
fora de um gladiador diante das feras. Consegui escapar. Subi na mesa e proclamei o 
hino  liberdade, uma poesia filosfica que escrevi nos momentos de lucidez. - Voc 
ainda se lembra dela? - Algumas frases. Falco subiu no banco da praa e proclamou-a. 
Ao ouvi-la, uma multido se ajuntou. Vocs podem calar a minha voz, mas no os meus 
pensamentos! Vocs podem acorrentar meu corpo, mas no a minha mente! No serei 
platia dessa sociedade doente, serei autor da minha histria! Os fracos querem 
controlar o mundo; os fortes, o seu prprio ser! Os fracos usam as armas; os fortes, as 
idias! Aps proclam-la, a platia o ovacionou. Falco sentou-se e relaxou. Voltou a 
falar com Marco Polo. Contou que o diretor chamara a polcia que por sua vez chamara 
a ambulncia de um hospital psiquitrico. Colocaram-no numa camisa-de-fora e 
injetaram-lhe uma dose de um potente tranqilizante. Falco fitava os enfermeiros. 
Sentia-se vtima da maior injustia do mundo. Enquanto a droga no o induzia ao sono, 
o espetculo prosseguia. Continuava a conversar com seus personagens fictcios. 
Devido  resistncia  internao, foi considerado no hospital um paciente com alto 
potencial de agressividade. Ficou isolado por uma semana num quarto mal iluminado. O 
que ningum foi capaz de fazer, as drogas conseguiram: calar as idias do filsofo. 
Doses macias de medicamentos invadiram seu crebro, atuaram no processo de leitura 
da memria, bloquearam as janelas da sua histria, obstruram a construo de 
pensamentos, refrearam sua racionalidade. Parecia um zumbi no hospital. Seus delrios 
e alucinaes foram silenciados todavia, o pensador tambm. Ficou dois meses 
internado. Foi a primeira de uma srie de internaes. Depois que saiu do

hospital, retornou  universidade. Sua musculatura estava rgida, sua voz pastosa e 
trmula, seu raciocnio lento. No era mais o eloqente Falco. A medicao que o 
ajudou foi a mesma que o aprisionou. Estava numa camisa-de-fora qumica. Alguns 
alunos, ao encontr-lo no corredor, debochavam disfaradamente, mas ele percebia. 
Outros, que conheciam sua inteligncia, se achegavam, abraavam-no e agradeciam sua 
sabedoria, mas ficavam espantados ao v-lo salivando e sem expresso facial. Alguns 
saam com lgrimas nos olhos. - Eu queria voltar a fazer o que mais amava: ensinar. 
Mas como um louco poderia dar aulas? O reitor da universidade disse que eu no 
Poderia mais lecionar. Para ele e para alguns diretores dos cursos em que eu lecionava, 
minha doena era incurvel e contagiosa, como nos tempos da varola. Eles acreditavam 
que Falco poderia tumultuar o ambiente com sua Psicose. No percebiam que os 
pacientes psicticos precisam de incluso e no de excluso. No compreendiam que 
muitos deles so dotados de refinada inteligncia e sensibilidade. J no bastava o nus 
pesado da doena que transportavam, tinham que carregar o nus da rejeio. - Voc 
esquece milhares de sofrimentos na vida, mas o sentimento de rejeio  uma dor 
inesquecvel. Solicitaram que Falco se afastasse e se aposentasse por incapacidade. 
Sentindo-se intil, seu quadro se agravou. Sua auto-estima e autoconfiana 
estilhaaram-se. No conseguia mais ter dignidade diante de sua famlia e da sociedade. 
Desse modo, foi excludo. Disse que sempre se sentira fora do ninho dos intelectuais, 
mas, agora, fora banido sem compaixo.

Captulo 7

O medo de enlouquecer sempre perturbou o ser humano. O fato de perder o juzo, no 
discernir a realidade, desorganizar o pensamento, romper com a conscincia de si 
mesmo e do mundo angustia milhes de pessoas de todas as eras e todas as sociedades. 
Muitos crem erradamente que enlouquecero porque se afligem com idias absurdas, 
sofrem por pensamentos fixos, angustiam-se por imagens mentais que nunca quiseram 
produzir. Mas, por terem coerncia em seu raciocnio e saberem distinguir a imaginao 
da realidade, no desenvolvem confuso mental. Loucura  um nome popular carregado 
de discriminao e de falsos medos. O nome cientfico  psicose. H vrios tipos de 
psicoses que se apresentam com vrios graus de intensidade e, conseqentemente, com 
vrios nveis de superao. A mais temvel das psicoses havia penetrado no tecido da 
personalidade de Falco, comprometendo a sua racionalidade. Embora tivesse perodos 
de serenidade, durante as crises ou surtos psicticos, ele perdia a conscincia de quem 
era, do que fazia e, s vezes, de onde estava. No conseguia administrar seus prprios 
atos. Como tinha refinada cultura e era um pensador, nos perodos de lucidez esforava-
se para encontrar as causas do seu caos psquico. Um esforo dantesco para quem estava 
com seu eu fragmentado. Todavia, O tratamento psiquitrico no evolua. Havia pouca 
troca de idias entre ele e seus mdicos psiquiatras. No discutiam sobre "como" e "por 
que" construa em seus delrios personagens que o atormentavam. Psiquiatra e paciente 
viviam mundos distintos e usavam linguagens distintas. No outro dia Falco continuou a 
contar a sua histria ao jovem amigo. Sentia necessidade de falar, e Marco Polo, a 
necessidade de ouvir. Por isso, indagou: - Voc ficou decepcionado com seus 
psiquiatras? Com a voz pausada, ele disse: - No com todos. Em minhas internaes 
encontrei alguns psiquiatras humanos, solidrios e cultos, mas o contato era raro. Com a 
maioria, eu me decepcionei. Devido s idias de perseguio e a crena fatal de que 
estava sendo controlado, diagnosticaram minha doena como esquizofrenia paranica. 
Sabe o que  carregar o peso de ser um psictico? - Nem imagino. -  inimaginvel. Os 
diagnsticos podem ser teis para os psiquiatras, mas podem tornar-se um crcere para 
os pacientes. Eu no era mais um ser humano, era um esquizofrnico. Falco estava 
com os olhos embebidos de lgrimas. Tais palavras se tornaram inesquecveis para 
Marco Polo. - Voc tentava ajudar-se? - A nica coisa saudvel que me restava quando 
eu saa das minhas crises era pensar em meu mundo, tentar entender-me, reorganizar 
minha personalidade fragmentada, mas me tratavam como um doente mental incapaz de 
construir brilhantes idias e dar grandes saltos interiores. Sentia-me como um rio 
represado que produzia muitos pensamentos perturbadores mas no tinha para onde 
esco-los.

- Por que os doentes mentais so to discriminados na sociedade? - Nunca leu Foucault? 
- No! - Devia ler. Foucault escreveu a Histria da loucura na Idade Clssica. Esta obra 
mostra as razes antropolgicas pela qual se classifica um indivduo como louco. A 
psiquiatria formatou essa classificao e marginalizou todos os comportamentos que se 
afastavam dos padres de comportamento universalmente aceitos em uma sociedade. 
Muitos erros foram cometidos, muitas pessoas foram tachadas como loucas apenas por 
ter comportamentos que fugiam ao trivial. - Qual a sua definio de loucura? - Quem 
pode defini-la? Classicamente loucura  toda desagregao duradoura da personalidade 
que foge aos parmetros da realidade. Mas quais so esses parmetros? So psicticas 
as pessoas que se sentem perseguidas por personagens criados em seu imaginrio. Mas 
as pessoas que perseguem personagens reais, como generais que deflagram guerras, 
soldados que torturam, policiais que matam, polticos que controlam, o que so? So 
psicticas as pessoas que tm delrios de grandezas, que acham que so Jesus Cristo, 
Napoleo, Buda. Mas e os mortais que se sentem deuses pelo dinheiro e poder que 
possuem, que no se importam com a dor dos outros, so o qu? Para mim h uma 
loucura racional aceita pela sociedade e uma loucura irracional condenada por ela. Essas 
palavras saram dos pores da memria de Falco, do lugar mais secreto do seu ser. 
Revelava um pensador culto com um passado despedaado e uma emoo 
profundamente ferida. Elas se alojaram para sempre na memria do jovem Marco Polo. 
Falco completou: - Alguns psiquiatras diziam que minha psicose era crnica, 
incurvel, porque tinha fundo orgnico. Estava condenado. - Como assim? - Diziam que 
algumas substncias estavam alteradas no meu crebro e s com medicamento poderiam 
corrigi-las. Para eles, o aparelho psquico  apenas um caldeiro de reaes qumicas. - 
Voc no concorda com essa tese? - Como um filsofo pode crer numa tese to rgida, 
limitada e dbil?! A filosofia tem milnios de existncia. A psiquiatria tem pouco mais 
de um sculo. Ela teve avanos impressionantes, mas ainda est na sua adolescncia e, 
como a maioria dos adolescentes, a psiquiatria tem um comportamento prepotente.  
uma cincia importante, mas no  uma cincia madura. Falta-lhe humildade para 
compreender o mundo insondvel da psique humana. Falco estudava a histria da 
psiquiatria, seus avanos, hipteses e limitaes. Sua cultura nesse campo tornara-se 
vasta, superava a da maioria dos psiquiatras. Em seguida, fez uma complexa explanao 
sobre a relao da psique - alma - com o crebro. Disse que muitos filsofos 
discorreram sobre a metafsica, como Aristteles, Agostinho, Descartes, Spinoza. 
Revelou que a metafsica  a rea da filosofia que discursa sobre a alma humana, 
afirmando que ela ultrapassa os limites estritamente fsicos do crebro. Descartes, 
seduzido pela metafsica, a considerava como objeto primeiro do mundo das idias. 
Kant a submeteu aos limites da razo. Todavia, a metafsica sofreu debates e crticas 
acaloradas a partir do materialismo de Nietzsche, do determinismo histrico de Hegel, 
do marxismo, do existencialismo de Sartre, do positivismo lgico. Assim, deixou de ser 
debatida. - Numa sociedade materialista, lgica, pragmtica, encarcerada pela 
matemtica e fascinada

pela computao, a metafsica foi quase aposentada como objeto de discusso cientfica. 
Falco defendia a metafsica como explicao para os indecifrveis fenmenos 
psicolgicos que nos tecem como seres pensantes. Aps esse comentrio, olhou para 
seu jovem discpulo e questionou: - Somos apenas um crebro sofisticado que tomba 
numa sepultura para no ser mais nada? Nossa histria se esgota nessa breve existncia? 
So dbeis os bilhes de seres humanos ligados a milhares de religies que crem numa 
vida que transcende a morte? O intelecto humano  apenas um computador cerebral? 
No creio. Eu creio que o mundo bioqumico do crebro no pode explicar 
completamente as contradies dos pensamentos, o territrio das emoes, os vales dos 
medos. Afagando a cabea de Marco Polo, Falco foi longe no seu raciocnio: - Grave 
essa frase, meu filho: A vida  um ponto de interrogao. Cada ser humano, seja ele um 
intelectual ou iletrado,  uma grande pergunta em busca de uma grande resposta... 
Comentou que o tamanho das perguntas determina o tamanho das respostas. A filosofia 
perguntou muito ao longo de milnios, e a psiquiatria, por ser jovem, perguntou pouco e 
respondeu rpido. Quem responde rpido corre riscos enormes. Marco Polo levou um 
choque de lucidez. Tentava acompanhar o pensamento de Falco, mas no era uma 
tarefa fcil. As idias filosficas e a compreenso de vida do velho amigo mudariam 
para sempre sua viso como futuro psiquiatra. Por desejar explorar o desfecho da sua 
doena, perguntou: - Como era sua relao com os psiquiatras? - Os psiquiatras tm um 
poder que nenhum ser humano jamais teve na histria. Os reis e ditadores tiveram armas 
para ferir o corpo e aprision-lo. Os psiquiatras tm medicamentos que invadem o 
inconsciente, um lugar onde nascem as idias e as emoes. Um espao jamais 
penetrado, que nem os prprios psiquiatras conhecem. - Voc precisava dessas drogas 
para combater seus delrios? Com ar de tristeza, o pensador expressou: - Meu crebro 
precisava de medicamentos, mas minha alma precisava de dilogo. Todavia, quando 
somos rotulados como psicticos, raramente algum reconhece que temos um mundo 
complexo com necessidades intrincadas. Criamos monstros em nossas crises e temos de 
conviver sozinhos com eles. Raramente algum quer reparti-los conosco. Marco Polo se 
interiorizou, olhou para sua histria e percebeu que tambm criava seus monstros e no 
os dividia. - Creio que todos ns criamos nossos monstros, nossos medos, inseguranas, 
pensamentos mutiladores, mas raramente encontramos pessoas dispostas a dividi-los. - 
Quando no h como reparti-los, temos de enfrent-los, caso contrrio, no 
sobrevivemos. Mas a maioria foge de seus monstros. Marco Polo comeou a ter um 
apreo pela filosofia, o que o levaria a se tornar um estranho no bero da medicina. Ao 
interpretar a histria de Falco, compreendeu que os gnios e os psicticos sempre 
estiveram prximos, sempre foram incompreendidos. Freqentemente a solido os 
envolveu. Percebeu tambm que, no fundo, todos somos abraados por alguns 
tentculos da solido. Alguns falam muito, mas se calam sobre aspectos ntimos de suas 
vidas. Concluiu que uma dose de solido estimula a reflexo, mas a solido radical 
estimula a depresso.

Compreendeu ainda que, quando o mundo nos abandona, a solido  tolervel; mas, 
quando ns mesmos nos abandonamos, ela  insuportvel. Falco rompeu sua solido, 
tornou-se companheiro de si mesmo e encontrou um grande amigo, o Poeta.

Captulo 8

No outro dia Falco revelaria a parte mais dolorosa da sua histria. Queria andar, 
movimentarse, para discorrer sobre sua lcera emocional. Marco Polo o acompanhou. 
Pausadamente, entrou logo no assunto. - Dbora, minha ex-esposa, era uma mulher 
linda, afetiva e corajosa. Enfrentou seu pai e sua sociedade para estar ao lado de um 
filsofo pobre. Apreciava meu modo simples de viver. Correu riscos por me amar. 
Lutou por mim. No comeo, acreditou at em meus delrios. Mas no suportou. Eu a 
feri muito, sem querer machuc-la. Enquanto caminhavam, suas lgrimas saram da 
clandestinidade e comearam a percorrer as estrias do seu rosto. - Voc teve filhos? 
Falco olhou para o cu. Um sopro de brisa afagou seu rosto. Seus cabelos longos e 
brancos caram-lhe sobre o rosto. Respirou densamente e, como se estivesse viajando no 
tempo, meneou afirmativamente a cabea. - Um nico filho. Pela primeira vez, 
mostrava-se sem qualquer proteo diante de Marco Polo. O ponto central de sua vida 
estava sendo desvendado. Marco Polo pensou que provavelmente o filho estivesse 
morto. No queria perguntar, mas, diante do silncio prolongado do amigo, no se 
conteve: - Seu filho est vivo? Imagens mentais povoaram o imaginrio de Falco, 
como se fossem representaes cinematogrficas. Ele se viu de braos abertos e seu 
filho com a idade de quatro anos correndo para um abrao amoroso. O menino dizia: 
"Papai, eu te amo." Brincando com ele, o pai respondia: "Eu no te amo, eu te 
superamo! Sou apaixonado por voc, meu pupilo." Pupilo era o apelido carinhoso que o 
pai lhe dera. Pegava seu menino no colo, desarrumava seus cabelos e lhe fazia ccegas. 
Ao voltar a si, comentou: -  provvel que o Lucas esteja vivo. Recebi raras notcias 
sobre ele. Marco Polo, afoito, fez uma pergunta bvia, aquela que todo mundo  capaz 
de fazer e a que Falco menos precisava ouvir: - Por que no recebe notcias constantes 
sobre ele? A resposta foi contundente: - Porque elas me esmagam de sentimento de 
culpa. Marco Polo sentiu um n na garganta. - Quanto tempo faz que no o v? - Mais 
de vinte anos. "Vinte anos  muito tempo", pensou Marco Polo. Sentiu que, se estivesse 
no lugar de Falco, jamais se afastaria do seu filho, fosse qual fosse a circunstncia. 
Criticou-o rapidamente, sem conhecer a verdadeira histria. Falco prosseguiu contando 
que, quando saa das suas crises, tinha vergonha da sociedade, sentia-se julgado e 
observado por todos, no por estar delirando, mas por considerar-se o ltimo dos seres 
humanos. Compreendia a dor da rejeio que os leprosos na poca de Cristo sentiam ao 
serem excludos da sociedade.

A partir dos cinco anos de Lucas, Falco comeou a ter crises. Todavia, amava tanto seu 
filho, que nos perodos de lucidez fazia um esforo descomunal para brincar com ele e 
ensinar-lhe. Era sua razo de viver. Mas as crises aumentaram. Seu ltimo psiquiatra 
seduziu sua esposa. Dbora estava frgil, desprotegida e carente. Envolveu-se com ele. 
Certa vez, Falco descobriu algumas cartas secretas que o psiquiatra escrevera para ela. 
Apesar das doses altas de remdios, conseguiu chorar, os lbios trmulos, mas no 
reagiu. Sabia que a perdera. O psiquiatra, faltando com a tica, disse a ela que Falco 
seria sempre um doente mental. Estimulou sua separao para o bem do prprio filho. 
Confusa, Dbora pediu conselho ao pai. Dr. Pedro, que no gostava do filsofo pobre, 
tinha verdadeiro desprezo pelo filsofo psictico S faltou comemorar. Enquanto ouvia 
a histria do amigo, Marco Polo comeou a desculp-lo. Reconheceu mais uma vez 
como seus julgamentos precipitados eram superficiais. Devido s internaes, Falco 
ficava semanas sem ver Lucas. A dor do afastamento da esposa era suportvel, mas a do 
filho, indecifrvel. Algumas vezes a saudade era to grande que Falco ia peg-lo na 
escola, mesmo fazendo gestos e trejeitos com os seus personagens fictcios. Os garotos 
zombavam dele, o menino procurava defender o pai, brigava corn eles. - Como pode um 
pequeno filho defender seu pai, um homem? Lucas me abraava e me protegia! - falou, 
com orgulho do filho. Mas, em seguida, caiu em si e ficou aflito, pois no o tinha mais. 
Aceitou a separao de Dbora, embora no tivesse muita condio de escolher. 
Facilitou as coisas, porque queria o melhor para ela e para o filho. J causara muitos 
transtornos. Na separao, o juiz, conhecedor do caso, estabeleceu que ele visitasse 
Lucas uma hora duas vezes por semana. Era pouco para quem amava muito. Falco no 
conseguia cumprir a ordem judicial. O juiz, diante da carta do psiquiatra, namorado de 
Dbora, considerou o pai perigoso para a educao do filho. Restringiu a visita a uma 
hora por semana e com superviso de uma assistente social. No podia ficar mais a ss 
com Lucas. Dois grandes amigos foram separados por uma parede judicial. - Esse foi o 
motivo de sua sada para o mundo? Falco balanou a cabea dizendo que no. Teria de 
tocar no epicentro da sua misria emocional. Nem o Poeta tinha ido to Longe ao 
explorar a histria do gnio das ruas. Descreveu, assim, o captulo mais dramtico da 
sua vida. Seu filho ia fazer dez anos. Para comemorar o aniversrio do neto e a 
separao da filha, bem como para revelar seu status social e os jardins, do seu palacete, 
Dr. Pedro mandou preparar uma festa memorvel. Centenas de pessoas foram 
convidadas. Entre elas no apenas os colegas de Lucas, mas um grande nmero de 
advogados, promotores, juizes e autoridades da cidade. Na penltima visita 
supervisionada, Lucas comentou com o pai sobre a festa e ingenuamente insistiu que ele 
fosse. A assistente social, que recebia dinheiro do Dr. Pedro para controlar a relao, 
torceu o nariz. Disse que no era uma boa idia. Falco, reticente, comentou apenas que 
pensaria a respeito. A assistente social comentou com o Dr. Pedro o pedido do menino. 
Lucas recebeu do av uma severa repreenso. "Seu pai vai estragar a festa. Voc no 
sabe que ele  louco?", disse intempestivamente. Lucas caiu em prantos e gritava: "Ele  
meu pai!" Dr. Pedro, consternado, abaixou o tom de voz e tentou explicar sua violncia 
diante de uma frgil criana.

Na ltima visita, o menino contou o que o av lhe dissera. Falco tentou esconder suas 
lgrimas. Confessou ao filho: "O papai est doente, mas vai ficar bom. No tenha medo, 
pupilo.  melhor eu no ir nessa festa." Falco havia dito vrias vezes para Lucas no se 
importar quando ele estivesse falando ou gesticulando sozinho. Pedia que olhasse para o 
corao de seu pai. Preocupava-se com o desenvolvimento da personalidade do filho, e 
por isso, dentro das suas limitaes, tentava vacin-lo contra suas perturbaes. Lucas 
s raramente ficava constrangido ou tinha vergonha de Falco. A assistente social 
apoiou a deciso de Falco de no ir  festa. Posteriormente deu a boa notcia ao Dr. 
Pedro. Embora aliviado, ele contratou uma equipe de seguranas para evitar eventuais 
transtornos. No dia da festa, Falco estava muito angustiado, ansioso e solitrio. Bateu 
uma saudade incontrolvel do filho. Era seu dcimo aniversrio, queria pelo menos 
beij-lo nesse importante dia. Resolveu fazer uma breve surpresa. Apareceu no palcio 
do ex-sogro. Habilidoso, vestindo fraque e fingindo ser um garom, burlou o esquema 
de segurana facilmente. Entrou no imenso jardim. Nunca o vira to decorado. 
Deparou-se com Dbora ao longe, abraada com o namorado. Recebeu um golpe. Ela o 
viu e ficou apreensiva. O namorado sussurrou: "Esse cara tem de ser internado 
imediatamente." Foi avisar o anfitrio. Muitos que o conheciam se entreolhavam como 
se ele fosse um terrorista. Rostos tensos e cerrados, conversas ao p do ouvido, Falco 
tornou-se o centro das atenes. Ser observado o perturbava. Constrangido, saiu 
rapidamente  procura do filho. Lucas correu ao seu encontro, abraou-o e beijou-o. 
Estava exultante. Levou-o para ver o imenso bolo de dez camadas. Nas laterais havia 
dizeres escritos em letras grandes com glac azul: "Parabns, Lucas, voc  um 
vencedor!" - Filho, voc realmente  um vencedor. - Obrigado, papai, voc tambm . 
Novamente se abraaram. A emoo de Falco experimentava uma aura surreal. Ento, 
para espanto dos convivas, ele gritou: - Este  o melhor filho do mundo! As pessoas se 
aglomeraram. Animado com o movimento, Falco resolveu elogiar Lucas com frases de 
alguns filsofos e pensadores que exaltavam a luta pela vida. - Olhei para o pequeno 
Lucas e proclamei: Epicuro disse que, se quisermos vencer, devemos gravar em nosso 
esprito o alvo que temos em nossa mente. Einstein disse que h uma fora maior que a 
energia atmica: a vontade! Confcio comentou: para vencer na vida, exija muito de si e 
pouco dos outros! Pascal bradou: para quem deseja ver, haver sempre luz suficiente; 
para quem rejeita ver, haver sempre obscuridade! Sfocles disse: procure e encontrar, 
pois o que no  procurado permanece para sempre perdido. Lucas, no tenha medo da 
luz! Procure o tesouro que est dentro de voc! Algumas pessoas entraram em pnico, 
outras em xtase diante das idias de Falco. Tomando cincia da situao e 
preocupadssimo com o transtorno do ambiente, Dr. Pedro acionou rapidamente o 
esquema de segurana para bani-lo da festa. Os seguranas invadiram a rea e 
comearam a fazer um crculo em torno da mesa. As pessoas comearam a se dispersar, 
apavoradas. - Subitamente vi uma cena dramtica. Um homem de terno preto sacou uma 
arma, apontou-a

para mim e no atirou. Em seguida, apontou-a para o meu filho e engatilhou-a. Quando 
ele ia atirar, joguei-me na frente de Lucas. Ca em cima do bolo, derrubei tudo o que 
estava em cima da mesa. As pessoas gritavam como se estivessem sofrendo um ataque 
terrorista. Ningum se entendia. No houve mais festa. - E o assassino? - No havia 
assassino. No havia arma. Eu estava alucinado. O personagem era um advogado que 
tirou um leno do bolso e apontou o dedo para mim e para Lucas. Mais uma vez feri 
profundamente meu filho. Marco Polo engoliu a saliva. Estava abalado. Ficou 
paralisado, no sabia o que dizer e como reagir. - No vai me perguntar por que no vi 
mais meu filho? Marco Polo, constrangido, acenou com a cabea que no. Era muita dor 
soterrada nos solos de uma vida. Falco no interrompeu a narrativa. Dr. Pedro o 
chamou em seu suntuoso escritrio. Na sua presena, trs advogados e duas advogadas 
que trabalhavam para ele. Afirmou que falava em nome de Dbora, embora fosse 
mentira. Comentou que tinha um laudo de um conceituado psiquiatra dizendo que Lucas 
poderia tornar-se um doente mental, como o pai, se este continuasse a visit-lo e faz-lo 
passar por escndalos e situaes estressantes. Se ele o amasse de verdade, deveria 
desaparecer de sua vida. " a nica possibilidade de Lucas ter sade mental", completou 
ardilosamente o ex-sogro. Falco pegou o relatrio e o leu atentamente. Ficou perplexo. 
Andava de um lado para o outro sem parar. A idia de que seu filho pudesse tornar-se 
um psictico h anos o torturava. Chorou como criana na frente de todos os 
advogados. Aflito, ele se perguntava em tom alto: "Para onde eu vou? Meus pais j 
morreram, meus parentes no me toleram, meus amigos se afastaram. Para onde eu 
vou?" Depois, bradava: "Lucas! Querido Lucas! Eu o amo! Perdoe-me!" Alguns 
advogados ficaram comovidos. Dr. Pedro Parecia uma pedra dura e fria. - Ento, por 
amar muito meu filho, resolvi sair da vida dele e permitir que ele construsse uma 
histria diferente da minha. No h preo to alto do que abandonar seu prprio filho. 
Talvez seja mais perturbador do que v-lo sem vida. Marco Polo mergulhou dentro de 
si. Sua alma chorava profusamente. Teve vergonha do quanto prejulgara Falco. - 
Tomei as nuvens como lenol, fiz da noite meu cobertor e do lcool meu remdio. Tive 
crises nas ruas. Andei desorientado e errante. Felizmente, depois de vrios anos, 
encontrei o Poeta. Com a sua ajuda enfrentei meus monstros, lutei com meus delrios, 
destru meus fantasmas, venci as algemas do meu alcoolismo. Reconstru-me, reescrevi 
minha histria. - Como ele fez isso? - O Poeta me aconselhou a usar minhas prprias 
ferramentas para superar minhas crises. Pensei, penetrei nos textos de filosofia e ento 
descobri a prola da sabedoria. O Poeta j a havia encontrado, pois, apesar de mdico, 
sempre amou o mundo das idias, sempre estudou filosofia. - Qual ferramenta? - 
perguntou Marco Polo, admirado. - A arte da dvida. - A dvida? Como assim. - Tudo 
aquilo em que cremos nos controla. Se o que voc cr  saudvel, tal crena o ajudar.

Mas se o que voc cr  destrutivo, tal crena o algemar. Desse modo, usei a arte da 
dvida para questionar tudo aquilo que doentiamente me controlava, como os 
pensamentos angustiantes, as imagens irreais, as idias de perseguio. Relatou que 
todos os grandes pensadores, como Isaac Newton, Freud, Thomas Edison, usaram, 
ainda que intuitivamente, a arte da dvida para combater as idias correntes e gerar 
novas idias. Falco usou-a para combater as idias perturbadoras e gerar idias 
tranqilizadoras. E acrescentou: - Quem despreza a dvida paralisa a sua inteligncia. - 
Desculpe-me, mas no entendo como voc fazia. Relatou que saa gritando pelas 
estradas contra os personagens que o assombravam: "Eu duvido que vocs existam! Por 
que no posso ser livre? Ningum me persegue, eu me persigo! Eu os criei e eu os 
destruirei! Vocs so uma farsa!" O Poeta no dizia nada, apenas o acompanhava calado 
e solidrio. Quando estava nas praas, Falco gritava em seu interior. Ningum ouvia, 
mas ele guerreava contra os carrascos no seu inconsciente. Fez esse exerccio dia e 
noite, semana aps semana, ms aps ms. Construiu, assim, pouco a pouco, uma 
plataforma em seu intelecto para distinguir os parmetros da realidade. A arte da dvida 
estimulou a construo da arte crtica. Deste modo, comeou a criticar a cada instante 
qualquer idia delirante. Foi uma tarefa difcil, rdua e prolongada. Entretanto, um ano 
depois Falco tinha organizado sua mente. - No houve necessidade de medicamentos? 
- Se o Poeta fosse meu terapeuta no perodo em que tomei medicao, poderia no ter 
perdido minha esposa e meu filho - disse, consternado. Relatou que, se tivesse tomado 
medicamentos em doses que no bloqueassem seus pensamentos, facilitaria a aplicao 
da arte da dvida e da crtica, estruturaria seu eu - que representa sua capacidade de 
decidir - e aceleraria seu tratamento. - Quem se preocupa em alicerar o eu atravs da 
arte de pensar nessa sociedade superficial? At nas universidades bloqueia-se o eu, 
obstrui-se a capacidade de decidir. Milhes de estudantes se preparam para atuar no 
mundo de fora, mas permanecem meninos no mundo de dentro expressou indignado o 
gnio. - Voc teve tranqilidade depois de organizar seu raciocnio? - No! A mesma 
luz que ilumina os olhos expe nossas mazelas. A lucidez revelou minhas perdas, meus 
erros, escndalos. No tinha mais nada. Nem esposa, nem filho, nem minhas aulas. 
Surgiu, ento, o temvel monstro da culpa. Houve momentos em que Falco pensava em 
desistir da vida. Felizmente, ele e o Poeta reuniram suas runas e ajudaram-se 
mutuamente a sobreviver ao demnio da culpa. Saram pelas estradas, dormiram ao 
relento e viajaram juntos para o epicentro dos seus terremotos emocionais. Viram as 
perdas por outros ngulos, aceitaram suas limitaes, cantaram, sorriram, brincaram 
com a vida, deixaram de brigar com ela. Marco Polo desejou ter participado dessas 
andanas. Sentiu que havia mais excitao nelas do que nos melhores filmes de 
Hollywood. Em seguida, perguntou: - Se h anos voc recobrou sua plena conscincia, 
por que no foi procurar seu filho? Falco temia essa pergunta. Ela j o atormentara 
muitas vezes. Fitou o amigo nos olhos e declarou com humildade: - Venci muitos 
inimigos dentro de mim. Mas no venci o medo de no ser aceito. Preferi ter a

imagem do amor do meu filho nos meus sonhos a ter de enfrentar a dura realidade de 
que ele talvez no me ame mais. Ter um pai psictico trouxe-lhe sofrimento; o que ele 
sentiria ao ter um pai mendigo? - No sei responder - disse o jovem Marco Polo. - 
Talvez um pai dado como morto seja menos doloroso. Mas no sei. Na vida fazemos 
escolhas. Em toda escolha h perdas. Eu escolhi e perdi muito. A capacidade de escolha 
que me mantm consciente  a mesma que, s vezes, fere minha prpria conscincia. 
Falco reclinou-se no banco. Estava fatigado pelo peso das recordaes. Queria 
descansar. O sol se recolhia, a noite surgia sorrateiramente. Os pssaros, agitados, 
procuravam um lugar entre as folhas das rvores para repousar. Fascinado com tudo o 
que ouvira, Marco Polo despediu-se do amigo tocando-o profundamente: - Eu no teria 
feito melhor escolha. Se fosse seu filho, teria muito orgulho de voc. Falco suspirou 
aliviado. Levantou-se, abraou-o afetuosamente. Sentiu-se como se estivesse abraando 
Lucas. Beijou-o no rosto. - Obrigado por ouvir este velho! - No. Obrigado por me 
deixar ouvi-lo. Realmente era um privilgio ouvir Falco. Marco Polo aprenderia com 
ele mais do que em dcadas de escola. Em seguida, o pensador deitou-se no banco. 
Jamais o achou to macio. A noite foi suave. Tinha conforto em seu interior.

Captulo 9

Ao percorrer a sala de anatomia, Marco Polo no sabia ao certo qual era o corpo do 
Poeta, mas apenas um palpite e estava correto. Seu semblante dcil era quase 
inconfundvel, mas no tocava em sua histria com ningum. No acreditariam. A 
maioria dos seus colegas o respeitava. Admiravam sua capacidade crtica. Mas alguns 
possuam uma incansvel energia para debochar. Coisa de jovens. Apontavam um 
cadver e diziam: "Este cara aqui foi um grande artista!" Riam deslavadamente. Quando 
ficaram sabendo que Marco Polo tinha um amigo mendigo, as zombarias aumentaram: 
"Cad o gnio?" O professor George no os incentivava, mas tambm no os 
repreendia. Saturado pelo preconceito com que eram tratados os corpos annimos, 
Marco Polo certa vez ousou fazer um convite a Falco para ir ao laboratrio de 
anatomia. Queria que dissecassem os corpos respeitando suas histrias. No previa as 
conseqncias do seu convite, apenas tinha uma vaga impresso de que a presena do 
mendigo no laboratrio poderia trazer-lhe constrangimentos. Sua ida tinha de ser 
espontnea. - O Poeta est sendo dissecado por mos que desprezam a sua biografia. Se 
voc lhes contasse a sua histria, meus amigos e professores poderiam ampliar sua 
viso sobre a vida. Embora inicialmente resistente, Falco disse que pensaria. E pensou. 
Aps uma semana, sua resposta foi afirmativa. Sentiu que poderia prestar um ltimo 
tributo ao Poeta. Numa manh ensolarada de segunda-feira, Marco Polo preparou 
silenciosamente a surpresa. Chamou a psicloga e a assistente social, que tinham feito 
um diagnstico fechado sobre os excludos. Disse-lhes que o Dr. George as convidara 
para uma aula especial. Entrar na sala de anatomia no era um convite ao prazer, mas 
no poderiam recusar o pedido de um respeitado professor. Ao v-las, o professor disse 
que havia um engano. Irou-se contra o aluno rebelde. Quando elas ensaiavam sair do 
ambiente, o jovem e o mendigo entraram na sala. O silncio irrompeu. Dr. George e 
seus cooperadores fizeram um sinal de espanto diante da ousadia. Marco Polo pediu 
licena para falar: - Ilustre Dr. George! O senhor me pediu que trouxesse um mendigo 
que tivesse uma boa histria para nos contar. Humildemente apresento meu amigo 
Falco. Todos sorriram, excitados. Dr. George, olhando o perfil do indigente, achou que 
Marco Polo cairia em ridculo. Todavia, Marco Polo continuou: - Ele no tem aparncia 
de um intelectual, mas  um sbio. Passou a palavra a Falco. Esperava ir  forra. Falco 
calou-se. Marco Polo, constrangido, o empurrava com o olhar, mas ele permanecia 
mudo. Cada segundo que passava parecia mais longo que um dia. O silncio do 
mendigo estimulou as pessoas a fazerem mais gozao. Marco Polo abalou-se. Falco 
ficou plantado no umbral da porta. Apenas passava os olhos pela multido, parecia estar 
bloqueado, inibido. Percebendo o fiasco, Marco Polo comeou a achar que poderia ser 
expulso da escola pela atitude intrpida. Sentiu tambm que agredira seu amigo ao 
traz-lo para esse ambiente. "Fui injusto. Usei uma pessoa para resolver meu trauma de 
rejeio", considerou. Os alunos, impacientes, comearam a achincalhar o mendigo. 
"Fala! Fala!", gritavam. Um mais

atirado disse: "Olhem o pensador! Este homem vai arrasar!" Outro rebatia: "Que nada. 
Esse cara j bebeu todas." Dr. George e os auxiliares se inflaram, gostaram do circo. 
Apenas a assistente social e a psicloga mantiveram respeito. Marco Polo pegou no 
brao do amigo. E falou para ele: - Desculpe-me - em seguida, comeou a retir-lo da 
sala. - No se preocupe - tranqilizou-o Falco. Ele no estava perturbado. Chacotas 
faziam parte do cardpio de um andarilho. O que o incomodava era a prepotncia das 
pessoas. Para ele, orgulho era uma das maneiras mais tolas de manifestar a inteligncia. 
Soltou-se de Marco Polo, voltou-se para as pessoas e comeou a falar com eloqncia 
sobre filosofia pura. Deu um n na mente dos presentes. Todos ficaram paralisados. 
Citou o pensamento de vrios filsofos. Comentou sobre as relaes entre o mundo dos 
pensamentos e o mundo fsico. Disse que tudo o que pensamos sobre o mundo fsico 
no  real, e sim um sistema de intenes que define e conceitua os fenmenos mas no 
incorpora a sua realidade. Depois, falou sobre as relaes entre os pensamentos e a 
interpretao que fazemos da nossa personalidade. Deixou a platia mais perplexa 
ainda. - O pensamento consciente  virtual. Tudo o que vocs pensam sobre vocs 
mesmos no  real.  apenas uma interpretao de quem so e no a realidade essencial 
de quem so. Seus pensamentos podem se aproximar da sua realidade interior ou se 
afastar dela. Por isso, ao pensarem sobre si mesmos, vocs podem ser estpidos, 
colocando-se acima dos outros e querendo control-los, ou podem ser carrascos de si 
mesmos, diminuindo-se e permitindo ser controlados por eles. Aprendam a pensar com 
conscincia crtica. Caso contrrio, trataro de doenas, mas sero doentes... Os alunos 
se entreolhavam espantados. Embora entendessem pouco do que ele lhes dizia, 
vislumbraram profundidade em suas palavras. O mendigo era muito mais culto do que 
os estudantes e os intelectuais da sala. As reaes foram as mais variadas. Os que 
sempre zombaram de Marco Polo queriam enfiar-se debaixo da mesa. Dr. George e seus 
auxiliares depararam-se com sua pequenez. A assistente social e a psicloga sentiram a 
necessidade de rever seus paradigmas. Foram cinco minutos, um breve tempo para que 
o gnio das ruas deixasse o pblico atnito. Em seguida, mudou sua ateno de foco. 
Comeou a percorrer com seu olhar os cadveres. Caminhou entre eles. A platia 
acompanhava seus passos. Percebia at seus movimentos respiratrios. Falco chegou 
perto de um cadver e estilhaou o silncio em voz alta: - General! Voc aqui! Era o 
grande Napoleo das ruas. Lutou com exrcitos do seu imaginrio. Venceu batalhas. 
Queria mudar o mundo, mas a morte no respeita os heris. O lcool o venceu - 
finalizou, meneando a cabea. A platia ficou titubeante. Caminhou mais alguns passos. 
Olhou atentamente para uma mulher de uns cinqenta anos, de pele negra, o rosto sem 
expresso, resultado da longa exposio ao sol durante a vida e do formol aps a morte. 
- Julieta! Voc tambm, quantas vezes deu o pouco que tinha para saciar a fome dos que 
no tinham. Entendeu que ser feliz  repartir. Enfim, descansou! Veja, Julieta! Quantos 
se importam com voc! Todos querem estud-la. Pena que fiquem na superfcie da sua 
pele. Dr. George, absorto pelas idias do indigente, paralisara-se. Falco estava 
comovido por

reencontrar os amigos. Subitamente, seus olhos ampliaram o campo visual. 
Comportava-se como a cmera de um exmio diretor em busca de uma imagem nica. 
Captou ao fundo, do lado esquerdo, o corpo de um homem grande, de meia-idade, pele 
branca, mas judiada pelo tempo. Aproximou-se lentamente, viu as rugas sobressaltadas, 
mas a face era gentil, suave, tranqila. Seu corao palpitava. A cada passo, um filme 
rodava na sua mente, recuperando as experincias espetaculares que passara com o 
amigo. Andaram juntos, cantaram juntos, lutaram juntos. Lembrou-se do Poeta 
discursando nas praas e elogiando os humildes. As lgrimas de Falco deixaram o 
anonimato e percorreram as cicatrizes do rosto e do tempo. Fixou a face do amigo. 
Curvou-se e abraou seu corpo inerte e frio. Ali estava toda a sua famlia. Ali estava um 
amigo que o amara, que o compreendera e que o ajudara a recuperar a sua condio 
humana. Sentiu que perder um amigo pode ser to difcil como perder o solo para 
caminhar. Chorou sem medo. - O que fizeram com voc, Poeta! - falou, observando 
aquele corpo retalhado. - Sem voc, a brisa no tem a mesma suavidade. As borboletas 
no bailam com a mesma graa. Os miserveis perderam o mapa interior. Temos sede 
da sua sensibilidade. Marco Polo verteu lgrimas. Os olhos de alguns alunos tambm 
lacrimejaram. Refletindo sobre a perda, Falco emendou: - Queramos que no 
morresse, mas o Jardineiro da Vida sabe quando colher suas mais belas flores... Olhou 
para os alunos e bombardeou-os com suas palavras. - No mundo h mistrios, no corpo 
h enigmas, mas no esprito e na mente humana se escondem os maiores segredos do 
universo. Vocs esto penetrando no corpo deste homem, mas nunca em seu ser. 
Dissecaro seus msculos e nervos, abriro seu trax e crnio, mas no dissecaro sua 
belssima personalidade. Ele foi um poeta da vida, uma estrela no palco da existncia. 
Ento suspirou e revelou-lhes alguns segredos da sua histria, que Marco Polo j 
conhecia. - O homem que vocs esto estudando foi um mdico ilustre. Mas, como na 
vida h curvas imprevisveis, foi-lhe reservada uma dramtica surpresa. Dirigia seu 
carro com toda sua famlia numa viagem de frias. Ao fazer uma ultrapassagem, sofreu 
um acidente. Perdeu tudo que mais amava: sua esposa e seus dois filhos. Comentou 
tambm que um de seus filhos no morrera no ato do acidente. Ficara muito tempo 
internado na UTI, mas posteriormente falecera. Sua dor foi indecifrvel. Teve graves 
crises depressivas. Sentiu-se o mais miservel dos homens. Ao ouvir essas palavras, Dr. 
George comeou a perder a cor e a fazer gestos estranhos, esfregando as mos na nuca. 
Parecia estar vivendo um ataque de pnico, com taquicardia, falta de ar, suor excessivo 
e vertigem. Seus auxiliares demonstraram preocupao com suas reaes. Falco 
continuava a descrio do Poeta. Revelou que ele havia sido um brilhante terapeuta das 
ruas, ajudara miserveis, sem-teto e excludos. Enquanto o descrevia, Dr. George 
caminhava em direo ao corpo. Olhava fixamente para a face do cadver e para a 
parede. Parou e o contemplou. De repente, com a voz trmula, comeou a balbuciar 
palavras que paulatinamente conquistaram sonoridade. - No! No  possvel! No  
possvel! No pode ser! Todos ficaram mais perturbados ainda. A cena era 
incompreensvel. Ento, solicitou:

- Olhem para o retrato afixado na parede! Os mais prximos perceberam a sobreposio 
das imagens. O homem da foto tinha a face do cadver estendido. Era a mesma pessoa. 
Dr. George se adiantou s expectativas, dizendo: - Este homem chama-se Ulisses Burt. 
Foi um dos maiores cientistas deste pas e um dos mais notveis cirurgies. Trata-se de 
um ilustre diretor desta instituio e tambm um exmio professor, meu mais brilhante 
mestre. Nele inspirei minha carreira acadmica. Mas acho que absorvi pouco da sua 
sensibilidade. Pegou delicadamente nas mos do morto. Falco ficou surpreso. O Poeta, 
sempre humilde, nunca falara sobre sua notoriedade. Dr. George continuou relatando 
que o acidente do Dr. Ulisses, ocorrido h mais de dez anos, e seu desaparecimento 
ganharam destaque na imprensa na poca. A universidade ficou abalada. Muitos 
professores e alunos tentaram procur-lo nas delegacias, nos hospitais, nos asilos, mas 
no houve vestgios. Antes de sair como andarilho, doou todos os seus bens para a 
faculdade de medicina. Esses bens, que no eram poucos, foram usados para ajudar a 
construir o hospital-escola. Uma coisa ningum sabia, nem mesmo Falco, e s foi 
revelada quando novamente leram sua carta-testamento, em que ele autorizava a doao 
de todos os seus rgos para transplantes. Como cirurgio, Dr. Ulisses transplantara 
muitos deles. Para estimular a doao de rgos e mostrar a grandeza desse gesto, ele 
gostava de usar uma frase: Ningum morre, quando se vive em algum. Doem seus 
rgos. Vivam em algum. Em seu testamento, relatou que, se no fosse possvel 
aproveitar seus rgos para transplantes, desejava que ao menos o seu corpo fosse 
utilizado na sala de anatomia. Falco finalmente entendeu por que o Poeta insistira em 
voltar  sua cidade natal. Sabia que estava chegando o seu fim. Tinha fortes dores no 
peito. Queria morrer prximo da faculdade onde sempre lecionara. Queria ser 
encontrado. Almejava ser til  humanidade mesmo aps fechar os olhos em definitivo. 
Professores e alunos ficaram fascinados com sua coragem, fora e amor pela vida. 
Como havia vrias fotos do Dr. Ulisses afixadas nos vrios departamentos da faculdade, 
escreveram uma placa e a afixaram abaixo de cada imagem, com os dizeres de Falco: 
Foi um poeta. Uma estrela no palco da vida. Dr. George estava sob intensa comoo. 
No conseguiu continuar a aula. Olhou para Marco Polo e Falco e anunciou com os 
olhos o que as palavras no conseguiam expressar. Reconheceu seu erro e demonstrou 
agradecimento... Em seguida foi retirado pelos amigos da sala. Uma coroa de flores foi 
colocada ao lado do corpo, com os mesmos dizeres afixados nas fotos. O Poeta 
continuou na sala de anatomia, na mesma sala onde sempre dissecara peas anatmicas 
em suas pesquisas. Os antigos amigos, respeitados professores universitrios, passaram 
por ele nos dias seguintes como se estivessem no cortejo de um rei, um heri da vida. 
Cirurgies de cabelos grisalhos que haviam perdido a sensibilidade choravam ao ver o 
peito aberto e membros dissecados do velho amigo. Os alunos dessa turma mudaram 
para sempre sua compreenso da existncia. Nunca mais

tiveram uma atitude superficial diante dos cadveres. Foi uma das raras vezes na 
histria da medicina em que as lminas cortantes dos bisturis encontravam poesia 
enquanto dissecavam nervos, artrias e msculos. Tambm mudaram para sempre sua 
formao profissional. Seus pacientes foram privilegiados. Os futuros mdicos 
aprenderam a perceber que, por trs de cada dor, de cada sintoma, h sonhos, aventuras, 
medos, alegrias, coragem, recuos, enfim, uma histria maravilhosa que precisa ser 
descoberta. Assim, aprenderam a tratar de seres humanos e no de rgos. O rido solo 
do fim da existncia do Poeta produziu um osis de sabedoria num pequeno grupo. Em 
vida foi brilhante; na morte, reluzente!

C a p  t u l o 10

O tempo passou e Marco Polo continuava a se encontrar com Falco. Os laos se 
estreitaram. Percebendo o desconforto que o amigo sofria, queria retir-lo das ruas. 
Falco resistia. - Voc precisa sair das ruas. - No me coloque num cubculo. O meu lar 
 o mundo. - Mas no  saudvel, corre riscos - insistia Marco Polo. - Ningum corre 
risco quando tem to pouco. Essa  uma das vantagens de ser um miservel. - Mas voc 
dorme mal, come mal, veste-se mal. Sua sade no est bem. - No pago imposto nem 
aluguel - brincou o velho amigo. A relao com Falco fez Marco Polo aprender uma 
das mais difceis lies de vida: ser transparente, no ser escravo do que os outros 
pensam e falam de ns. Falco era o que era, no tinha necessidade de provar nada a 
ningum. Sem tal peso emocional, sua emoo era suave. Eles se viam pelo menos trs 
vezes por semana. O mendigo e o jovem ficaram to ntimos que faziam peripcias 
juntos. Davam verdadeiros espetculos nas praas, sem procurar platia. Para eles a vida 
era uma brincadeira no tempo, uma aventura imperdvel. Em alguns momentos 
pareciam dois palhaos, em outros, duas crianas. Tdio no fazia parte do dicionrio 
deles. As pessoas que assistiam s suas brincadeiras, por viverem numa enfadonha 
rotina, revisavam suas vidas. At das coisas simples faziam um show. Quando tomavam 
sorvete, diziam um para o outro: - Que sabor! Que textura! Quem estava ao lado 
surpreendia-se, pois, apressados, no sentiam o sabor do mesmo modo que eles. Ao 
comer uma fruta, Falco dizia: - Que fruta maravilhosa! Que cores belas! Como ela 
surgiu? Quem a plantou? Que sonhos tinham os agricultores quando a cultivaram? 
Marco Polo tinha gestos semelhantes. Algumas vezes olhavam prolongadamente para as 
folhas de uma palmeira, observando a sinfonia do vento. Pareciam dois lunticos. Os 
passantes, curiosos, paravam de andar e tambm olhavam para cima tentando ver o que 
os dois olhavam mas no enxergavam nada. Pensavam que estavam vendo algo 
sobrenatural ou um disco voador. Quando precisava de dinheiro, Falco convidava o 
amigo a fazer uma dobradinha com ele. Criavam e teatralizavam um texto na hora. No 
precisavam ensaiar, pois viviam a existncia como um teatro ao vivo. Falco bradava 
uma frase e Marco Polo proclamava outra. Era infalvel para ganhar uns trocados. No 
tenho morada certa - Falco dizia. Mas resido dentro de mim. - Marco Polo completava. 
Ningum pode roubar meu sono. No dependo dos outros para dormir. Muitos moram 
em palcios, Mas so miserveis mendigos.

- De que adianta acumular tesouros, - Se a alegria no podem comprar! Pessoas de todas 
as raas paravam e sentavam-se nos bancos para ouvir a dupla potica. Vrios colegas 
de Marco Polo apareciam para v-los. Aprenderam a apreciar o mendigo pensador. A 
fama bateu-lhes  porta, mas desprezaram-na. Queriam apenas viver intensamente. 
Falco ensinou ao amigo a msica de Louis Armstrong, What a Wonderful World. De 
vez em quando a cantavam em dupla, exaltando a vida e a natureza. Preservavam a 
melodia, mas modificavam a letra de acordo com o momento. Era como se houvesse 
uma orquestra sinfnica os acompanhando. - Eu vejo o verde das rvores, rosas 
vermelhas tambm - cantava Falco, com seu vozeiro, a primeira frase. - Eu as vejo 
florescerem para a humanidade - cantava a frase seguinte o intrpido Marco Polo. - E eu 
penso comigo... Que mundo maravilhoso - cantavam juntos. - Eu vejo o azul dos cus e 
o branco das nuvens. - O brilho do dia abenoado, a sagrada noite escura. - E eu penso 
comigo... Que mundo maravilhoso. - As cores do arco-ris, to bonitas no cu. - E 
tambm no rosto das pessoas que passam - cantavam juntos gesticulando para o pblico. 
-Vejo povos distintos apertando as mos, dizendo: como vocs vo? - Eles realmente 
dizem "Eu te amo"! Ao terminarem de cantar, americanos, chineses, rabes, judeus, 
indianos, brasileiros, europeus se abraavam na imensa praa. Alguns tinham realmente 
a coragem de dizer para os outros "eu te amo". Dois lunticos, um maltrapilho e um 
jovem, um pensador e um acadmico, embriagados de alegria, magnetizavam as 
pessoas. Num desses encontros, um fato inusitado abalou a dupla. Falco estava 
cansado, sem muita disposio para dialogar. Queria apenas contemplar o belo. Andara 
muito no dia anterior. Sentara-se folgadamente no canto direito do banco da praa com 
a cabea voltada para o espao. O movimento de pessoas era grande, pois havia uma 
concentrao de lojas e bancos prxima dessa rea. Falco observava as nuvens. Estava 
fascinado com sua anatomia flutuante. O xtase foi to grande que no conseguiu deixar 
de se expressar: - Que belas pinturas! As nuvens so como os andarilhos, vagam por 
lugares longnquos procurando lugar de descanso. Quando encontram, destilam 
lgrimas - balbuciou. Marco Polo tambm as observava atentamente. Entrou no clima. - 
Quando o cu chora, o riso brota na natureza. Inesperadamente, Falco olhou para o 
infinito e comeou a interrogar o Criador. Ele falava com Deus como se fosse seu 
amigo. - Ei! Quem  voc que est por trs da cortina das nuvens? Por que voc se 
esconde atrs do vu da existncia? Por que silencia a sua voz e grita atravs dos 
fenmenos da natureza? Por que gosta de se ocultar aos olhos humanos? Sou uma 
nfima parte do universo, mas clamo por uma resposta. Deixe-me descobri-lo. Marco 
Polo ficou espantado com esse dilogo singular. Entretanto, mostrando um ar de 
intelectual, virou-se orgulhosamente para o amigo e disse:

- Falco, Deus no existe. Ele  uma inveno espetacular do crebro humano para 
suportar as limitaes da vida. Desculpe-me, mas, para mim, a cincia  o deus do ser 
humano. Numa reao surpreendente, Falco se levantou. Subiu em cima do banco da 
praa e comeou a chamar aos gritos todos os que por ali passavam. Com gestos 
histrinicos, bradava: - Venham! Aproximem-se! Vou mostrar-lhes Deus! Num 
instante, reuniu um grupo. Marco Polo ficou apavorado. Nunca vira Falco reagir assim. 
Tentava acalm-lo, sem xito. Ele continuava gritando: - Deus est aqui! Acreditem! 
Vocs ficaro perplexos ao v-lo. Marco Polo achava que Falco entrara num repentino 
surto psictico, estava tendo uma alucinao. Procurava ansiosamente pegar em seu 
brao para que ele se sentasse. De repente, Falco silenciou. Apontou as duas mos para 
Marco Polo e disse aos altos brados: - Eis Deus aqui em carne e osso! Marco Polo ficou 
assustado. Um burburinho reinou entre os ouvintes. - Acreditem! Este jovem  Deus! 
Por que lhes afirmo isso? Porque ele acabou de me dizer que Deus no existe, que  um 
mero fruto do nosso crebro! Vejam s! Se este jovem no conheceu os inumerveis 
fenmenos dos tempos passados, se ele nunca percorreu os bilhes de galxias com seus 
trilhes de segredos, se ele no desvendou como ele mesmo consegue entrar em seu 
crebro e construir seus complexos pensamentos, e, apesar de todas essas limitaes, ele 
afirma que Deus no existe, a concluso a que cheguei, meus amigos,  que esse jovem 
tem de ser Deus. Pois s Deus pode ter tal convico! A multido ficou boquiaberta. O 
discurso do indigente era to inteligente que esfacelou no apenas a soberba de Marco 
Polo, mas o orgulho das pessoas que o ouviram. O jovem amigo ficou vermelho e 
pasmo. Falco desceu do banco e sentou-se. Desembrulhou um sanduche e comeou a 
degust-lo. Com a boca cheia, falou para Marco Polo: - Sabe que sabor tem este 
sanduche? Marco Polo, envergonhado, meneou a cabea dizendo que no. Falco 
prosseguiu: - Se voc no tem segurana para falar de algo to prximo e visvel, no 
fale convictamente sobre algo to distante e intangvel. No  sensato. O jovem travou 
sua inteligncia. Pela primeira vez no achou qualquer frase para rebater. Apenas disse: 
- No precisava exagerar. Falco retrucou: - Se voc disser que  um ateu, que no cr 
em Deus, sua atitude  respeitvel, pois reflete sua opinio e sua convico pessoal. Mas 
dizer que Deus no existe  uma ofensa  inteligncia, pois reflete uma afirmao 
irracional. No seja como alguns meninos da teoria da evoluo. - Como assim? - 
perguntou intrigado Marco Polo. - Alguns filsofos acham que certos tericos da 
evoluo possuem uma arrogncia insana. No estou criticando as hipteses da 
evoluo biolgica, mas a arrogncia cientfica sem alicerces. Vrios desses cientistas 
negam veementemente a idia de Deus apenas porque se apiam em alguns poucos 
fenmenos da sua teoria. Esquecem-se, assim como voc, de que desconhecem bilhes 
de outros fenmenos que tecem os segredos insondveis do teatro da existncia. So 
meninos brincando com a cincia, construindo seu orgulho sobre a areia.

Marco Polo abalou-se com a ousadia, com o raciocnio esquemtico e a criatividade de 
Falco. Os darwinistas eram considerados intelectuais reverenciados. Nunca ouvira 
ningum fazer uma crtica to contundente contra eles, a no ser os religiosos. Falco 
tinha trazido a discusso desse delicadssimo tema no para o campo da religiosidade, 
mas para o campo dos limites e alcances da prpria cincia. Marco Polo tentou 
organizar seu pensamento e perguntou: - Mas os evolucionistas so respeitados pela 
comunidade cientfica? - So respeitados, mas, para mim, esto aprisionados no crcere 
da biologia. Sem romper este crcere e abraar o terreno das idias da filosofia, sero 
redutores e no expansores do conhecimento. Precisam seguir o caminho de Einstein. - 
Como assim? - Einstein disse que a imaginao  mais importante do que o 
conhecimento. Ele brilhou porque amava a filosofia. No tinha um crebro privilegiado 
como muitos ingnuos cientistas pensavam. Tinha uma imaginao privilegiada. 
Quando desenvolveu os pressupostos de sua teoria, era um jovem de 27 anos. Tinha 
menos cultura acadmica do que muitos universitrios da atualidade. Mas por que 
brilhou, enquanto os universitrios so opacos? Brilhou porque usou a arte da dvida, 
libertou sua criatividade, aprendeu a pensar com imagens. A partir desse comentrio, 
Marco Polo interessou-se pela histria de Einsten. Passou a estudla. - Einstein era 
ousado, queria conhecer a mente de Deus - completou. Falco no era menos ousado, 
vivia tentando desvend-Lo  sua maneira. Ele amava Deus, mas no era religioso ou 
defendia uma religio. Considerava que s um deslumbrante Artista, capaz de 
ultrapassar os limites da nossa imaginao, poderia ser o Autor do prprio imaginrio 
humano e de toda a existncia. Relatou que ele e o Poeta aprenderam a procurar e se 
relacionar com Deus em suas misrias psquicas, e que este relacionamento foi um dos 
segredos que os levaram a suportar suas perdas e a oxigenar seu sentido de vida. Assim 
sobreviveram ao caos. Para eles, cada ser humano, em especial os cientistas, deveria 
posicionar-se como eterno aprendiz. E arrematou: - A sabedoria de um ser humano no 
est no quanto ele sabe, mas no quanto ele tem conscincia de que no sabe. Voc tem 
esta conscincia? Aps uma pausa, Marco Polo falou, pensativo: - Creio que no. - O 
que define a nobreza de um ser humano  a sua capacidade de enxergar sua pequenez. 
Voc a enxerga? - Estou tentando - disse Marco Polo, acuado pela inteligncia do 
filsofo. - Nunca pare de tentar. Em seguida, Falco fez um momento de silncio. 
Ponderou suas atitudes e teve coragem de pedir desculpas a Marco Polo pelo 
constrangimento que o fizera passar. - Desculpe-me. s vezes, acho que algumas das 
minhas reaes so seqelas do meu passado, da minha doena. - Por favor, no se 
desculpe. Eu  que fui estpido, arrogante. Vendo que o jovem Marco Polo refletia 
sobre os mistrios da existncia, Falco adicionou: - Voc pode duvidar de que Deus 
existe, mas Deus no duvida de que voc existe.  nisso que creio.

Marco Polo ficou inquieto. Esfregou as duas mos no rosto. Suspirou, colocou a mo no 
queixo, apoiou o cotovelo sobre a coxa como um pensador e perguntou: - O que 
pensavam os filsofos a respeito de Deus? - Lembre-se do que eu lhe disse: muitos 
filsofos acreditavam na metafsica. Eles no tinham medo de argumentar e discutir a 
respeito de Deus. A cincia tem medo de debater sobre Ele por receio de pender para 
uma religio e perder a individualidade. Ns no sabemos quase nada sobre a caixa de 
segredos da existncia. Milhes de livros so uma gota no oceano. Lembre-se, somos 
uma grande pergunta procurando uma resposta nos poucos anos dessa vida. - Mas 
filsofos como Marx, Nietzsche e Sartre foram ateus. Falco fitou vagarosamente o 
amigo e, como se estivesse iluminado, disse: - H dois tipos de Deus: um Deus que 
criou os homens, e outro que os homens criaram. Para mim, esses filsofos no 
acreditavam no Deus criado pelos homens. Eles foram contra a religiosidade da sua 
poca, que dilacerava os direitos humanos, mas no so ateus puros. Todavia no posso 
falar por eles. O jovem pensou e inquiriu: - Quem somos? O que somos? Para onde 
vamos? - Freqentemente me fao tais perguntas. Quanto mais as fao, mais me perco, 
e quanto mais me perco, mais procuro me achar. Em seguida, Falco emendou: - Olhe 
para as pessoas ao nosso redor. O que voc v? - Pessoas de ternos, mulheres bem-
vestidas, jovens exibindo seus tnis, adolescentes arrumando o cabelo, enfim, pessoas 
transitando. - A maioria dessas pessoas vive porque respiram. No perguntam mais 
"quem so?", "o que so?". Esto entorpecidos pelo sistema. O ser humano atual no 
ouve o grito da sua maior crise. Cala sua angstia porque tem medo de se perder num 
emaranhado de dvidas sobre seu prprio ser. No comeo do sculo XX, a cincia 
prometeu ser o deus do Homo sapiens e responder a essas perguntas. Mas ela nos traiu. 
- Por que nos traiu? - Primeiro porque no desvendou quem somos; continuamos a ser 
um enigma, uma gota que por um instante aparece e logo se dissipa no palco da 
existncia. Segundo, porque, apesar do salto na tecnologia, ela no resolveu os 
problemas humanos fundamentais. A violncia, a fome, a discriminao, a intolerncia 
e as misrias psquicas no foram debeladas. A cincia  um produto do ser humano e 
no um deus do ser humano. Use-a e no seja usado por ela. Ao esquadrinhar sua 
inteligncia, Marco Polo confessou honestamente: - O orgulho  um vrus que contagia 
a minha mente. - Contagia a todos. At um psictico tem idias de grandeza. - Ser que 
 possvel destruir o orgulho? - No creio. Nossa maior tarefa  control-lo. Para 
finalizar a complexa aula, voltou-se para a face do jovem amigo e completou: - A 
sabedoria de um ser humano no  definida pelo quanto ele sabe, mas pelo quanto ele 
tem conscincia de que no sabe... Marco Polo incorporou com impacto essa frase. 
Precisava discerni-la, bem como todo o conhecimento que abordaram. Sua mente 
tornou-se um caldeiro de idias. Resolveu que era o momento de partir. Um pouco 
atordoado, despediu-se de Falco e saiu. O sol do entardecer reluzia sobre ele e 
projetava sua sombra sobre o solo. A sombra estava

grandiosa. A distoro da imagem o convidou  auto-analise. Sempre quis ser grande, 
uma estrela onde os astros gravitassem em sua rbita. Percebeu que a busca da fama era 
uma tolice. Concluiu que precisava reduzir sua sombra social. Precisava aprender a 
encontrar grandeza na sua pequenez.

C a p  t u l o 11

Toda vez que deitava em sua aquecida e confortvel cama, Marco Polo pensava em 
Falco dormindo ao relento. Ficava perturbado, s vezes acordava no meio das noites 
chuvosas incomodado. Tinha receio de que Falco no estivesse nos albergues 
municipais. Os andarilhos, por viverem em precrias condies de sade, morriam cedo. 
A falta de higiene, de alimentao regular, de proteo contra as intempries e o 
alcoolismo ceifavam suas vidas nos primeiros anos de jornada. A sobrevivncia de 
Falco foi uma exceo. O Poeta o ajudara a livrar-se do alcoolismo e a cuidar da sua 
sade. Todavia, o Poeta morrera e Marco Polo sentiu que de algum modo ocupava uma 
parte do seu lugar. Cuidar da qualidade de vida de Falco e ajud-lo a resgatar seu 
passado mexia com o jovem estudante. Mas tinha medo de retirar o amigo das ruas e 
estimul-lo a reencontrar seu filho. O sistema social que o exclura era cruel em 
algumas reas. Talvez Falco no suportasse esse estresse. O conforto exterior poderia 
gerar desconforto interior. Seis meses se passaram. A sade de Falco andava 
debilitada. Tinha crises de falta de ar e recusava-se a ir ao ambulatrio do hospital-
escola. Diante disso, Marco Polo sentiu que era o momento de fazer uma investida para 
ajud-lo. Mas como? "Falco poderia conservar suas idias e seu jeito de ser ao retornar 
para a sociedade. Poderia ser um vrus que se alimenta do sistema para combater as 
chagas do prprio sistema, tal como os grandes jornalistas e outros nobres pensadores", 
pensava o jovem. Essas idias povoaram sua mente, diluram paulatinamente seu medo 
e deram corpo  sua deciso. Recebera muito de Falco, queria retribuir um pouco. Por 
outro lado, embora no quisesse sair das ruas, Falco sentiu, pouco a pouco, que 
precisava construir uma ponte com seu passado. A relao com Marco Polo era 
diferente da que tinha com o Poeta. Marco Polo era um espelho do seu prprio filho. 
Flashes de Lucas reluziam em seu imaginrio enquanto cantavam e faziam poesias. 
Negar radicalmente seu passado o atormentava. Certa vez, Marco Polo tocou 
diretamente no problema. - Voc correu grandes riscos para resgatar sua identidade e 
reconstruir sua sanidade. E me ensinou a correr riscos para explorar a mente humana e 
lutar pelos meus sonhos. Que tal correr os riscos de entrar no sistema social e reavaliar o 
seu passado? Falco entendeu a mensagem e fez um silncio glacial. Marco Polo foi 
cortante e insistiu: - Seu filho tem o direito de saber que voc est vivo. O risco de ser 
rejeitado  o preo que voc tem de pagar. Essas palavras gelaram a coluna do mestre. 
Nunca sua segurana ficou to abalada. Fez um mergulho interior. - Eu estou morto para 
ele. Os mortos no incomodam os vivos. - Voc disse que Deus se esconde atrs da 
cortina da existncia e grita atravs dos fenmenos que criou, mas voc no  Deus. Por 
que, ento, voc se esconde atrs da cortina dos seus argumentos? Por que grita atravs 
dos fenmenos que imaginou? Que base tem para afirmar que

est morto para o seu filho? Quantas vezes ele deve ter olhado para a multido  sua 
procura? Marco Polo aprendera com o prprio Falco que a dvida  a melhor arma 
para abrir as janelas da inteligncia, e a resposta pronta  a melhor para fech-la. Suas 
perguntas provocaram um abalo intenso em seu magnfico professor. Falco no poderia 
fugir de si mesmo. - Voc o ama? - instigou Marco Polo, diante do calado Falco. - O 
amor  imortal! Voc pode neg-lo, sufoc-lo, enterr-lo, mas ele jamais morre. J lhe 
disse. Meu filho nunca morreu dentro de mim. Ele ainda vive em meus sonhos. - No h 
como correr riscos para resgatar quem est morto, mas, se ele est vivo, corra riscos por 
ele! Quando Marco Polo pensou que Falco cedera, ele ergueu uma enorme muralha: - 
Nossas linguagens, interesses, viso de vida, expectativas so muito diferentes. Ser 
quase impossvel reconstruir nossas histrias. Se, mesmo convivendo por anos a fio, os 
membros da maioria das famlias no toleram suas diferenas, no se respeitam, como 
esperar harmonia entre dois instrumentos que h mais de duas dcadas no tocam 
juntos? Vencer a inteligncia do gnio era quase impossvel. "Realmente o choque 
poderia ser insuportvel", ponderou Marco Polo. "Mas falharemos 100% das vezes que 
no tentarmos", refletiu. Teve a sensao de que ningum conseguiria transpor a 
fortaleza dos pensamentos do filsofo lapidada pelas crises psquicas e esculpida pelos 
corredores da vida. Mas tinha uma ltima bala em sua arma intelectual, um argumento 
forte. Construra este argumento ao longo dos meses da relao com Falco. Lapidara-o 
pacientemente, como Michelangelo o fez com o mrmore bruto em busca da sua obra-
prima. Sedimentara-o, assimilou-o, e o escrevera. Era o momento de discorrer sobre ele: 
o princpio da co-responsabilidade inevitvel. Este princpio mesclava alguns 
fundamentos da psicologia e da filosofia. - Falco, voc nunca viveu fora do meu 
sistema. Quer queira ou no, voc faz parte dele. - Que absurdo! No confunda o meu 
mundo com o seu. No meu, as pessoas so transparentes; no seu, elas se disfaram atrs 
dos sorrisos, da esttica. No meu, as pessoas tm tempo para investir no que amam; no 
seu, elas so transformadas em mquinas de trabalhar e consumir. Marco Polo ficou 
constrangido, mas no se intimidou. - Eu concordo que a sociedade organizada est 
doente em muitos aspectos, mas o princpio da co-responsabilidade inevitvel 
demonstra que  impossvel haver dois sistemas distintos. O que existe so duas 
maneiras de ver e atuar no mesmo sistema. As pessoas jamais so completamente 
separadas umas das outras. Falco nunca tinha ouvido falar nesse princpio. Pela 
primeira vez coou a cabea, revelandose confuso diante do discpulo. Estava 
perturbado com essa idia. Se ele se convencesse de que no h dois sistemas, qual era o 
argumento para se esconder em seu casulo? - Que princpio  esse? Que pensador o 
elaborou? - perguntou, desconfiado. - Eu o elaborei! Falco deu de ombros. Foi 
contagiado pelo orgulho. Cnscio desse contgio, em seguida se refez. - Desculpe-me. 
Debata-o. Apresente suas idias! Ao dizer essas palavras, recordou-se de quando tivera 
uma crise na sala de aula no curso de

direito. Queria ser enfrentado no campo das idias. Era neste ponto que Marco Polo o 
desafiara, e, o que era pior, no ponto mais delicado da sua histria. Marco Polo 
defendeu a sua tese com veemncia. Comentou que o princpio da co-responsabilidade 
inevitvel demonstra que as relaes humanas so uma grande teia multifocal. Revela 
que ningum  uma ilha fsica, psquica e social dentro da humanidade. Todos somos 
influenciados pelos outros. Todos nossos atos, quer sejam conscientes ou inconscientes, 
quer sejam atitudes construtivas ou destrutivas, alteram os acontecimentos e o 
desenvolvimento da prpria humanidade. Qualquer ser humano - intelectual ou iletrado, 
rico ou pobre, mdico ou paciente, ativista ou alienado -  afetado pela sociedade e, por 
sua vez, interfere nas conquistas e perdas da prpria sociedade atravs de seus 
comportamentos. Marco Polo queria dizer que todos so coresponsveis pelo futuro da 
sociedade e, por conseqncia, pelo futuro da humanidade e do planeta como um todo. - 
Nossos comportamentos afetam de trs modos as pessoas: alteram o tempo delas; 
alteram a memria delas, atravs do registro desses comportamentos; e alteram a 
qualidade e freqncia das suas reaes. Alterando o tempo, a memria e as reaes das 
pessoas, modificamos seu futuro, sua histria. Falco comeou a sair do estado de 
indiferena para o de assombro. "Aonde esse garoto quer chegar!", pensou. Marco Polo 
foi mais longe. Discorreu afirmando que os mnimos comportamentos podem interferir 
em grandes reaes na histria. O espirro de um norte-americano pode afetar as reaes 
das pessoas no Oriente Mdio. Uma atitude de um europeu, por mnima que seja, pode 
interferir no tempo e nas aes da China. Falco comeava a entender aonde seu amigo 
queria chegar, mas ainda no estava completamente claro. Observava atentamente cada 
uma das suas frases. Marco Polo passou da teoria para os exemplos: - O padeiro que fez 
po no sculo XV em Paris afetou o tempo e a memria da dona-de-casa que o 
comprou, afetando as reaes dos seus filhos, que, por sua vez, alteraram os 
comportamentos dos seus amigos, vizinhos, colegas de trabalho, e que, numa reao em 
cadeia, influenciaram a sociedade francesa da sua poca e de outras geraes. Assim, 
numa seqncia ininterrupta de eventos, o padeiro do sculo XV influenciou, sculos 
mais tarde, os pais, os amigos e, conseqentemente, a formao da personalidade de 
Napoleo, que afetou o mundo. - Hitler, em 1908, mudou-se para Viena com o objetivo 
de se tornar pintor. O professor da academia de belas-artes que o rejeitou afetou seu 
tempo, sua memria, seu inconsciente. Por sua vez, influenciou sua afetividade, sua 
compreenso do mundo, suas reaes, sua luta no partido nazista, sua priso, seu livro. 
Todo este processo interferiu na ecloso da Segunda Guerra Mundial, que afetou a 
Europa, o Japo, a Rssia, os EUA, que mudou os rumos da humanidade. - Se Hitler 
fosse aceito na escola de belas-artes, talvez tivssemos um artista plstico, ainda que 
medocre, e no um dos maiores psicopatas da histria. No estou dizendo que a 
psicopatia de Hitler seria resolvida com sua incluso na escola de Viena, mas poderia 
ser abrandada ou talvez no se manifestar. Falco estava espantado. Os papis tinham se 
invertido. Marco Polo falou ainda que um ndio numa tribo isolada da Amaznia 
tambm afeta a histria. Ao abater um pssaro, este deixar de produzir ovos, de choc-
los e de ter descendentes, afetando o consumo de sementes, os

predadores e toda a cadeia alimentar, o ecossistema, a biosfera terrestre. Alm disso, a 
ausncia de descendentes do pssaro abatido afetar o processo de observao dos 
bilogos, interferindo em suas reaes, suas pesquisas, seus livros, sua universidade e 
sua sociedade. Uma pessoa que se suicida no deixou de atuar no mundo social, afirmou 
Marco Polo. O ato do suicdio alterou o tempo dos amigos e parentes e, principalmente, 
despedaou a emoo e a memria deles, gerando vcuo existencial, lembranas e 
pensamentos perturbadores que afetaro suas histrias e o futuro da sociedade. - 
Ningum desaparece quando morre. Viver com dignidade e morrer com dignidade 
deveriam ser tesouros cobiados ansiosamente. Portanto, o princpio da co-
responsabilidade inevitvel demonstra que nunca podemos ser uma ilha na humanidade. 
Jamais deveria haver a ilha dos norteamericanos, dos rabes, dos judeus, dos europeus. 
A humanidade  uma famlia vivendo numa complexa teia. Somos uma nica espcie. 
Deveramos am-la e cuidar dela mutuamente, caso contrrio no sobreviveremos. Para 
o jovem pensador, somos todos responsveis inevitavelmente, em maior ou menor 
proporo, pela preveno do terrorismo, da violncia social, da fome mundial. Falco 
concordou com a engenhosidade do raciocnio de Marco Polo. Embora fosse um 
especialista na arte de pensar, no percebeu que estava caindo na rede do seu discpulo. 
Em seguida, o jovem comentou com seu mestre que as reaes dos outros podem afetar-
nos fraca ou intensamente. Assistir a um filme, conversar com um amigo, elogiar 
algum, pode mudar pouco ou muito o curso de nossas vidas. Lembrou-se de um amigo 
humilhado pela professora porque no conseguira ler direito um pargrafo. Ela pediu 
que ele repetisse vrias vezes a leitura do texto, sob o deboche dos colegas. O registro 
desta experincia tinha bloqueado a inteligncia do aluno, gerando gagueira, 
insegurana, afetando drasticamente seu futuro como pai e como profissional. Nunca 
mais conseguiu falar em pblico. Aps fazer a abordagem geral e dar esse exemplo, 
Marco Polo calibrou a arma da sua inteligncia e desferiu um golpe fatal em Falco. 
Preparou, ainda que sem grandes pretenses, uma base para que ele questionasse seu 
comportamento nas ltimas duas dcadas e mudasse para sempre o curso da sua 
histria. Foram vinte minutos que mudaram uma vida. Cortou a resistncia do amigo 
como a lmina de um bisturi. - Voc  o mestre e eu o pequeno aprendiz, mas, por 
favor, diante dessa explanao, respondame:  possvel haver sistemas socialmente 
isolados? Falco deu um sorriso entrecortado e admitiu honestamente: - No. H 
sistemas que pouco se comunicam, mas no so isolados. - Subir no banco de uma 
praa, declamar uma poesia ou pedir dinheiro para comprar um po so reaes que 
interferem na dinmica dos comportamentos das pessoas que o ouviram, interferindo, 
por sua vez, nos seus colegas de trabalho, na sua empresa, na sociedade, no comrcio 
internacional. Por isso, fechar-se em seu mundo pode ser um ato egosta! Voc 
concorda ou discorda? - Sob essa tica, o isolamento pode ser um ato egosta - disse 
Falco transpirando. - Voc se fechou dentro de si mesmo porque a sociedade o excluiu 
e o discriminou, mas voc se superou, tornou-se um sbio. Essa mesma sociedade que o 
feriu precisa das suas idias e da sua coragem para se transformar. At porque o seu 
sistema nunca foi separado do meu.

O mundo desabou sobre Falco. Ficou boquiaberto, pasmo, reflexivo. "Como ele nunca 
havia pensado nisso?" Marco Polo tinha razo. "Interferimos na memria e no tempo 
dos outros o tempo todo. A memria e o tempo nos unem numa inevitvel rede", 
pensou. - Suas idias so amargas como fel, mas no posso fugir delas. Eu influencio 
seu mundo e sou influenciado por ele. E, para completar, o jovem fitou o gnio e deu-
lhe o ltimo golpe: - Responda-me mais uma pergunta, pensador. Por que no  possvel 
se alienar ou se isolar socialmente de maneira pura, completa, absoluta? Com a voz 
embargada e sabendo de antemo aonde Marco Polo chegaria, o filsofo disse com 
sinceridade: - Porque a ausncia de uma reao j  uma ao em si,  a ao da no-
reao. A no-reao contribui para a ao dos outros. Assim como uma pessoa que se 
suicida continua interferindo na histria dos seus ntimos, um pai que se torna um 
andarilho continua interferindo em seu prprio filho - falou Falco, com lgrimas nos 
olhos. - Muito bem, mestre! Sei que  doloroso tocar nesse assunto, mas sua ausncia 
desencadeou uma seqncia de eventos que influenciaram a personalidade de Lucas. 
Toda vez que ele o procurou e no o encontrou ou teve de explicar para algum a sua 
ausncia, voc alterou intensa mente suas emoes, pensamentos, auto-estima. Portanto, 
nunca deixou de ser co-responsvel por ele. Falco levantou-se do banco. Comeou a 
andar em crculo. Jamais algumas palavras geraram tantas conseqncias em seu 
intelecto. Concluiu que at mesmo fazer discursos nas praas e levar as pessoas a 
viajarem para dentro de si mesmas eram fatos que influenciavam a sociedade e atingiam 
indiretamente seu filho. A questo no era se sua ausncia fora melhor ou pior para 
Lucas. A questo  que nunca conseguira se isolar dele. O pensador foi vencido no 
nico lugar que poderia mudar as rotas da sua vida: no campo das idias. Temeroso, 
disse sinceramente: - No conseguimos fugir dos outros porque no conseguimos fugir 
de ns mesmos. Correrei riscos para reencontrar meu filho! Resolveu romper seu 
casulo. Havia uma grande tarifa a pagar para reconstruir sua histria. Os problemas que 
enfrentaria seriam enormes. Teria de se deparar com predadores dentro e fora de si. 
Poderia ser rejeitado por ter sido um mendigo. Teria de enfrentar o ex-sogro, a ex-
esposa, os ex-colegas de trabalho. E, o que era pior, Lucas poderia culp-lo, ser 
indiferente a ele, ter vergonha do pai. Poderia tambm no estar vivo. O preo era 
incalculvel; os riscos inimaginveis. - Tenho medo! - reagiu. Marco Polo nunca ouvira 
Falco dizer tais palavras. Sempre o considerara imbatvel. - Medo! Voc sempre foi 
destemido. - Tenho medo de mim mesmo. Medo de me enfrentar. Medo de caminhar 
por estradas que h muito no piso e em que pensei nunca mais pisar. Pelo fato de estar 
aprendendo a arte de produzir frases de efeito com o prprio Falco, Marco Polo 
novamente o surpreendeu: - O medo pode ser um excelente mestre. Tira reis do seu 
trono e ensina-os a ser o que sempre foram: apenas frgeis seres humanos. Falco deu 
uma risada entrecortada no meio da sua dor. Procurando consolar-se, olhou outra

vez para a sua platia invisvel e disse: - Todos ns temos uma criana para encontrar. 
Uns dentro, outros fora de si. Preciso achar a de fora, sem perder a de dentro. Em 
seguida, pediu para ficar mais um dia nas ruas. Teria de se despedir pelo menos 
temporariamente de seu estilo de vida e da ampla casa onde vivia h anos. Queria 
abraar mais rvores, conversar com mais flores, brincar com as borboletas, observar as 
estrelas enquanto fechava seus olhos para mais uma noite de sono. Marco Polo 
combinou que no dia seguinte, sbado, o pegaria pela manh. Seus amigos de escola, 
que dividiam a mesma habitao, viajariam para suas cidades. A casa estaria vazia. 
Falco passaria o final de semana com ele. Planejariam juntos a longa viagem para sua 
cidade. Falco fez uma longa despedida. Abraou uma dzia de rvores. Sentiu a brisa, 
o som sereno do vento. Ajoelhou-se nos jardins, beijou as rosas, dialogou com Deus. 
Terminou com essas palavras: "Deus, voc foi meu amigo na loucura, na misria e nas 
noites sem abrigo. Tenho medo que no o seja na fartura e nas noites confortveis.  to 
fcil esquec-Lo. Caminhe em meus passos." Ao deitar-se, as estrelas no induziam seu 
sono como sempre fizeram. O velho cobertor no o aqueceu como antes. O banco da 
praa pressionava suas costelas desconfortavelmente. Teve pesadelos. Viu-se alvo de 
risadas e desprezo. Sua mente se tornou um turbilho de imagens ameaadoras. No 
outro dia, Marco Polo o levou para casa. Falco tomou um belo banho, aparou sua 
barba, cortou apenas parte do seu longo cabelo. Marco Polo emprestou-lhe algumas 
roupas, mas, como era dez centmetros mais baixo do que o amigo, a cala e a camisa 
ficaram engraadas. O velho que aparentava entre setenta e oitenta anos remoou. 
Retornou aos 55 anos, sua real idade. Marco Polo riu da aparncia do amigo. Falco 
parecia um garoto desarrumado com as roupas curtas. Zombando de Marco Polo, 
afirmou: - Ainda estou bonito! - e fez uma pose desajeitada. - Bonito o suficiente para 
no me espantar. O jovem amigo juntou algumas economias e ambos saram em busca 
de roupas decentes. Para Falco, qualquer roupa estava bem. Entraram em uma loja e 
Marco Polo escolheu uma camisa de manga comprida verde-folha e uma cala 
vermelha. Falco vestiu-as e achou-as belssimas, lembravam as rosas vermelhas com 
talos verdes dos jardins. Felizmente as vendedoras intervieram. Compraram duas 
camisas brancas e uma cala bege. Ao sair da loja, Falco sentia-se fantasiado, artificial. 
Andava ereto, srio e sem espontaneidade. H anos no se preocupava com os olhares 
das pessoas. Sentia-se observado. No era um sentimento decorrente da antiga parania, 
mas de ter de representar o que no sentia, de sorrir quando estava infeliz. Marco Polo 
viu o rosto do amigo entristecer pouco a pouco. Nada o animava. Ligou a TV num 
programa de notcias para que ele se distrasse um pouco, mas piorou as coisas. Desde 
que saiu pelo mundo, Falco nunca mais assistira  TV, apenas de relance. Viu um 
reprter denunciando a fome na Etipia, mostrando imagens de crianas magrrimas, 
em pele e osso, sem expresso facial, em profundo estado de melancolia. Quase no 
tinham fora muscular para se movimentar. Deviam estar brincando, mas estavam 
morrendo. Falco curvou-se, colocou a cabea  frente do corpo e arregalou os olhos. O 
reprter disse que, de acordo com a FAO (Organizao das Naes Unidas para a

Agricultura e Alimentos), a cada cinco segundos morre uma criana de fome. Falco, 
estarrecido, meneou a cabea gritou: - No  possvel! Esto deixando as crianas 
morrerem! Em seguida, viu outra imagem fantasmagrica: um pai correndo e gritando 
desesperadamente com um filho sangrando no colo. Ele fora vtima de um ataque 
terrorista. As imagens que saltavam da tela pareciam mais loucas do que as alucinaes 
que o perturbavam na sua fase psictica mais drstica. E aquilo era real. Falco 
comeou a passar mal, Teve palpitaes e suor excessivo. Em seguida, observou a 
expresso facial do reprter que transmitia as notcias. Para seu espanto, o rosto no 
traduzia o drama da notcia, revelava apenas um ar de consternao. Posteriormente, o 
mesmo reprter mudou rapidamente o semblante, abriu um sorriso e falou de um 
milionrio excntrico, que aparecia na tela acariciando seus cavalos em suntuosas 
cocheiras. Esta notcia penetrou como um terremoto no intelecto de Falco. Estava 
incrdulo. Percebeu que o processo de transmisso das informaes destrua a 
afetividade dos espectadores. Fitou o jovem amigo e comentou incisivamente: - Vocs 
no sentem asco por essa sociedade? - Esses acontecimentos so pssimos! - confirmou 
Marco Polo. - Pssimos? So horrveis! Vocs esto adaptados ao lixo social. No se 
perturbam mais com eles! - No! Ns detestamos essas imagens! - Seus olhos a 
detestam, mas suas emoes no reagem. Marco Polo ficou abalado. Sentiu que Falco 
estava coberto de razo. Embora perambulasse pelas ruas e presenciasse determinados 
tipos de sofrimentos, no tinha contato com algumas das mais repugnantes misrias 
cometidas pelo sistema. Sua sensibilidade no estava doente nem era exagerada, mas 
anestesiada, analisou. Nesse momento teve um insight. Num lance rpido de lucidez, 
analisou a psicoadaptao dentro da sala de anatomia. As primeiras imagens dos 
cadveres, bem como o cheiro de formol, tinham causado fortes reaes nos alunos, mas 
pouco a pouco essas reaes se diluram no inconsciente. O cheiro de formol tornara-se 
suportvel. Alguns estudantes que choraram de tenso no primeiro dia brincavam com 
os cadveres, movimentando seus membros como se eles estivessem vivos. Marco Polo 
fez um paralelo entre a sala de anatomia e o ambiente social. O impacto causado pelas 
imagens grotescas noticiadas pela TV perdia o efeito  medida que os espectadores 
assistiam a elas diariamente. Percebeu que a sensibilidade estava morrendo na 
humanidade. Tornara-se um espetculo de terror. Por isso, humildemente, expressou: - 
Estamos doentes. Ainda completamente indignado, Falco usou o prprio discurso de 
Marco Polo, do princpio da co-responsabilidade, para questionar: - Os lderes da 
sociedade so adultos? - Obviamente so adultos. - Ento me responda: os governantes 
dos pases ricos e os empresrios que dominam o mundo so co-responsveis por essas 
misrias? - Sim. - Eles tm insnia ou no por tais sofrimentos?

Acuado, o rapaz no soube responder. Ento, Falco respondeu por ele. - Se eles 
dormem e sentem-se tranqilos, so crianas. S uma criana no tem conscincia das 
misrias dos outros e no  responsvel por elas. S uma criana come fartamente e 
dorme serenamente enquanto h outras crianas morrendo de fome. Falco e o Poeta 
freqentemente divertiam as crianas nas praas e habilmente as ensinavam a pensar 
com suas idias e gestos. Para eles, pensadores excludos, as crianas eram a nica coisa 
pura da sociedade, seu maior tesouro. V-las maltratadas esmagava seus sentimentos. 
De repente, Falco abriu as janelas do seu inconsciente e resgatou as suas reaes nos 
dias posteriores ao ter abandonado seu filho. Reviveu as primeiras noites como 
caminhante. Rememorou os gritos que dava chamando Lucas. Olhava para os escolares 
e via neles o rosto do filho. Queria abra-los, mas os pais os afastavam. Essas imagens 
se mesclaram com as cenas da TV, aumentando sua perturbao. As imagens dos 
cavalos abrigados nas cocheiras luxuosas com as imagens das crianas morrendo de 
fome embaralharam-se na sua mente. Inquieto, andava pela sala. Parecia que vivia a dor 
dos infantes. Teve nsia de vmito. Queria vomitar sua indignao. Fixou-se na sua 
platia invisvel e comeou a proclamar como se estivesse em crise. Os vizinhos mais 
prximos ouviram seus brados. Marco Polo ficou paralisado. - Loucos! Estpidos! Uma 
espcie que destri seus pequenos comete suicdio! Que sociedade  essa em que as 
crianas so tratadas como animais e os animais como crianas? No as maltratem! 
Deixem-nas brincar! Deixem-nas viver! Asfixiado interiormente, Falco saiu 
subitamente de casa. Precisava respirar.

C a p  t u l o 12

Ao sair pela rua, Falco foi acompanhado apreensivamente por Marco Polo de longe. 
Na rua, entretanto, pouco a pouco, Falco se libertou. Comeou a danar e fazer caretas 
para as crianas e estimul-las a sorrir. Cumprimentava todo mundo, inclusive quem 
no conhecia. Abraou uma rvore. Voltou a ser o Falco de sempre. Refez-se, mas no 
esqueceu as imagens. Retornou para casa e, junto com Marco Polo, comeou a 
organizar a viagem. Saram na madrugada do domingo para segunda-feira no velho 
carro do jovem. A viagem durou mais de seis horas. Quando o dia amanheceu, ainda 
estavam na estrada. Os primeiros raios solares penetravam em seus olhos. Falco estava 
convencido de que precisava reencontrar os pores do seu passado, abrir algumas 
feridas que nunca foram cicatrizadas e enfrentar os fantasmas que nunca morreram. O 
nome verdadeiro de Falco era Scrates. Sua me escolhera o nome do filsofo grego 
sem grandes pretenses intelectuais, apenas porque o achara bonito, sonoro. Mas este 
nome o influenciara a se interessar, nos tempos de colgio, pelo extraordinrio filsofo. 
Descobriu que Scrates fora um questionador do mundo, mas no deixara nada escrito. 
Seus discpulos escreveram sobre ele, tal como Marco Polo um dia escreveria sobre 
Falco. Fascinado com a postura intelectual do filsofo, o jovem Scrates resolveu 
seguir a carreira de filosofia. - Para mim, voc ser sempre Falco - comentou Marco 
Polo. - No sou mais Scrates. Finalmente chegaram  cidade. Foi difcil para Falco 
reconhecer as ruas, as praas e os bares. A cidade sofrer mudanas, mas no 
substanciais. Conseguia orientar-se. Seu corao estava taquicrdico, suas mos 
suavam, a musculatura enrijeceu. Encontrou a velha cantina italiana prxima  sua casa. 
Pediu para parar. Era um lugar simples, mas agradvel. Nessa cantina, ao redor de uma 
mesa e segurando o copo de um bom vinho, fizera grandes debates sobre poltica, crises 
sociais, relaes humanas. Os clientes ouviam-no embevecidos. Aprendiam a filosofar 
como na Grcia Antiga. Falco lembrou-se de algumas doces passagens. Todavia foi 
tambm essa cantina que teve de sair retirado pelos amigos quando tinha seus surtos 
psicticos. As paredes estavam desbotadas, o piso xadrez mantinha-se, mas sem brilho, 
os azulejos floridos com fundo branco permaneciam intocveis. Toni, o proprietrio, um 
pouco mais velho que Falco, era apaixonado por sua inteligncia, e tornaram-se 
grandes amigos. Desceu do carro lentamente. Olhou para o horizonte da rua, fitou as 
construes. Respirou a brisa da manh, ainda eram dez horas. Marco Polo, pegando-o 
pelo brao direito, impeliu-o suavemente para dentro do estabelecimento. Falco 
perguntou por Toni. O jovem do balco contou que o proprietrio havia sofrido uma 
isquemia cerebral e andava com dificuldade, mas no perdera a lucidez. Disse que iria 
cham-lo, mas antes perguntou quem o procurava. - Diga que  Falco, ou melhor, 
Scrates, um velho amigo. O balconista abriu a porta dos fundos, onde havia uma antiga 
residncia. Um senhor de cabelos grisalhos, ao saber da notcia ficou pasmo. Com andar 
trpego, esforava-se ansiosamente por

andar mais rpido. Ao se aproximar, um sorriso incrdulo estampou-se em seu rosto. 
Parecia que estava vendo algo do outro mundo. Afinal de contas, um morto acabava de 
ressurgir. - Scrates! Scrates! No pode ser voc! - disse, tentando correr. A cena foi 
quase indescritvel. Os olhos viram as letras do tempo. Os dois amigos se abraaram 
prolongadamente sem dizer palavras. No era necessrio diz-las. O silncio foi mais 
eloqente. Toni sempre achou Scrates um gnio. Sofrer intensamente com as crises 
psicticas do amigo. Dizia que a genialidade o enlouquecera. Seu desaparecimento o 
tornara um tabu naqueles ares. Ainda hoje comentavam seu caso. Aps o afetivo abrao, 
Toni perguntou de onde ele vinha. - Venho de todos os lugares e de lugar nenhum. 
Perteno ao mundo, meu amigo. Toni ficou felicssimo com sua resposta. Percebeu que 
Scrates continuava afiado nas frases curtas, mas de grande alcance. Marco Polo 
observava tudo como atento espectador. Aps alguns minutos de conversa, Falco 
entrou no rido terreno do seu passado, perguntando ao amigo: - E Lucas? Falco 
muitas vezes trouxera seu filho  cantina. Toni conhecia a histria. Sabia da longa e 
penosa separao. Fez uma pausa. A pausa congelou os sentimentos de Falco. Em 
seguida, a grande notcia. - Tornou-se um grande homem. - Como assim? - indagou 
Falco, extasiado e aliviado. - As sementes que voc plantou geraram um pensador. - 
No plantei semente alguma. Meu filho teve um pai psictico - falou humildemente. 
Toni, discordando dele, repetiu uma frase inesquecvel de autoria do prprio Falco. - 
Voc se lembra: "O maior favor que se pode fazer a uma semente  enterr-la." Voc a 
enterrou no corao do seu filho. Parecia que morrera, mas eclodiu. V  Universidade 
Central e veja com os prprios olhos - disse taxativamente. As lgrimas escorriam dos 
olhos de Falco. Em seguida, o velho amigo completou: - Seu filho veio muitas vezes a 
essa cantina me ouvir falar sobre voc. Conheceu suas peripcias intelectuais. O 
pensador das ruas no suportou ficar de p. Foram longos anos de sofrimento. Parecia 
estar fora da realidade diante de Toni. Sentou-se e disse, incrdulo: - No  possvel! 
Meu filho me procurou! Marco Polo prolongou sua inspirao. Teve certeza nesse 
momento de que havia tomado um bom caminho. Toni ofereceu bebida e comida a eles. 
- Desculpe-me, amigo, mas a fome e a sede da minha alma so mais urgentes... Foram  
universidade, a mesma onde Falco havia lecionado e de onde fora expulso. Os longos 
corredores e o piso de granito escuro abriram as janelas da sua memria. Novamente 
lembranas agradveis e frustrantes ocuparam o cenrio da sua mente. Ficou 
apreensivo. Chegaram  secretaria e perguntaram por Lucas. Descobriram que ele havia 
ido longe. Era doutor em sociologia e pr-reitor da universidade. Tinha apenas 32 anos. 
Falco ficou espantado com a notcia. Como o filho de um doente mental, que fora 
perturbado pelas crises do pai, tinha chegado to jovem ao topo da hierarquia 
acadmica? Falco sabia que as doenas psquicas no so contagiosas e nem so 
determinantes geneticamente; no mximo geram influncia que podem ser dissipadas 
pelo ambiente educacional. Tinha cincia de que o universo psquico  to complexo 
que filhos de psicticos e

depressivos eram capazes de superar o clima estressante de suas casas e se tornar 
felizes, seguros, lderes. Vivera dez anos com Lucas. A base da personalidade de seu 
filho j se formara. O temor de que sua ausncia pudesse ter prejudicado a 
personalidade do menino sempre o assombrou. As notcias atuais sobre Lucas 
refrigeravam sua emoo. A secretria comunicou que o Dr. Lucas estava no 
departamento de cincias jurdicas dando uma conferncia sobre "A crise na formao 
de pensadores". Falco, indeciso, disse que voltaria numa outra hora. Marco Polo 
pegou-o pelo brao e pediu para lhe apontarem a direo do anfiteatro. Chegaram ao 
evento. A sala estava praticamente cheia. Havia apenas alguns lugares na primeira fila. 
Sem alternativa, sentaram-se prximo do conferencista. Dr. Lucas interrompeu 
rapidamente sua fala, esperou que os novos ouvintes se acomodassem e continuou sua 
exposio. Falco estava irreconhecvel com seus cabelos grisalhos, relativamente 
longos e revoltos. Pele seca e sulcada pelos maus-tratos da rua. Na platia estavam 
professores, alguns antigos colegas. Ouvir seu filho discursar com segurana, disparou 
inmeros gatilhos em sua memria. Um vendaval de imagens passou em sua mente. 
Recordou-se de inmeras passagens do pequeno Lucas. Parecia incrvel, surreal, que 
depois de tantos anos estivesse diante dele novamente. Seus olhos se fixavam na sua 
face comovidamente. Tinha vontade de interromper a conferncia, correr e abra-lo. 
Mas conteve-se. At por no saber como ele reagiria. Lucas terminou sua palestra 
afirmando que as universidades se multiplicaram, mas a formao de pensadores no 
aumentou. Comentou que uma das causas era o fato de o conhecimento estar separado, 
dividido, formando profissionais com uma viso unifocal e no multifocal da realidade. 
Disse que a matemtica, a fsica e a qumica deveriam unir-se com a sociologia, a 
psicologia e a filosofia, para construir uma cincia humanista, capaz de produzir 
ferramentas que modifiquem o mundo. Em seguida, concluiu, sob os aplausos 
acalorados da platia: - O conhecimento humanista produz idias. As idias produzem 
sonhos. Os sonhos transformam a sociedade... Aps o trmino, estimulou os 
participantes a debaterem suas idias e experincias. A platia estava hesitante, como se 
o palestrante no tivesse dado margem para questionamentos. Marco Polo, ousado, fez 
sinal para Falco falar, mas ele emudeceu. Novamente o jovem estimulou o amigo, 
sussurrando-lhe: - E a sua grande oportunidade para ajudar as pessoas e impressionar 
seu filho. Voc  um mestre nesse tema. Vamos! Falco balbuciou: - No sou capaz. 
Nesse momento, Marco Polo recordou a lio que Falco lhe dera quando disse 
insensatamente que a cincia era o deus do ser humano. Mentiu que era a sua vez de 
devolver-lhe a lio. Levantou-se subitamente, foi  frente da platia, pegou o 
microfone e subiu ao palco onde estava o Dr. Lucas. Ao ver a atitude de Marco Polo, 
Falco percebeu que tinha entrado numa das maiores encrencas da sua vida. Seu 
discpulo aprendia as coisas rapidamente. Do alto do palco, Marco Polo falou 
ousadamente: - Estimada platia! Vou apresentar-lhes um dos maiores pensadores da 
atualidade. Fez caminhadas em vrias universidades do mundo. Ele  to requisitado 
que no tem endereo

certo.  to eloqente que  capaz de fazer discurso at em cima de um banco de praa. 
Entende como ningum a crise dos pensadores. As pessoas, admiradas, deram risadas. 
Em seguida, Marco Polo apontou as duas mos para o amigo. - Com vocs, Dr. Falco! 
Havia mais de trezentos participantes. A platia achou estranho o nome do debatedor. 
Dr. Lucas, em sinal de respeito, levantou-se e o aplaudiu. A platia fez coro. Falco no 
teve outra alternativa. Subiu ao palco, fitou a platia demoradamente. Reconheceu por 
trs dos cabelos brancos alguns colegas. Lembrou-se dos que lhe deram as costas e 
fizeram chacotas. Seu olhar penetrante invadiu-lhes a inteligncia. Comeou a falar com 
uma voz vibrante e pausada. Parecia que nunca havia sado do microcosmo da sala de 
aula. Disse que os grandes homens produziram suas mais brilhantes idias na juventude, 
quando ainda eram imaturos. - Por que foram to produtivos na juventude, senhores? 
Porque no tinham medo de pensar. E por que no tinham medo de pensar? Porque no 
eram servos dos paradigmas e conceitos antigos e nem de suas verdades. No foram 
aprisionados pelo conhecimento pronto. Em seguida questionou a platia. - O que  
mais importante para formar um pensador: a dvida ou a resposta pronta? - A dvida! - 
responderam em coro. - O que vocs ensinam? Surpreendidos com a pergunta, os 
professores de direito, psicologia, sociologia, engenharia e pedagogia, na grande 
maioria, disseram com honestidade: - A resposta pronta. - Senhores, desculpem-me, 
mas ainda que no tenham conscincia disso, por transmitir o conhecimento pronto, 
vocs esto formando repetidores de idias e no pensadores. O sistema acadmico tem 
aprisionado o ser humano e no libertado sua inteligncia. Enquanto Falco falava, 
alguns membros da platia tiveram a impresso de que o conheciam. Seu atrevimento e 
fineza de raciocnio os remetiam ao passado. Falco, ento, focando antigos docentes e 
pesquisadores, golpeou-os frontalmente: - Talvez muitos de vocs tambm estejam 
algemados por esse sistema sem que o saibam. No comeo da carreira acadmica 
provavelmente duvidavam, aventuravam-se e produziam mais conhecimento do que 
hoje, quando so reconhecidos. O sucesso na carreira e os ttulos que valorizam os 
cientistas podem funcionar como venenos que matam a sua ousadia e criatividade. Na 
realidade, no deveramos ser doutores, senhores, mas eternos aprendizes. Lucas ouvia 
atentamente o homem culto e provocador. Como lder da universidade, ele sabia que 
muitos ilustres professores escondiam-se atrs dos seus ttulos e no mais produziam 
cincia. Lucas tornara-se um destemido pensador; seu sucesso viera do seu caos. 
Crescera num dos piores ambientes, mas seu pai, antes da sua psicose e nos momentos 
de lucidez entre os surtos, o levara a no ter medo do novo, a explorar o desconhecido, a 
molhar-se na chuva, a construir seus prprios brinquedos, a enfrentar sua insegurana e 
sentimento de humilhao. Falco olhou para Lucas, para Marco Polo, depois para a 
platia e finalizou: - Nossos alunos consomem o conhecimento como sanduche, um 
fastfood. No o digerem, no o assimilam e nem conhecem seu processo de produo. 
Recebem diplomas e se preparam

para o sucesso, mas no para lidar com frustraes, perdas, desafios e fracassos. As 
universidades, com as devidas excees, tm gerado servos e no autores da sua 
histria. A platia ficou abalada com essa exposio crtica e contundente. Houve uma 
exploso de aplausos. Perguntaram baixinho a Marco Polo de onde vinha o professor. 
Marco Polo disse-lhes que de muitos lugares e de lugar nenhum. Falco, com a voz 
embargada, agradeceu e disse: - Dirijo os aplausos a uma pessoa aqui presente mais 
importante do que eu. Algum com quem, na sua infncia, brinquei, beijei e amei mais 
do que tudo nessa vida... Mas tambm algum que feri e perturbei com minhas crises. 
Para poup-lo, parti para uma longa viagem. Nessa viagem, superei minhas crises, mas 
no tive coragem de voltar. Tive medo de mim mesmo. Sei agora que errei e muito... O 
pblico, confuso, no entendeu a mudana de discurso, e Lucas igualmente. Falco 
estava chorando. Fez mais uma pausa para conter seu pranto. - Meu filho sofreu muito, 
perdeu demais, mas usou sua dor para conquistar seu sucesso. Tornou-se um brilhante 
pensador e um generoso ser humano... Falco falava olhando para Lucas. Entrou em 
estado de choque. Com a voz entrecortada, abaixou o microfone e limpando com as 
mos as suas lgrimas, disse: - Filho... Eu o amo! Perdoe-me, meu pequeno pupilo. 
Lucas jamais se esquecera do apelido carinhoso que seu pai lhe dera. Como um raio, as 
ltimas palavras de Scrates abriram as crateras do seu interior e iluminaram os becos 
da sua histria. Ele reconheceu seu pai. Transportou-se para o passado. Imediatamente 
inmeras imagens saram da colcha de retalhos da sua memria, ganharam visibilidade 
no palco consciente. Comeou a ver e ouvir seu pai de braos abertos chamando-o. 
Voltou aos dez anos e viu tambm seu prprio rosto apavorado procurando-o no meio 
da multido. Tinha chorado muitas vezes na adolescncia, gritando pelo pai em silncio. 
Lucas no se importava se os outros debochavam dele. Amava-o e queria-o do jeito que 
ele era, seu querido pai. Agora, Scrates estava no palco flamejando sua inteligncia 
como se nunca tivesse deixado o cenrio de sua vida. Parecia irreal. Lucas caiu em 
prantos. Ficou completamente sem reao. No eram dois intelectuais encontrando-se, 
mas duas almas despedaadas, um pai e um filho cujas histrias foram mutiladas pelas 
intempries da existncia, mas que agora foram reunidas. Lucas levantou-se soluando e 
balbuciou: - Pai! Papai!  voc... Abraaram-se prolongadamente. Consolaram-se das 
suas dores. Beijaram-se afetivamente. O tempo parou. A platia estava atnita. 
Momentos depois, Lucas olhou para Falco e disse-lhe: - Pai, voc no imagina como o 
procurei! Foram noites de insnias e pesadelos. - Meu filho, meu filho! Perdoe-me! 
Quis ser um heri, mas fui um covarde! - No, papai, voc foi o mais corajoso dos 
homens. Vov Pedro, em seu leito de morte, confessou a mim e a mame o que fizera 
com voc. Disse que comprou um laudo de um psiquiatra para afast-lo de mim. Jamais 
deixei de am-lo. Eles se abraaram novamente. O pblico levantou-se e aplaudiu sem 
entender direito os fatos. Estavam apenas cnscios de que presenciavam uma das mais 
belas cenas de amor... Marco Polo no suportou a comoo. Foi at a janela, abriu-a e 
sentiu a brisa acariciar seu rosto. Observou os movimentos suaves das folhas e flores. 
Num mergulho interior, pela primeira vez sussurrou algumas palavras que pareciam 
uma orao: "Deus, eu no sei quem voc . Eu

tambm no sei quem eu sou. Mas obrigado pela vida e por todas as alegrias e 
sofrimentos que a transformam num espetculo nico!" Falco voltou-se para Marco 
Polo, abraou-o profundamente e agradeceu-lhe. Apresentou-o como filho adotivo e, 
para no perder seu humor, ainda teve tempo para brincar. - Os loucos vivem mais 
aventuras do que os normais. Nunca seja muito normal, Marco Polo... Ao ouvir essa 
frase, o rapaz resgatou a frase de seu pai que estava submersa em seu inconsciente: 
"Saia do lugar-comum, meu filho!" Meneando a cabea, Marco Polo entendeu o recado. 
Resolveu em seu ntimo libertar sua criatividade e caminhar sem medo pelas curvas da 
existncia. Desejou honrar seu nome e fazer da sua vida uma fascinante aventura.

C a p  t u l o 13

Falco e Marco Polo foram para a casa de Lucas. Ele havia se casado e tinha uma filha 
de dois anos. Conversaram longamente. No dia seguinte, Dbora, a ex-esposa, apareceu. 
Lucas lhe comunicara as surpreendentes notcias. Ela estava abalada e ctica. Parecia 
um sonho o retorno de Scrates e, principalmente, o resgate da sua lucidez. O 
relacionamento de Dbora com o ex-psiquiatra de Falco tinha durado pouco, cerca de 
um ano. Moraram juntos por seis meses. Como todo relacionamento que no tem razes, 
caso freqente entre terapeutas e pacientes, eles no suportaram o clima das 
dificuldades. O psiquiatra, to gentil e solidrio nos primeiros meses, se mostrou 
intolerante e pouco amante do dilogo. Terminaram a relao e nunca mais se falaram. 
Dbora teve outros namorados. Chegou a morar por quatro anos com um juiz de direito, 
amigo de seu pai. Mas o relacionamento no tinha tempero emocional. Faltava 
cumplicidade e afetividade. O juiz era isolado, fechado, vivia para o trabalho e no 
trabalhava para viver. Era um excelente profissional, mas no sabia investir naquilo que 
mais amava. No conseguia compreender a emoo ferida e carente de Dbora nem 
penetrar no mundo solitrio de Lucas. Assim, desde a partida de Scrates, ela nunca 
mais encontrara um grande amor. H dois anos estava s. Dbora chegou de surpresa na 
casa de Lucas. Ao entrar na sala, os olhos dela encontraram os olhos dele. Foi um 
momento regado com ternura. A doura e a dor se entreteceram. Os olhos dele 
umedeceram, os dela lacrimejaram. S o silncio conseguia decifrar a magia desse 
momento. Lucas calou-se. Marco Polo, que se preparava para retornar  sua cidade, 
aquietou-se. Conhecia Dbora pelas palavras de Falco. O olhar do amigo a denunciara, 
sabia que estava diante dela. Aps rpida apresentao, Marco Polo e Lucas os 
deixaram a ss, mas Falco e Dbora preferiram sair. Precisavam percorrer as avenidas 
de seu passado. Refletindo sobre o perodo em que no suportara suas crises e o tinha 
trocado pelo seu psiquiatra, Dbora abaixou lentamente a cabea e disse-lhe 
suavemente: - No sei se  possvel, mas perdoe-me. Perdoe-me por t-lo abandonado 
no momento em que voc mais precisava de mim... Meneando a cabea, Falco 
rapidamente tentou aliviar o peso do sentimento de culpa dela. - Eu te compreendo. Eu 
te compreendo... Raramente poucas palavras foram to eloqentes. Em seguida, ele 
refletiu sobre o cime doentio que tinha da mulher. Por isso acrescentou: - Perdoe-me 
tambm. Perdoe-me pelo meu cime paranico. Perdoe-me por todas as vezes que, em 
meus delrios, a acusei de traio. - Voc no tinha conscincia. - Consciente ou no, eu 
a feri. No consigo imaginar o quanto voc sofreu. Sei que no foi fcil suportar minhas 
loucuras. - Por trs das suas loucuras havia um ser humano maravilhoso. Em seguida, 
ela o abraou afetuosamente. Ele beijou seu rosto suavemente. Aos seus olhos, ela ainda 
era linda. De mos dadas, continuaram conversando. A partir dali tornaram-se grandes

amigos. Falco foi reconduzido  sua universidade. Alguns antigos colegas 
reconheceram com gestos e no com palavras o erro cometido. Eles o tinham 
discriminado por ter sido um paciente psiquitrico e erraram ao tachar sua doena 
mental como doena completamente incapacitante. Em muitas universidades havia 
outras vtimas. O retorno de Falco s suas atividades profissionais foi mais do que um 
ato de compaixo da sociedade, tentando realizar a incluso social. Foi uma das raras 
vezes em que a sociedade reconheceu a sabedoria de um ex-psictico e deu-lhe a 
oportunidade de provar que vrios mutilados pela vida tm muito a ensinar a quem tem 
muito a aprender. Falco manteve seu apelido. Provocativo, ele instigava seus alunos a 
abrir as janelas do intelecto, a ter audcia para construir idias crticas contra tudo que 
engessava suas mentes. Com olhar penetrante e fala afiada, o mestre das ruas voltou a 
flamejar no pequeno mundo da sala de aula. Marco Polo retornou  sua cidade. 
Enquanto dirigia na estrada, contemplava o ocaso. Os raios solares transpassavam os 
espaos entre as nuvens deixando estrias douradas. Era uma anatomia celeste 
encantadora. Enquanto observava a natureza, mergulhou dentro de si. Um pensamento 
deixou o silncio do seu ser e ganhou sonoridade: "Gastarei minha vida explorando o 
mais complexo e deslumbrante dos mundos: a mente humana. Serei um garimpeiro que 
procura ouro nos escombros das pessoas que sofrem." Esse pensamento mudaria para 
sempre sua vida, pautaria sua conduta e o faria pouco a pouco enxergar os transtornos 
psquicos por outros ngulos. Ao longo dos anos, teria um pensamento diferente do 
pensamento corrente na cincia. No encararia as psicoses, as depresses e os demais 
transtornos psquicos como atributo dos fracos, mas da complexidade da personalidade 
humana. O contato estreito com Falco fez Marco Polo se tornar um estudante de 
medicina mais questionador e crtico do que antes. Era um modelo de estudante raro no 
mundo acadmico. A grande maioria de seus colegas de classe tinha medo de expor 
suas dvidas e crticas. Ele, ao contrrio, embora procurasse ser gentil, no suportava 
ficar calado. Causava tumultos em sala de aula por sua ousadia em interrogar os 
professores. Estes ficavam aflitos diante dele, pois estavam preparados para ministrar 
aulas a uma platia passiva. Alguns alunos, muitssimos bem-comportados, tiravam 
melhores notas do que Marco Polo, mas no tiravam as melhores notas nas funes 
mais importantes da inteligncia - no trabalhavam a capacidade de pensar antes de 
reagir, a segurana, a sensibilidade, a intrepidez. Eram srios candidatos  frustrao 
profissional e emocional. No ter medo de ser diferente nem sempre era o caminho mais 
confortvel para o jovem Marco Polo. Exigia um preo, mas, como desejava ter luz 
prpria e no ficar na sombra dos outros, estava disposto a pag-lo. Para ele, o diploma 
passou a ser apenas um apndice. Por pensar muito e viver analisando os fatos internos 
e externos da sua vida, Marco Polo era uma pessoa marcadamente distrada. Esquecia 
onde deixara a chave do velho carro e, s vezes, onde o estacionara. Certa vez, no 
quinto ano de medicina, ficou de levar um paciente com a perna engessada e que andava 
de muletas para o setor de ortopedia. Entretanto, esqueceu-se de que o paciente o 
seguia. Subiu alguns andares, desceu outros, andou por corredores compridos e entrou 
na cozinha do grande hospital. Ao chegar l, percebeu que algum o perseguia. Era o 
paciente de muleta. Pediu desculpas e disse com humor:

- Voc est melhor do que eu! O traumatizado sorriu. Algumas pacientes diziam-lhe: - 
Doutor, minha memria est ruim. - No se preocupe, a minha est pssima - falava em 
tom de brincadeira. Estava se tornando quase to distrado como Hegel em sua velhice. 
O ilustre filsofo entrou uma vez na sala de aula calando apenas um sapato. O outro 
deixou, sem perceber, na lama. Apesar de sua distrao, Marco Polo era intensamente 
generoso e afetivo com os pacientes. Nas aulas prticas, seus professores reuniam 
grupos de oito alunos e, na beira do leito dos pacientes, comeavam a descrever as 
doenas, suas causas, tratamentos e sobrevida. Referiam-se em cdigos a algumas 
doenas, como "c.a." para cncer, para no constranger os pacientes. Mas estes sempre 
ficavam ansiosos. Aps o grupo sair das aulas prticas, Marco Polo procurava esses 
pacientes. Queria entrar nas entranhas de suas histrias, aliviar-lhes a angstia 
decorrente da internao e expectativa de morte. Tornava-se amigo deles. Fascinado 
com a medicina, pensava: "Um dia, mais cedo ou mais tarde, todo ser humano adoecer 
e precisar de um mdico. Ricos e miserveis, famosos e annimos, so iguais perante a 
dor e a morte. Eles so os fenmenos mais democrticos da existncia." Com o passar 
do tempo, apesar do apreo pela medicina, Marco Polo comeou a ficar decepcionado 
com o que observava. A medicina moderna especializou-se em eliminar a dor fsica e 
emocional, mas no aprendeu a utiliz-la minimamente. O desespero em querer eliminar 
a dor retardava o alvio e bloqueava os pacientes, impedindo-os de us-la como 
ferramenta para corrigir suas rotas e lapidar sua maturidade. Por detestar a dor, a 
medicina, tal qual a sociedade moderna, especializou-se em tratar o sofrimento do ser 
humano, e no o ser humano que sofre. A medicina se tornou lgica, objetiva, uma 
escrava da tecnologia. Muitos aparelhos, muitos exames, muitos procedimentos, mas 
pouca sensibilidade para descobrir as causas emocionais e sociais. A ansiedade na 
gnese dos infartos quase no era levada em conta. O estresse escondido nos bastidores 
dos cnceres era pouco analisado. Os pensamentos antecipatrios por trs das gastrites, 
hipertenso arterial, cefalias, dores musculares raramente eram investigados. Certa vez, 
Marco Polo estagiava no setor de emergncia. O ambiente do pronto-socorro era 
sombrio, excessivamente tcnico e pouco afetivo. Nesse estgio, ficou inconformado 
com as atitudes de certos professores de medicina diante dos sintomas de algumas 
mulheres. Elas apresentavam fortes dores de cabea, dores abdominais, dores no trax, 
mas no tinham doena fsica que justificasse os sintomas. Diante disso, prescreviam 
analgsicos, s vezes, tranqilizantes, e secamente as despediam dizendo que no 
tinham nada orgnico. No mximo, alguns sugeriam que elas procurassem um 
psicoterapeuta. Aps as pacientes sarem do consultrio, determinados professores 
reclamavam delas para os estudantes. Diziam que elas atrapalhavam o servio, que 
simulavam sintomas, inventavam doenas, no tinham mais o que fazer. Negavam que 
elas possuam um conflito interior massacrante. Certa vez, Marco Polo teve uma 
discusso com um professor, Dr. Flvio, que tratou estupidamente uma mulher. Ela 
aparecia toda semana para ser atendida com aperto no peito, taquicardia e sensao de 
falta de ar. Ao v-la novamente com a mesma queixa, ele argiu rispidamente:

- Voc no tem mais o que fazer? Quantas vezes j lhe disse que no tem nada 
fisicamente? V resolver sua vida! Procure um psiquiatra. A paciente caiu em prantos. 
Marco Polo pegou-a delicadamente pelo brao e pediu-lhe que esperasse l fora. Em 
seguida, olhou para seu professor e falou-lhe: - Por que, em vez de critic-la, o senhor 
no conversa sobre as causas psquicas desses sintomas? Por que no investiga a sua 
histria? Uma das tarefas mais difceis do mundo  ensinar um professor que perdeu sua 
capacidade de ser um aluno. Sentindo-se afrontado, o professor elevou seu tom de voz. 
Com autoritarismo, falou na frente de outros trs colegas de Marco Polo presentes na 
sala: - Olha aqui, garoto, no me venha dar lio de moral. Sou doutor em emergncia 
mdica e voc  um mero aprendiz. Aqui no temos tempo para cuidar de bobagem. 
Intrpido, Marco Polo retrucou: - Se o senhor, que  culto e saudvel, ficou ofendido 
com minhas simples palavras, imagine como essa paciente no se ofendeu com suas 
palavras. O professor engoliu em seco. Em seguida, Marco Polo emendou: - Vir a um 
pronto-socorro no  a coisa mais agradvel de se fazer. Se essa paciente teve coragem 
para vir a esse ambiente tenso, desprovido de alegria,  porque ela deve estar sofrendo 
muito. O senhor no acha que seus sintomas, ainda que imaginrios, representam um 
grito de que ela est precisando que o senhor dialogue com ela? Os demais alunos 
sentiram calafrios pela ousadia de Marco Polo. - No sou psiquiatra. - Professor, 
desculpe a minha ignorncia diante da sua competncia, mas ser que no loteamos os 
pacientes entre a medicina biolgica e a psiquiatria? Talvez ela no precise de um 
psiquiatra no momento, mas de um especialista como o senhor que a oua, lhe d apoio, 
compreenso e segurana de que ela no tem nenhuma doena grave. Os alunos se 
entreolharam apreensivos. O professor ficou perturbado e sem ao. Mas, depois de um 
momento de silncio, demonstrou um gesto de rara humildade: - Reconduza-a a esta 
sala. Na sala, o Dr. Flvio perguntou seu nome completo e indagou se ela podia falar 
sobre sua histria na frente de todos os alunos ou preferia conversar a ss. Catarina 
comentou que poderia falar a todos. Era uma mulher de traos belos, mas marcados pela 
angstia crnica. Tinha trinta anos, era casada e com um filho de um ano e meio. Para 
surpresa do professor e dos alunos, ela relatou espontaneamente que h um ano perdera, 
atravs de um infarto fulminante, uma das pessoas que mais amava na vida: seu pai. Ele 
fora seu grande amigo e sempre estivera presente nos momentos mais difceis da sua 
histria. Agora, ela atravessava um gravssimo problema, mas no tinha mais seu 
ombro, seu consolo e conselho. H quatro meses seu marido sofrer um grave acidente 
automobilstico, teve um trauma de coluna e estava numa cadeira de rodas. Ele chorava 
diariamente querendo andar, praticar esportes, rever os amigos. Sua casa, antes um 
canteiro de alegria, tornara-se uma terra seca. Os mdicos disseram que ele tinha chance 
de voltar a andar, mas ela temia que isso no acontecesse. O medo da vida, o medo do 
amanh, o medo de ter um marido paraplgico a dominavam. Insegura, comeou a ter 
outros tipos de medos: de no conseguir sustentar sua casa, de morrer de infarto tal qual 
seu pai, de deixar seu filho sozinho no mundo.

No tinha o pai para dividir sua dor e no podia contar com o marido. Alm disso, seu 
marido no tinha seguro-sade e nem seguro-desemprego. Ela trabalhava para sustentar 
a casa, mas seu salrio mal dava para a famlia sobreviver. E, enquanto trabalhava, 
ficava pensando no marido numa cadeira de rodas e no filho indefeso. Ao falar tudo 
isso, desatou a chorar. Estava insone, deprimida e profundamente solitria. Sentia-se 
desprotegida. Ao olhar para a angstia de Catarina, Dr. Flvio ficou pensando em tudo o 
que possua e no valorizava. Sentiu-se um grande egosta. Sua esposa era saudvel, 
seus filhos maravilhosos, havia uma empregada para cuidar da casa, no tinha 
problemas financeiros. Tudo o que Catarina no tinha, mas vivia insatisfeito, 
reclamando da vida e do trabalho. Marco Polo se antecipou e lhe disse: - Voc tem 
razo de ter esses sintomas, Catarina. Eles so a ponta do iceberg do seu sofrimento. 
Para surpresa da paciente, o professor que a ofendera completou amavelmente: - 
Desculpe minha atitude inicial. Eu concordo com Marco Polo. Seus sintomas so 
pequenos diante de tantos transtornos. Catarina, voc  uma herona. Creio que seja 
mais forte do que ns. Tenha convico de que voc no tem nenhum problema fsico 
importante. Os exames que fizemos na semana passada demonstram que seu corao 
est timo. Venha aqui todas as vezes que desejar. Voc ter sempre alguns amigos para 
ouvi-la. Marco Polo ainda acrescentou: - Voc est canalizando para seu corpo a 
ansiedade decorrente das suas perdas. Lute contra seus medos, lute pelas pessoas que 
voc ama, lute pelo seu filho e pelo seu marido. Dr. Flvio ficou impressionado com os 
conflitos da sua paciente e com o altrusmo e a fora do seu aluno. Profundamente 
sensibilizada, Catarina agradeceu e saiu do pronto-socorro, pela primeira vez, alegre e 
disposta a enfrentar a vida. Sabia, agora, que tinha um porto seguro, que podia contar 
com alguns amigos. Entendeu e convenceu-se de que seus sintomas eram de origem 
emocional. Quando eles apareciam, ela j no gravitava em torno deles. Resgatou sua 
auto-estima e sua segurana. Infelizmente, seu marido teve seqelas irreversveis - ficou 
paraplgico. Catarina o encorajou a no se entregar, a encontrar alegria e liberdade em 
suas limitaes. Apoiado pela esposa, ele no teve compaixo de si mesmo, no se 
considerou um pobre miservel, mas foi  luta. Em vez de deprimir-se, seu filho 
revigorou-lhe o nimo. Mesmo numa cadeira de rodas, ficou dois anos cuidando da 
criana enquanto Catarina trabalhava. Raramente um pai curtiu tanto um filho. 
Posteriormente, conseguiu recolocar-se. O menino foi para uma creche. Tornaram-se 
uma famlia rica, embora no tivessem grandes recursos financeiros. Catarina nunca 
mais voltou ao setor de emergncia como paciente. Retornou apenas para apresentar o 
filho e o marido aos novos amigos. Superou a masmorra do medo.

C a p  t u l o 14

Marco Polo se correspondia freqentemente com Falco, e pelo menos uma vez a cada 
semestre eles se visitavam. Quando se encontravam, ainda faziam peripcias. Suas 
atitudes inusitadas de abraar rvores, contemplar prolongadamente a natureza, fazer 
poesias de improviso e declam-las continuavam a atrair todos ao redor. Chegou o dia 
da formatura. Pela admirao que construra em seus colegas de classe, Marco Polo foi 
o orador da turma. Sua preleo resgatava sua experincia desde os tempos da sala de 
anatomia, mesclava filosofia com uma viso crtica da medicina e da psiquiatria. 
Finalizou seu ousado discurso com estas palavras: Um dia todos ns vamos para a 
solido de um tmulo. Uma criana de um dia de vida j  suficientemente velha para 
morrer. A morte  a derrota da medicina. Todavia, apesar das limitaes da cincia, 
devemos usar todas as nossas habilidades no apenas para prolongar a vida, mas para 
fazer dessa breve existncia uma experincia inesquecvel. Os mdicos devem ser 
pessoas de rara sensibilidade, artesos das emoes, profissionais capazes de enxergar 
as angstias, as ansiedades e as lgrimas por trs dos sintomas. Caso contrrio, trataro 
de rgos e no de seres humanos. Acima de tudo, os mdicos, bem como todo 
profissional que cuida da sade humana, devem ser vendedores de sonhos. Pois, se 
conseguirmos fazer nossos pacientes sonharem ainda que seja com mais um dia de vida 
ou com uma nova maneira de ver suas perdas, teremos encontrado um tesouro que reis 
no conquistaram... Marco Polo foi ovacionado com entusiasmo. Seu discurso deixou os 
presentes reflexivos. Mas ele no imaginava que um dia passaria por muitas 
dificuldades e que teria de fazer desse audacioso discurso os pilares centrais da sua vida, 
caso contrrio no sobreviveria. Teria de vender e construir sonhos. Logo aps sua 
formao, ingressou num curso de especializao em psiquiatria, num grande hospital 
psiquitrico, chamado Atlntico. Havia mais de oitocentos pacientes internados. Parte 
do tempo, ele fazia atendimentos internos e na outra parte realizava atendimentos de 
pacientes nointernados. Freqentemente seus professores se reuniam para discutir os 
casos mais complexos. O Hospital Atlntico era constitudo de trs grandes prdios, 
com belas fachadas, janelas torneadas e ricamente trabalhadas. As construes 
lembravam os edifcios da parte velha de Paris. Porm, por dentro, o ambiente estava 
longe de ser encantador. As paredes eram brancas e descoloridas. As reas de lazer entre 
os prdios eram enormes, mas mal utilizadas e os jardins extensos e pouco cuidados. 
Nos tempos de Marco Polo, a hospitalizao j era desencorajada. Em tese, os pacientes 
deveriam ficar o menor tempo possvel internados, mas ainda havia inmeros hospitais 
e muitos pacientes internados cronicamente, desamparados por suas famlias. O jovem 
pensador se entristecia ao constatar que a sociedade insistia em separar os normais dos 
anormais. O problema consistia em saber quem era menos doente, se os de fora ou os de 
dentro. Alguns hospitais psiquitricos eram mais humanizados do que o Atlntico. 
Neles, os pacientes

menos graves passavam o dia internados e  noite retornavam a suas casas. Mas o velho 
hospital, embora fosse referncia nacional, parecia mais um depsito de doentes 
mentais. Os enfermeiros eram irritados e ansiosos. Os psiquiatras raramente sorriam, 
tinham um mau humor latente. A tristeza era contagiante. Faltava alegria e solidariedade 
no famoso hospital. Marco Polo estava chocado com o que vivia. No comeo da sua 
especializao, ele se perguntava freqentemente: "O que estou fazendo aqui?" Era um 
mundo completamente distinto da sociedade em que crescera. Embora tivesse breve 
contato com alguns pacientes psiquitricos durante o curso de medicina, agora estava na 
cidade deles. Via pessoas por toda parte com o eu desagregado, partido, sem identidade, 
sem parmetros de realidade. Os pacientes estavam embotados, sem expresso facial, 
com musculatura contrada. O tratamento era fundamentalmente medicamentoso. Tal 
procedimento contrariava tudo o que aprendera com a histria de Falco. Marco Polo 
estava inconformado. Alguns pacientes achavam, em seus delrios, que eram grandes 
personagens da histria. Outros se sentiam controlados, perseguidos e sentiam que suas 
mentes eram invadidas por vozes, como Falco em seus surtos. Ainda outros construam 
imagens de animais ou de objetos ameaadores. Havia tambm pacientes vtimas de 
alcoolismo, dependncia de outras drogas e depresso. A doena psquica no escolhia 
cor, raa, nacionalidade ou status social. As pessoas internadas vinham de todas as 
camadas sociais, de simples funcionrios a executivos. Advogados, engenheiros e at 
alguns mdicos faziam parte da populao do Hospital Atlntico. De acordo com a 
engenhosidade inconsciente, cada paciente construa seus delrios e alucinaes com 
caractersticas e freqncias prprias. Cada cabea era um mundo. Um mundo que 
encantava Marco Polo. Logo que comeou a atender os pacientes internados, o jovem 
pensador percebeu que o tratamento psiquitrico gerava uma fbrica de preconceitos. As 
pessoas da sociedade tinham medo de procurar psiquiatras porque achavam que eles 
eram mdicos de loucos, e os internados estavam to combalidos que eles mesmos 
sentenciavam-se como doentes, proclamando espontaneamente seu diagnstico: "Eu sou 
esquizofrnico", "Eu sou PMD" (psictico manacodepressivo). No havia brilho nos 
olhos dos pacientes internados, no havia esperana. Para sua tristeza, Marco Polo 
concluiu que, se havia um lugar na sociedade onde os sonhos morreram, era dentro dos 
hospitais psiquitricos. Os presdios eram menos custicos. Parecia que naqueles ares a 
psiquiatria no vendia sonhos, mas pesadelos. Algumas pessoas preconceituosas 
encaravam os pacientes internados como esgotos da sociedade, no percebiam que eles 
mereciam um solene respeito. Os pacientes no eram culpados por seus transtornos 
psquicos, como os pacientes com AIDS, cncer e infarto tambm no o so. Todavia, a 
sociedade dos "normais" ama procurar explicaes superficiais, ama achar culpados 
para os problemas que no entende. Marco Polo tambm descobriu que at os 
portadores de leves transtornos emocionais facilmente perdiam a auto-estima. Eles se 
autotachavam de depressivos, fbicos, estressados. "Quais so as razes desse 
preconceito, se no h ningum psiquicamente saudvel na sociedade?", pensava, 
inconformado. Comeou a desconfiar que os pacientes vestiam o rtulo dos 
diagnsticos na psiquiatria e se sentiam condenados a conviver com eles pela vida toda. 
Perdiam a maior ddiva da inteligncia:

reconhecer que, acima de nossas mazelas psquicas, somos seres humanos e, como tal, 
possuidores de personalidade fascinante. Abalado, comeou a entender mais 
estreitamente as rejeies que Falco atravessou em suas crises antes de sair pelo 
mundo. No demorou muito para Marco Polo movimentar o ambiente. Ele reunia os 
pacientes nos corredores, nas reas de lazer, nas salas de atendimento, fitava-os e com 
convico lhes dizia: "Vocs no so doentes mentais. Vocs so seres humanos 
portadores de uma doena mental. Acreditem em seu potencial intelectual. No 
desistam de si mesmos. Vocs so fortes e capazes." Alguns pacientes choravam diante 
do conforto que nunca tinham recebido. Outros no entendiam o que ele queria dizer. 
Outros saam eufricos com a injeo de nimo. Outros ainda achavam que ele era 
tambm um paciente que se passava por mdico. Diziam: "Que louco legal!" Ele sorria. 
Aos poucos a fama de Marco Polo correu no ambiente. Uma raposa aparecera no ninho 
do grande Hospital Atlntico para despertar mentes cerradas e perturbar os dogmas. Ele 
achava que devia haver mais romantismo e prazer num ambiente to ttrico. Criticava o 
mau humor dos profissionais do hospital. Por isso, comeou a revolucionar o 
relacionamento com os pacientes. As formalidades foram dispensadas. As distncias 
entre os mdicos e pacientes foram aproximadas. Marco Polo comeou a chamar cada 
um alegre e efusivamente pelo nome. Abraava-os e elogiava-os onde quer que os 
encontrasse: "Joana, voc est maravilhosa? Eduardo, hoje voc est mais sorridente! 
Jaime, que bom rev-lo!" Os psiquiatras e enfermeiros se surpreendiam com as atitudes 
do jovem psiquiatra. Algumas pessoas maldosas diziam que ele era candidato a algum 
cargo poltico. Um belo dia, uma senhora de 75 anos, deprimida, pessimista e 
excessivamente crtica, foi atendida por Marco Polo. Seu nome era Noemi. Ela possua 
inmeras janelas killers em seu inconsciente. Essas janelas so zonas de conflito que 
geram alto volume de tenso capaz de "assassinar" ou bloquear a capacidade de pensar 
de uma pessoa num determinado momento, levando-a a reagir por instinto, com 
agressividade. Qualquer contrariedade, at um pequeno olhar, detonava um gatilho 
inconsciente que conduzia Noemi a abrir as janelas killers, levando-a reagir sem pensar, 
conduzindo-a a ofender e criticar impulsivamente as pessoas ao seu redor. Antes de ela 
entrar no consultrio de Marco Polo estava zangada e ansiosa como sempre, mas ele a 
desarmou. Levantou-se da cadeira, foi at a porta, recebeu-a com um sorriso, chamou-a 
pelo nome e fez um grande elogio. - Dona Noemi, como a senhora  bonita! Fazia dez 
anos que ela no ia  cabeleireira. Ela mesma cortava o prprio cabelo e raramente o 
arrumava. Constrangida e admirada pelo gesto do psiquiatra, ela se sentou feliz, 
procurando ajeitar seus cabelos. - Obrigada, doutor, pela sua gentileza. Voc  muito 
simptico - disse ela, devolvendo quase inconscientemente o elogio. - Gostaria muito de 
conhecer a sua histria. Noemi era uma pessoa fechada e incapaz de fazer elogios s 
pessoas, nem mesmo aos seus trs filhos. Na primeira consulta abriu alguns captulos da 
sua vida. Na outra consulta foi mais aberta ainda. Veio com Uma roupa mais 
apresentvel e o cabelo todo arrumado. Tinha feito escova e tintura. A paciente tratava 
agressivamente as pessoas e estas devolviam-lhe as indelicadezas, fechando o ciclo da 
ansiedade. Um pequeno gesto de Marco Polo comeou a romper o crculo vicioso do 
seu pessimismo. Aos poucos, estimulou-a a criticar sua postura diante da vida, a 
repensar seu

passado, a atuar em seu pessimismo, a extrair prazer das pequenas coisas e 
principalmente a aprender a se colocar no lugar dos outros. Noemi no precisava apenas 
de tratamento psiquitrico, mas a reaprender a viver. E conseguiu. Do alto dos seus 75 
anos reeditou as janelas killers, desenvolveu solidariedade, gentileza e altrusmo. Marco 
Polo tornou-se mais ousado em quebrar os paradigmas do atendimento. Comeou a sair 
do consultrio e receber os pacientes na prpria sala de espera. Sempre com elogios e 
um sorriso no rosto, caractersticas de sua personalidade. Lisonjeados, os pacientes 
sentiam-se pessoas de raro valor e no doentes. Entravam para a consulta com a auto-
estima elevada, rompendo as resistncias conscientes e inconscientes que causavam um 
bloqueio, impedindo-as de entrar em contato com sua prpria realidade. As consultas, 
embora tivessem momentos tensos, envolvidos por lgrimas, relatos de perdas e crises 
ansiosas, eram de um modo geral muito agradveis. Para Marco Polo, a sociedade 
moderna empobreceu, perdeu a amabilidade e a afabilidade. As pessoas tinham cultura 
como em nenhuma outra gerao, mas perderam o poder da gentileza e do elogio. A 
medicina tinha sido contagiada por esta insensibilidade. Ele era afvel no apenas com 
os pacientes, mas com os funcionrios mais simples do hospital. Brincava com os 
porteiros e as auxiliares de enfermagem. Abraava as faxineiras. Trouxe alegria ao 
sombrio ambiente do Hospital Atlntico. At nas terapias de grupo procurava conduzir 
as reunies no apenas com inteligncia, mas com humor. Certa vez, ocorreu um caso 
inusitado. Um dos pacientes do grupo era Ali Ramadan, um palestino que vivera no 
Iraque por muitos anos. Ele foi torturado pela polcia de Sadan Hussein, conseguiu 
escapar, mas perdeu grande parte da famlia. Seu pai nunca saiu de Abu Ghraib, a 
cadeia-smbolo do regime. Ali Ramadan desenvolvera sua psicose a partir de 25 anos de 
idade. Ele se atormentara durante anos com a imagem de extraterrestres. Com a 
evoluo da sua doena, o grau de sua perturbao aumentou. Comeou a conversar 
com ETs e falar obsessivamente sobre eles com as pessoas, em particular com seus 
colegas do Hospital Atlntico. Numa das sesses do grupo, ele perguntou a Marco Polo: 
- Doutor, voc sabia que existem seres de outros planetas? - Se h seres em outros 
planetas eu no sei, mas dentro de cada um de ns h muitos monstros que nos 
perturbam. Pego de surpresa com a resposta, Ali Ramadan, pela primeira vez, sorriu 
quando falou sobre extraterrestres. Percebendo que seu relaxamento era uma preciosa 
oportunidade para ajud-lo a ter conscincia crtica, Marco Polo aproveitou o momento 
e emendou: - Estimado Ali, no se preocupe com seres de outros planetas, bastam os 
monstros criados diariamente em nossas mentes. Combata-os, critique-os sem medo. 
Seja livre! - Estou cheio de monstrinhos na minha cabea. Quer alguns, Ali - falou Sara 
com espontaneidade. - No, j bastam os meus ETs! - falou pensativo. Todos deram 
risadas. Marco Polo no perdeu tempo dizendo que o paciente alucinava. No era o 
momento, mas usou o potencial intelectual de Ali para que ele mesmo enxergasse a 
incoerncia das suas idias e compreendesse a real fonte de suas perturbaes. O 
paciente tornou-se reflexivo, o que no era uma caracterstica dele. Abriu as janelas da 
sua

inteligncia e comeou paulatinamente a progredir na terapia de grupo. Comeou a 
criticar as suas fantasias e a potencializar o efeito dos remdios. O jovem mdico e Ali 
teceram uma longa amizade. Aos poucos, Marco Polo passou a ser motivo de conversas 
na direo do hospital. O ambiente perdeu sua rotina com o jovem irreverente. Certa 
vez, ao contemplar uma rvore repleta de flores amarelas no meio do imenso jardim do 
hospital, no resistiu. Abraou seu tronco, deu-lhe um beijo e disse algumas palavras. 
Foi um escndalo para alguns profissionais que o viram. Observando-o, muitos 
pacientes comearam a imit-lo logo que ele saiu. Formou-se uma imensa fila diante 
dessa rvore. Cada paciente abraava-a por alguns minutos e depois a beijava. Saam 
aliviados. Jaime, um professor de biologia que depois de muitas crises fora abandonado 
pela famlia, gostou da experincia. H anos no abraava ningum, nem mesmo os 
responsveis por sua sade. Ao abraar a rvore e sentir seu frescor, saiu pulando pelos 
jardins. Abraava e beijava todas as rvores que estavam  sua frente e gritava: - Voc  
maravilhosa! O caso chegou ao arrogante e autoritrio Dr. Mrio Gutenberg, diretor-
geral do Hospital Atlntico. Ele era um europeu inteligente, perspicaz, radical. Um 
mdico respeitado, mas pouqussimo flexvel. Chamado a dar explicaes, Marco Polo 
foi questionado. - O que voc est ensinando aos pacientes? - No estou entendendo, 
Dr. Mrio? - No est entendendo? Dezenas de pacientes esto beijando rvores neste 
hospital. Marco Polo, com um n na garganta, disse: - No pedi que fizessem esse 
gesto. Eu, de vez em quando, gosto de abraar uma rvore e lhe dar um beijo.  minha 
forma de agradecer  natureza pela ddiva da vida. - Ddiva da vida? O senhor est 
tratando de pacientes ou precisa de tratamento? - Todos ns precisamos. - Onde voc 
aprendeu a ser to atrevido? Seus comportamentos podem precipitar crises nos 
pacientes. - Abraar rvores pode desencadear crises? - No sei, mas eles esto 
eufricos, diferentes. - Se os psiquiatras, psiclogos e enfermeiros pudessem abraar os 
pacientes e ser mais afetivos com eles, talvez eles no precisassem abraar rvores. - 
Que petulncia! O senhor ainda nem  um especialista em psiquiatria e quer virar de 
cabea para baixo nosso sistema! Esta instituio tem quase um sculo. No a perturbe. 
Estarei observando-o.

C a p  t u l o 15

Em outra ocasio, Marco Polo se envolveu em um novo incidente, agora mais grave, 
com o corpo de mdicos. Havia mais de quarenta psiquiatras atuando no hospital e dez 
mdicos em processo de especializao. Marco Polo participava de uma reunio de 
discusso de casos que contava com a presena de dez psiquiatras, incluindo alguns 
professores e cinco alunos. O Dr. Alexandre, um psiquiatra de grande reputao, 
renomado professor universitrio, conduzia a discusso. Ele concluiu a reunio com o 
seguinte comentrio: - Quem no aprender com seriedade a fazer diagnsticos ser um 
pssimo psiquiatra. Quando cessaram os aplausos, Marco Polo retrucou: - O diagnstico 
pode ser til para mim, mas  tico diz-lo categoricamente aos pacientes? - Sim, os 
pacientes tm o direito de saber a verdade. - Concordo que os pacientes devam saber a 
verdade, mas que verdade  essa que construmos na psiquiatria? No  a verdade de 
nossas teorias que esto sujeitas a inmeras mudanas ao longo dos anos? - Voc est 
querendo questionar a psiquiatria? - falou impacientemente o professor. - Ela precisa ser 
questionada em algumas reas. Gostaria que o senhor me respondesse: devemos colocar 
os pacientes dentro de uma teoria ou a teoria dentro dos pacientes? O professor refletiu 
e ficou sem resposta. Escrevera muitos artigos cientficos, mas nunca havia pensado 
nisso. Marco Polo tentou simplificar sua pergunta: - Se as teorias esto acima dos seres 
humanos, se elas so irrefutveis ento devemos colocar os pacientes dentro delas e 
rotul-los de acordo com seus pressupostos. Entretanto, se os seres humanos esto 
acima das teorias e suas personalidades so to diferentes umas das outras devemos ter 
cuidado com os diagnsticos. O diagnstico que pode servir para dirigir minha conduta 
pode servir para controlar a vida de um paciente e cometer atrocidades. Os demais 
colegas sentiram-se desarmados. O Dr. Alexandre ficou abalado com o argumento e a 
ousadia de Marco Polo. Nunca enfrentara uma situao como essa. Mas tentou sair pela 
tangente. -  folclore que os pacientes possam sofrer com os diagnsticos. - H milhes 
de pessoas no mundo vivendo sob a ditadura dos rtulos, e afirmando: sou depressivo, 
sou esquizofrnico, sou bipolar. - Voc no acha que  muito jovem para criticar a 
psiquiatria? - disse o Dr. Alexandre, constrangido. - Professor, se eu perder minha 
capacidade de criticar, serei um servo das teorias e no um servo da humanidade. Marco 
Polo via diferenas entre comunicar o diagnstico de uma doena fsica e de uma 
doena psquica. Um paciente que sofreu um infarto ou  portador de um cncer, 
quando fica sabendo de sua doena, tem como colaborar com o tratamento para superar 
a doena e, assim, melhorar e expandir sua qualidade de vida. Por isso, emendou:

- Raramente os pacientes portadores de cncer ou infarto so discriminados por terem 
tais doenas. Ao contrrio, freqentemente recebem afeto, apoio e visitas dos amigos e 
parentes. Enquanto que os portadores de psicose manaco-depressiva ou esquizofrenia 
so rejeitados por alguns familiares e excludos socialmente. Raramente so visitados 
por seus amigos. O rtulo na psiquiatria gera um isolamento cruel e injusto. - Eu no 
rotulo os pacientes - disse um outro professor. - Desculpe-me, mas s vezes os 
rotulamos sem querer rotul-los. A maneira como comunicamos a eles nossos 
diagnsticos pode gerar um desastre emocional. Eles perdem a identidade como seres 
humanos e introjetam que so doentes. Em seguida, Marco Polo respirou e acrescentou: 
- E quanto ao poder dos rtulos? Einstein disse certa vez: " mais fcil desintegrar um 
tomo do que desfazer um preconceito." Os professores presentes ficaram intrigados 
com a cultura e intrepidez do jovem mdico. Felipe, que tambm estava se 
especializando, falou: - Einstein era um gnio. Se ele disso isso, temos de tomar 
cuidado, podemos causar mais danos do que ajudar os pacientes. - O prprio Einstein 
foi atingido pelo preconceito em duas ocasies - completou Marco Polo. - Quando? - 
perguntou outro psiquiatra. - Na primeira foi vtima de preconceito, na segunda foi 
agente. Einstein mostrou que o espao e o tempo so intercambiveis e pertencem  
mesma estrutura. Todavia, a estrutura espaotempo, como um todo, no varia, no  
relativa, por isso o prprio Einstein quis mudar o nome da teoria da relatividade para 
teoria da invarincia, mas no conseguiu. E por qu? - perguntou olhando para o Dr. 
Alexandre. - Porque a palavra "relatividade" j tinha se tornado popular - respondeu. - 
Correto! A maior teoria da fsica foi perpetuada com o nome errado. O preconceito 
venceu. Marco Polo silenciou. No disse qual foi a segunda ocasio em que Einstein foi 
atingido pelo preconceito. Tinha uma coisa muito sria para revelar, talvez nunca antes 
comentada sobre o cultuado cientista. Esperou que a curiosidade produzisse um estresse 
saudvel nos presentes, capaz de abrir as possibilidades do pensamento. Ansioso, um 
dos psiquiatras no suportou. Indagou: - Qual a segunda situao? - Um dos maiores 
gnios da humanidade tambm gerou um doente mental. Ele teve um filho portador de 
esquizofrenia. Os colegas se entreolharam curiosos, no sabiam disso. Marco Polo 
completou: - Aqui h uma grande lio. Excetuando as causas genticas, uma pergunta 
nos vem  mente: se um dos maiores gnios da humanidade gerou um filho 
mentalmente doente, quem est livre de ger-los? Esta pergunta nos induz a uma 
resposta angustiante: ningum est livre desse drama. Porm, ela precisa ser rebatida 
com um questionamento' Einstein foi o expoente da cincia lgica, do mundo da fsica e 
da matemtica, mas para gerar filhos psiquicamente saudveis precisamos ser expoentes 
em outro mundo, o mundo ilgico da emoo, da sensibilidade, da flexibilidade, do 
dilogo, do perdo. Eles ficaram intrigados com o raciocnio de Marco Polo. Olharam 
para a prpria histria. Era de esperar que psiquiatras ou psiclogos raramente gerassem 
filhos doentes. Mas sabiam que vrios profissionais de sade mental, incluindo alguns 
dos psiquiatras na platia, tinham filhos

estressados, deprimidos, fbicos, tmidos e com outros conflitos. Todo o conhecimento 
lgico sobre a mente humana que possuam no fora suficiente para lhes garantir o 
sucesso na formao da personalidade dos seus filhos. Entenderam que educar era lavrar 
um solo ilgico. Todo ser humano, mesmo psiquiatras e psiclogos, tem dificuldades 
em pisar nesse sinuoso terreno. Outro psiquiatra indagou: - Qual foi a reao de Einstein 
diante de um filho psictico? - No poderia ter sido pior! Einstein desta vez no foi 
vtima, mas agente do preconceito. - Como assim? - Einstein visitou apenas uma vez 
seu filho no hospital psiquitrico. Abandonou-o, deixou que a solido fosse sua 
companheira. E a rejeio e a solido, caros amigos, no so mais rpidas do que a luz 
estudada pela fsica, mas so mais penetrantes do que ela. A platia ficou emudecida. 
Depois de alguns instantes de profunda reflexo, o prprio Dr. Alexandre perguntou 
humildemente: - Ainda que dentro das limitaes da interpretao, quais foram as 
causas que voc detectou que conduziram Einstein a abandonar seu filho, se ns 
recomendamos exaustivamente para as famlias no desampararem seus pacientes neste 
hospital? Por que uma das mentes mais brilhantes da humanidade foi opaca nessa 
situao? Marco Polo respirou profundamente e comentou: - Na minha singela opinio, 
quatro causas foram responsveis pela atitude preconceituosa de Einstein, incompatvel 
com a sua inteligncia. Primeira, o abalo emocional pelas condies inumanas do 
hospital em que seu filho estava internado. Notem que at hoje nossos hospitais so 
deprimentes. Segunda, a falta de esperana de que seu filho superasse sua psicose. 
Terceira, a dramtica angstia que as alucinaes e delrios do seu filho lhe causavam. 
Quarta, o medo de ter de enfrentar sua prpria impotncia diante de um mundo que no 
conhecia. - Einstein tinha uma mente vida por respostas, mas deve ter ficado 
perturbado com a falta de respostas que explicassem a desagregao da inteligncia de 
seu filho - concluiu o Dr. Alexandre. Aps uma breve pausa para respirar, Marco Polo 
completou: - Essas quatro causas revelam que o homem que mais entendeu as foras do 
universo fsico no compreendeu as foras do mais complexo dos universos: o psquico. 
Einstein foi um homem afetivo e amante da paz, mas o preconceito o encarcerou. Seu 
eu, nessa rea, foi prisioneiro das janelas killers ou zonas de conflitos arquivadas em seu 
inconsciente. Sua fascinante histria revela que  mais fcil lidar com o tomo e com o 
imenso espao do que com nossas mazelas e misrias psquicas. Em seguida, finalizou: 
- Senhores, cada cabea  um universo a ser explorado. Bem-vindos  rea mais 
complexa da cincia! O Dr. Alexandre inspirou-se diante dessa ltima frase. Ele sempre 
fora uma pessoa madura. Como todo mundo, tinha suas defesas quando questionado ou 
contrariado. Mas, ao ser convencido sobre seu equvoco, teve a coragem de apertar as 
mos do seu aluno. - Marco Polo tem razo. Reconheo meu erro. A psiquiatria e a 
psicologia, bem como a medicina em geral, no podem ver a doena como um produto, 
tal como no mundo capitalista. Com o passar do tempo nos tornamos tcnicos em 
doenas e perdemos a sensibilidade pelos doentes. Vamos nos vacinar contra a indstria 
do preconceito. Usem os diagnsticos, mas no

sejam usados por eles. Desse modo, a reunio se encerrou. A pequena platia deu um 
salto na compreenso do fantstico mundo da psique humana.

C a p  t u l o 16

No Hospital Atlntico trabalhavam mais de duzentos profissionais, entre mdicos, 
psiclogos, enfermeiros, assistentes sociais, atendentes, seguranas e outros. A maioria 
dos profissionais no conhecia intimamente Marco Polo e desconfiava de sua atuao. 
Alguns psiquiatras, entre os quais o diretor do hospital, o viam mais como amotinador 
do que como um competente profissional. Menos de um dcimo dos pacientes o 
conhecia, mas os que o conheciam o amavam. De longe o cumprimentavam. Felipe 
estreitara os laos com Marco Polo. Tornaram-se grandes amigos. Todavia, embora 
Felipe tambm tivesse crticas contra o sistema de tratamento do hospital, era contido, 
discreto, avesso a escndalo e preocupado com seu futuro e com sua imagem social. 
Numa tarde de segunda-feira, Marco Polo e Felipe passeavam pelo ptio onde os 
pacientes tomavam sol e tentavam recrear-se. Olhando para os rostos cabisbaixos, 
entristecidos, desesperanados, como prisioneiros na pior de todas as celas - a cela 
psquica -, Marco Polo subiu no pequeno coreto que estava no centro do jardim. 
Preocupado, Felipe argiu-lhe: - O que voc vai fazer? - Garimpar ouro. - Garimpar o 
qu? Ao subir no coreto, Marco Polo recordou dos discursos que ele e Falco faziam 
nas praas para conduzir as pessoas a realizarem uma viagem interior. Em seguida, 
recordou do que prometera para si mesmo em seu pequeno carro aps ter deixado 
Falco na casa de Lucas: "Farei da minha vida uma grande aventura, procurarei um 
tesouro escondido nos escombros das doenas psquicas." Ao mesmo tempo que trazia 
essas imagens  mente, olhava para os pacientes do Hospital Atlntico e ficava 
frustrado. Ele atendia, no mximo, alguns pacientes por dia, portanto, sabia que jamais 
teria a oportunidade de conversar e conhecer a maioria deles. Movido por um forte 
mpeto, exclamou solenemente: - Queridos amigos, aproximem-se! Ns podemos 
mostrar o caminho, mas s vocs podem abrir as portas da sua mente e caminhar para a 
liberdade. Ns podemos dar a caneta e o papel, mas s vocs podem escrever a sua 
histria. Vocs no so doentes! Vocs esto doentes! Aqui no  seu lar! Seu lar  o 
mundo livre! Sonhem em ser felizes! Os pacientes nunca tinham visto uma apresentao 
como essa. Vrios no entenderam o que Marco Polo lhes disse, mas aplaudiram com 
entusiasmo. Os que compreenderam sua mensagem, lacrimejaram os olhos. Entre eles, o 
Dr. Vidigal, um mdico clnico-geral vtima de um crnico transtorno bipolar. O Dr. 
Romero, um psiquiatra, vtima h mais de 15 anos de uma psicose esquizofrnica, 
tremulou seus lbios. E, aproximando-se, beijou as mos do jovem psiquiatra. Centenas 
de pessoas se aglomeraram em torno do coreto. Inmeros seguranas e enfermeiros 
comearam supervisionar o local. No primeiro momento, achavam que se tratava de 
mais um psictico delirando, mas depois as enfermeiras perceberam que era o futuro 
psiquiatra novamente colocando em polvorosa o ambiente. O Sr. Bonny, um velhinho 
de oitenta anos, que havia sido internado vinte vezes no Hospital

Atlntico e conhecia bem alguns psiquiatras, gritou, sorridente: - Eu voto nesse homem! 
Fora o Dr. Mrio! Jaime, que se tornara um beijoqueiro de rvores, ficou animadssimo 
com o discurso. Acatou a sugesto do Sr. Bonny e comeou a clamar: - Marco Polo! 
Marco Polo! Todos os pacientes fizeram coro. A platia borbulhava de entusiasmo. Era 
a primeira vez em cem anos da instituio em que os pacientes experimentavam uma 
euforia coletiva. Todos unanimemente o aplaudiam e gritavam. - J ganhou! J ganhou! 
J ganhou! Essa era a eleio a que Marco Polo jamais queria concorrer. A enfermeira-
chefe, Dora, rangia os dentes de raiva ao presenciar o transtorno que ele causara. Ele a 
viu confabulando com outros psiquiatras e com seguranas para tentar cont-lo, mas no 
se intimidou. Olhou prolongadamente para a platia ferida, observou os trejeitos dos 
pacientes e exclamou novamente: - Eu no mereo esses aplausos. Vocs  que os 
merecem. Quem so mais importantes: ns psiquiatras ou vocs pacientes? Gritaram 
sem titubear: - Os psiquiatras! - No! Os psiquiatras existem porque vocs existem. 
Vocs so mais importantes do que ns. E acrescentou: - Olhem para as enfermeiras. 
Vocs so inferiores a elas? Alguns pacientes mais prximos beijavam as mos delas 
como divas, deusas da sobrevivncia. A ateno que elas lhes dispensavam era 
fundamental para que tivessem o mnimo de conforto, mas muitas no tinham qualquer 
pacincia com eles. Um paciente simples foi beijar as mos de Dora, mas assumindo a 
postura de chefe, ela no se deixou beijar. Quinze anos antes, Dora era uma profissional 
afetuosa, solidria, mas os anos de trabalho no Hospital Atlntico tornaram sua 
afetividade rida como o Saara. O ambiente adoecia. Dr. Vidigal, com a voz trmula 
pelos efeitos dos remdios e esquecendo-se de que um dia j fora um respeitado mdico, 
exclamou para Marco Polo: - Doutor... Ns no... no... sooomos nada. Nada mesmo. 
Esquecendo-se de que j fora um psiquiatra, o Dr. Romero disse, com lgrimas nos 
olhos: - Somos lixo, doutor! No temos nenhum valor para a sociedade. Marco Polo os 
conhecia e ficou profundamente sensibilizado. Criticara intensamente o preconceito, 
mas agora percebia que seus efeitos eram mais graves do que imaginava - era um cncer 
emocional. "Se os dois mdicos, por serem pacientes do hospital, se acham um lixo, 
imagine como est a auto-estima dos demais pacientes que no tm a cultura deles", 
pensou. Marco Polo, com olhos midos e voz embargada, chamou alguns pacientes que 
conhecia pelo nome e comeou a encoraj-los. - Dr. Romero, o senhor  uma pessoa de 
grande valor; o mundo pode desprez-lo, mas jamais se diminua. Sara, olhe para o 
tesouro que se esconde dentro de voc! Ali Ramadan, meu amigo, voc  inteligente e 
capaz de vencer seus fantasmas interiores. Sua esposa o aguarda! Jaime, voc  um 
poeta da natureza. Lute pelos seus sonhos, seus filhos precisam de voc. Em seguida, 
respirou profundamente e bradou em voz bem alta para toda a platia: - Vocs so mais 
fortes do que muitos generais. Vocs tm enfrentado suas crises, suportado a dor da 
discriminao, a rejeio dos amigos, o afastamento dos familiares, mas conseguiram

sobreviver. Grandes homens na histria no estariam de p se sofressem tais perdas, 
mas vocs ainda esto de p. No desistiram da vida. Vocs so heris! Pelo menos, 
meus heris! Essas palavras comoveram Felipe. Num impulso, ele subiu no coreto e 
bradou: - Vocs tambm so meus heris! Marco Polo, animado com a atitude do 
amigo, percorreu a face dos pacientes com os olhos. Apontou para eles com as mos e 
proclamou vrias vezes junto com Felipe: - Vocs so heris! Vocs so heris! Os 
pacientes, sem nenhum valor social, estavam atnitos com esse clamor. Jamais se 
sentiram to importantes. Enquanto os dois amigos proclamavam essas palavras, algo 
potico e belssimo aconteceu. A multido de pacientes comeou a chorar 
coletivamente. Foi a primeira vez que houve um choro coletivo de exultao num 
ambiente deprimente. Os annimos ganharam visibilidade. Os fracos se sentiram 
grandes, os abatidos ganharam fora, os rejeitados se sentiram amados. Os dois 
irreverentes mdicos escavaram as runas psquicas dos pacientes e desvendaram 
relquias preciosas nelas escondidas. Exerceram a bela arte da antropologia psicolgica. 
A cena que evocava uma indescritvel emoo, mexeu no inconsciente coletivo dos 
internos. Eles comearam a se abraar como soldados que, numa guerra, amparam os 
amigos mutilados. Sentiram-se compreendidos e amados. Sentiram que eram seres 
humanos. De repente, alguns pacientes comearam a recolher suas coisas para ir 
embora. As enfermeiras, seguranas e outros psiquiatras ficaram temerosos. 
Perguntaram rispidamente: - Aonde vocs vo? Uns diziam: - Voltar para casa. 
Precisamos beijar nossos filhos. Outros comentavam: - Precisamos abraar nossas 
esposas. E ainda outros afirmavam: - Aqui no  nosso lugar. Queremos ser livres. Dora 
tentou impedi-los com a ajuda dos seguranas. - Vocs esto ficando loucos! O Dr. 
Vidigal respondeu: - Agora, um pouco menos. Sou um heri em ficar aqui.  medida 
que tentavam sair, eram barrados pelos seguranas do hospital. Alguns pacientes foram 
empurrados e caram. Devido aos efeitos dos potentes tranqilizantes, eles estavam 
fracos. Sensvel, Sara entrou em pnico e comeou a chorar inconsolavelmente. O 
ambiente ficou tenso. Marco Polo entrou no meio da confuso e falou incisivamente 
para os seguranas e enfermeiras. - No toquem nesses pacientes! No h maior loucura 
do que exercer a agressividade para convencer as pessoas. Falem com respeito, que eles 
os atendero. Em seguida, Marco Polo, temendo pela integridade dos pacientes, 
suplicou-lhes: - Queridos amigos, no vo embora ainda. Com esse ardente desejo pela 
liberdade, vocs aceleraro o tratamento e logo recebero alta. Sero livres. Os 
pacientes o ouviram e recuaram. Na seqncia, outros seguranas, a pedido do Dr. 
Mrio, seguraram Marco Polo pelo brao e o levaram at a sala. Com ele, estavam 
reunidos o diretorclnico, a enfermeira-chefe, Dora, o chefe de segurana e alguns 
psiquiatras mais idosos da instituio. O Dr. Alexandre no estava presente. Os dias de 
Marco Polo no Hospital Atlntico pareciam estar contados. O Dr. Mrio bufava de 
raiva. Pelo relato distorcido de Dora e de alguns psiquiatras, Marco

Polo colocara em risco tanto a vida dos pacientes como a prpria instituio. Nunca 
algum ameaara tanto o renomado hospital. O Dr. Mrio temia um escndalo na 
imprensa, o que poderia representar o fim de sua carreira. Antes de comear a julgar 
Marco Polo, o Dr. Mrio enviou uma equipe de enfermeiros com injees e camisas-de-
fora para debelar a euforia e os possveis excessos de alguns pacientes. O Dr. Romero, 
Ali Ramadan e alguns outros pacientes foram contidos quimicamente. Jaime resistiu. 
Gritando, recusou uma dose adicional de tranqilizante, mas no adiantou, recebeu  
fora. Silenciaram, assim, a suposta rebelio. Felipe estava presente na reunio. Marco 
Polo se adiantou. - Felipe no tem culpa de nada. Os acontecimentos so de minha 
inteira responsabilidade. - O senhor assume toda a responsabilidade por seus atos 
inconseqentes? - perguntou com ira o diretor. - Assumo a responsabilidade, mas no 
assumo que foram inconseqentes - rebateu Marco Polo, que podia perder a guerra, mas 
no o nimo para o combate. - Eu investiguei sua vida, doutor. Fiquei sabendo de sua 
fama nos tempos da faculdade de medicina. Aluno rebelde, irreverente, tumultuador da 
classe, questionador do mundo. Sua ficha  uma bomba! Os presentes ficaram 
apreensivos com essas palavras. Consideraram Marco Polo uma ameaa. O diretor 
continuou: - Voc escolheu o lugar errado para botar suas asas de fora seu... seu rebelde. 
- Eu posso ter errado na ao, mas acertei na inteno. Eu queria... Antes de completar a 
frase, o diretor o interrompeu. - Pare de ser cnico. Voc quebrou a rotina do servio, a 
tranqilidade dos pacientes e colocou o hospital em perigo. Marco Polo sabia que seria 
expulso da instituio. Neste momento lembrou-se de uma marcante frase de Falco: 
"Vocs podem aprisionar meu corpo, mas no minhas idias." Diante disso, ficou 
convicto de que poderiam exclu-lo, mas no seria infiel  sua conscincia. Fitou os 
olhos do Dr. Mrio e depois olhou para os presentes e falou com segurana: - Eu quis 
mostrar aos pacientes que eles so seres humanos, que devem lutar pela sua liberdade. 
Eu lhes disse que "esto doentes" e no que "so doentes". Vocs podem me expulsar, 
mas jamais me calarei sobre o que penso. A intrepidez de Marco Polo abalou o grupo. 
Acuado e portando um sentimento de raiva e fascnio diante da sua intrepidez, o Dr. 
Mrio resolveu dar o ltimo clice de misericrdia para o jovem aventureiro: - Voc 
est aqui para aprender e no para ensinar. Coloque-se no seu lugar. Sua atitude  digna 
de expulso. Vamos dar-lhe uma nica oportunidade. No se esquea, no ter uma 
segunda chance - e assim encerrou drasticamente a reunio.

C a p  t u l o 17

Desde que Marco Polo comeou a tumultuar o ambiente do Atlntico, o hospital ficou 
mais alegre. As pessoas se comunicavam mais, alguns enfermeiros tornaram-se mais 
afetivos e alguns psiquiatras mais bem-humorados. Aps a reunio para sua expulso, 
Marco Polo ficou mais contido, mas no menos arrojado. Continuava a fazer pequenas 
transformaes, desta vez com o aval da diretoria. Pintou os quartos dos pacientes com 
tintas coloridas e sujou as mos com elas. Fez algumas competies entre os pacientes e 
organizou um teatro com eles. Ensaiava montar um grupo de apoio, onde os pacientes 
menos graves ajudariam os mais graves. Queria que eles se sentissem teis. O Dr. Mrio 
sentia-se impelido a aprovar algumas sugestes de Marco Polo, desde que o mantivesse 
sob seu controle. Tinha medo de sua liberdade criativa. Para evitar maiores transtornos, 
garantiu que estivesse sob constante vigilncia. Os seguranas no tiravam os olhos 
dele. Alguns tinham a coragem de bater na porta do seu consultrio para saber se tudo 
transcorria normalmente. Marco Polo mostrava sinais de abatimento. Continuava 
admirando o universo dos pacientes, mas o entristecia pelo clima de policiamento. 
Nesse ambiente, escreveu uma comovente carta ao seu velho amigo. Nela, sua alma 
transpirava e exalava sua viso sobre a vida e o sofrimento humano. Caro amigo Falco, 
Certa vez voc me disse que tanto voc como o Poeta viam a assinatura de Deus nas 
flores, nas nuvens e tambm nas crises dos que possuam transtornos psquicos. Na 
poca, pensei sinceramente que isso era um delrio, que seria impossvel encontrar 
beleza no caos. Pois bem, voc tem razo. Tenho encontrado indescritvel riqueza 
dentro daqueles que sofrem. Eles no so miserveis nem passveis de penria. 
Precisam sim ser compreendidos, apoiados e encorajados. Tenho encontrado um 
patrimnio psquico de inestimvel valor em meio s lgrimas e desespero. Nos 
portadores de psicose tenho descoberto uma criatividade espantosa. Embora os delrios 
e alucinaes os perturbem, eles revelam uma criatividade excepcional, uma 
engenhosidade intelectual sem precedentes. Nem os melhores roteiristas e diretores de 
Hollywood conseguiriam ter tanta imaginao. Pena que a psiquiatria clssica despreze 
o imenso potencial intelectual deles. A inteligncia dos portadores de psicose manaco-
depressiva me assombra. So verdadeiros gnios. Na fase manaca, a excitao, a 
rapidez de raciocnio e o volume de pensamentos que produzem os transportam para as 
nuvens, num estado de graa, longe da realidade. Nessa fase, tm uma auto-estima 
exacerbada. Acham-se imbatveis, revestidos de um poder sobrenatural. Na fase 
depressiva, ao contrrio, eles aterrissam sua euforia, seus pensamentos tornam-se 
pessimistas, levando-os a se atolar em sentimentos de culpa e viver os patamares mais 
baixos da auto-estima. Se aprendessem a pilotar seus pensamentos e a gerenciar o motor 
da sua inteligncia para no abandonarem os parmetros da realidade, brilhariam mais 
do que

qualquer "normal". Infelizmente eles so incompreendidos, tanto por eles mesmos como 
pela sociedade em que esto inseridos. Entre as pessoas deprimidas tenho encontrado 
rara sensibilidade. So to sensveis que no possuem proteo emocional. Quando 
algum as ofende, estraga-lhes o dia, a semana, o ms e, s vezes, a vida. So to 
encantadoras que, sem ter conscincia, vivem o princpio da coresponsabilidade 
inevitvel de maneira exagerada. Por isso, perturbam-se com o futuro e sofrem 
intensamente por problemas que ainda no aconteceram. Preocupam-se tanto com os 
outros que vivem a dor deles! So timas para a sociedade, mas pssimas para si 
mesmas. Falco, eu no tenho dvida de que, se os lderes polticos tivessem uma 
pequena dose da sensibilidade que as pessoas deprimidas possuem, as sociedades 
seriam mais solidrias e menos injustas. Sinto que minha emoo fria e seca quando 
comparada  deles. Entre os que tm sndrome do pnico, tenho encontrado um desejo 
invejvel de viver. Quando um ataque de pnico os atinge, o crebro deles entra em 
estado de alerta tentando proteg-los de uma grave situao de risco, um risco virtual. 
Ficam taquicrdicos, ofegantes e suam muito, procurando fugir da sncope ou da morte, 
uma morte imaginria que s existe no teatro das suas mentes. Se aprendessem a 
resgatar a liderana do eu em suas crises seriam livres do crcere do medo. Quem dera 
os usurios de drogas, os que vivem perigosamente, os terroristas, os que promovem 
guerras tivessem a conscincia da finitude da vida e da grandeza da existncia que os 
portadores da sndrome do pnico possuem. Apesar do sofrimento imposto pelo pnico, 
so apaixonados pela vida. Queria amar a vida como eles amam, viver cada minuto 
como se fosse um momento eterno. Falco, voc tem razo em me dizer que a sociedade 
 estpida. Realmente ela valoriza a esttica e no o contedo. Estou decepcionado at 
com as pessoas aparentemente cultas. No percebem que cada ser humano e em especial 
os que sofrem transtornos psquicos so jias nicas no anfiteatro da existncia. Meu 
desafio como psiquiatra no  apenas medic-los ou fazer sesses de psicoterapia, mas 
mostrar a eles que a flor mais exuberante brota no inverno emocional mais rigoroso. Os 
que atravessaram seus desertos psquicos e os superaram tornaram-se mais belos, 
lcidos e ricos do que eram. No  isso o que aconteceu com voc, meu dileto amigo? 
Atravs do drama da sua psicose voc expandiu a sua nobre inteligncia e se tornou um 
mestre, meu mestre. Agora, meus pacientes me ensinam. Em alguns momentos, aprendo 
mais com eles do que com meus professores. Espero que nunca morra minha capacidade 
de aprender. Procurei especializar-me em psiquiatria para conhecer a fascinante 
personalidade humana e tratar das suas doenas. Entretanto, assim como voc 
questionou o que era a loucura, tenho me questionado muito sobre o que  a sade 
psquica: Quem  saudvel? So saudveis meus colegas psiquiatras incapazes de 
receber seus pacientes com um abrao e um sorriso? So saudveis os pais que ouvem 
os personagens da TV, mas no conhecem os temores e as frustraes dos seus filhos, 
nem tm pacincia com seus erros? So saudveis os professores que se escondem atrs 
de um giz ou de um computador e no conseguem falar de sua prpria histria com seus 
alunos? So saudveis os jovens cuja emoo  incapaz de extrair muito do pouco, cujos 
prazeres so fugazes? E os que batalham para ganhar dinheiro, mas no sabem lutar 
pelo que amam, so eles ricos ou miserveis? Tenho tambm questionado minha prpria 
qualidade de vida. Pensei que eu era saudvel,

pois falo o que penso, luto pelo que amo e procuro proteger minha emoo, mas 
descobri que conheo apenas a sala de visita do meu prprio ser. Falta-me tolerncia, 
afetividade, sabedoria, tranqilidade. O dia que deixar de admitir o que me falta estarei 
mais doente do que meus pacientes. Obrigado por me ensinar que sou apenas um 
caminhante. H muita estrada a percorrer... Do seu amigo e admirador, Marco Polo. Ao 
ler a carta, Falco ficou emocionado. Recordou os momentos difceis da sua histria e 
os belos tempos com Marco Polo. Alegrou-se com a psiquiatria humanista que ele e 
alguns dos seus colegas exerciam. Acreditava que Marco Polo poderia fazer muito pela 
humanidade, mas pouco para o prprio bolso. Passados alguns dias, Marco Polo 
vivenciou uma experincia em que o Hospital Atlntico quase desabou sobre ele: um 
paciente com grave depresso associada a uma psicose, caracterizada por confuso 
mental, perda de identidade, dificuldade de se localizar tempo-espacialmente foi a 
origem deste tumulto. Chamava-se Isaac. Isaac era membro de uma famlia judia 
riqussima e politicamente poderosa na regio. Devido  grave depresso, seus 
sentimentos estavam embotados. Ele recusava-se a ter contato social, a sair do quarto, a 
dialogar, tomar banho e se alimentar. Desenvolvera, assim, uma importante anorexia 
nervosa. Freqentemente ficava prostrado em sua cama. Tinha um comportamento 
estranho e incomum, uma projeo psictica, afirmava algo que no era. Repetia 
continuamente que era um sapo. Abria e fechava sua boca com freqncia, imitando os 
comportamentos do anfbio. Quando algum se aproximava e perguntava-lhe algo, Isaac 
dizia apenas "sou um sapo". Eliminava qualquer possibilidade de interao interpessoal. 
Queria ficar em seu claustro e morrer nele. Este bizarro comportamento se repetia h 
vrias semanas. Pouco a pouco, o paciente emagrecia. Simplesmente recusava-se a 
viver. O tratamento no surtia efeito. Vrios medicamentos em diversas dosagens foram 
tentados. Psiclogos tentaram tambm ajud-lo, mas ele no saa do seu casulo. Alguns 
psiquiatras resolveram, ento, fazer algumas sesses da antiga e questionvel terapia do 
eletrochoque. Tambm no houve resultado. Isaac corria risco srio de morrer. Levaram 
o caso para o Dr. Mrio. Ele ficou preocupado com o drama do paciente e com a 
imagem da instituio diante da ausncia de qualquer melhora. O Dr. Mrio j tratara 
outras vezes de Isaac. Apesar de conhec-lo, ignorava a atual gravidade da sua crise. - 
No  possvel que durante dois meses, com todo o arsenal de medicamentos que temos, 
vocs no conseguiram aliviar a depresso do paciente, retir-lo do surto psictico e 
traz-lo  lucidez! J consegui fazer esse paciente sair de vrias crises. Precisamos de 
profissionais mais eficientes na casa - disse com arrogncia  sua equipe. Alguns 
profissionais de sade mental so capazes de ajudar os outros, mas incapazes de ajudar 
a si mesmos. Era o caso do Dr. Mrio. Reconhecido como um excelente profissional, 
tinha doutorado em psiquiatria, era um eloqente professor universitrio, publicara 
inmeros trabalhos cientficos, mas no sabia lidar com seus prprios conflitos 
emocionais. Em situaes de estresse, no conseguia pensar antes de reagir, nem se 
colocar no lugar dos outros. O mundo tinha de girar em torno das suas verdades. Como 
muitos lderes bem-

intencionados, mas autoritrios sua postura bloqueava a inteligncia dos seus 
subordinados. Aps questionar a eficincia dos psiquiatras, ele pediu que relatassem os 
procedimentos e os medicamentos antipsicticos e antidepressivos utilizados, bem 
como suas respectivas dosagens. Aps o relato, caiu em si e percebeu que Isaac 
apresentava uma crise gravssima e diferente de todas as outras. Todavia, para no 
perder a postura de chefe, convidou alguns psiquiatras e alguns jovens que estavam se 
especializando, entre eles Marco Polo e Felipe, para fazer uma avaliao do paciente em 
seu leito. Queria dar-lhes uma aula. No quarto, Isaac, como sempre, mostrou indiferena 
aos presentes. O diretor se apresentou e comeou a fazer-lhe algumas perguntas. - Qual 
 o seu nome? Isaac permanecia em silncio. O Dr. Mrio insistiu: - Por favor, qual  o 
seu nome? - Sou um sapo. - Qual a sua idade e onde o senhor mora? - Sou um sapo. Fez 
outras perguntas sobre seus parentes, onde ele j trabalhara, mas a resposta era a 
mesma. A conversa no evoluiu. Ficou constrangido diante dos alunos. Deu algumas 
rpidas explicaes sobre esse tipo de psicose, falou da impotncia da psiquiatria em 
alguns casos e encerrou sua visita. Mas, ainda inconformado em no poder dar uma 
brilhante aula, retrucou quando estava para sair do quarto: - Desde quando voc  um 
sapo? O paciente olhou para ele e disse: - Desde quando eu era um girino! Os alunos, 
embora respeitassem o paciente e o diretor, no se agentaram. Colocaram as mos no 
rosto para sufocar o riso. O diretor meneou a cabea descontente e insistiu: - Sr. Isaac, 
voc  um ser humano. Tem cabea, braos, pernas de um homem. Voc no pode ser 
um sapo. O paciente olhou levemente para ele e de novo expressou: - Sapo. Sou um 
sapo. Fechou-se em seu mundo, no havia meios de faz-lo mudar de idia. Todos 
saram do quarto,  exceo de Marco Polo. Observador, percebeu que enquanto as 
pessoas insistiam em dizer o que Isaac no era, ele mantinha sua convico obsessiva. 
Entretanto, quando o Dr. Mrio entrou sem perceber no delrio dele, perguntando desde 
quando era um sapo, ele formulou uma frase diferente: "Desde quando eu era um 
girino!" Resolveu, ento, no questionar o delrio, mas entrar nele. O caso era diferente 
do de Ali Ramadan, inspirava mais cuidado e impunha mais riscos. Isaac no tinha 
nenhum dilogo lgico. Marco Polo no se esquecera de que a imaginao  mais 
importante do que o conhecimento. Usou sua imaginao. Disse: - Olhe que lagoa linda 
que est  nossa frente. Como as estrelas so belas. Veja quantos sapos esto coaxando. 
Paulatinamente Marco Polo deixou de ser um intruso no mundo de Isaac. Assim, ele 
comeou a se abrir, a falar distintamente outras frases. - Cad a lagoa? - perguntou.

- Olhe! Est  sua frente. Voc a est vendo? - Sim! - Onde voc mora nessa lagoa? 
Issac comeou a pensar no espao. - Naquele lado. - De que tamanho voc ? - No est 
me enxergando? - falou com contundncia. Aps esse breve dilogo, novamente Isaac 
se fechou. Dizia apenas que era um sapo. Marco Polo ficou eufrico com suas palavras. 
Em seguida lembrou-se de que no corredor prximo  sala do Dr. Mrio havia um sapo 
de porcelana. Foi at o local e pegou-o. Um segurana avisou rapidamente o diretor. 
Curioso e apreensivo este mandou interceptar o aluno e foi at o local para verificar ele 
mesmo o comportamento do intrigante Marco Polo. Questionado sobre suas atitudes, o 
jovem respondeu-lhe que queria entrar no mundo do paciente, no universo de seus 
delrios e ganhar sua confiana. Aps ganhar a confiana dele, desejaria estimular sua 
capacidade crtica. - No perca tempo. Profissionais bem mais experientes do que voc 
tentaram sem sucesso. E, alm disso, se esse caso no foi resolvido com medicamentos 
antipsicticos, no  com palavras que ser solucionado. - Mas por que ento o senhor 
nos levou ao quarto de Isaac e conversou com ele? - Bom, eu fui dar uma aula para 
vocs - justificou-se, constrangido. - Professor, sei da sua competncia, mas acredito na 
fora da psicologia e no apenas na ao de medicamentos. Vamos dar uma medicao 
convencional e, apesar da minha falta de experincia, permita-me tentar ajud-lo. 
Relutante, o Dr. Mrio resolveu conceder-lhe espao. - V em frente, mas, logo aps a 
consulta, procure-me - disse, incrdulo, tentando manter tudo sob controle. Em seguida, 
Marco Polo entrou no quarto, tirou o sapo de porcelana do jaleco branco e disse: - Isaac, 
isto  um sapo. Voc  igual a este sapo? O paciente levou um choque. A imagem da 
porcelana no era a imagem alucinante que criara no palco do seu imaginrio. Apesar de 
ainda estar confuso, o impacto que levou abriu um pouco mais as portas da sua 
racionalidade. - Pegue o sapo, Isaac. Isaac o pegou, manipulou-o, pensou e, em seguida, 
disse: - No sou um sapo. E desse modo a conversa comeou a evoluir. Posteriormente 
Isaac se fixou em outra idia que intrigou Marco Polo. Como j fazia mais de meia hora 
que estava conversando com ele, resolveu poup-lo. Percebeu seu desgaste. Resolveu 
retornar no outro dia. Marco Polo foi  sala do Dr. Mrio. Vrios psiquiatras estavam 
reunidos. Numa das raras vezes em que estava bem-humorado, o diretor indagou: - Fale, 
pesquisador! O que voc conseguiu com o homem-sapo? - Consegui estabelecer um 
pequeno dilogo com ele. Os psiquiatras estavam cticos. Acharam que era um blefe. - 
Voc conseguiu que ele falasse outros pensamentos? - perguntou um deles. - Como? - 
perguntou outro.

- Entrei em seu delrio e a partir da comecei a lev-lo a duvidar das suas fantasias. 
Agora ele diz que  outra coisa. Desconfiado, o Dr. Mrio rapidamente perguntou: - O 
que ele diz que  agora? Marco Polo fez uma pausa e falou, apreensivo: - Agora ele diz 
que  algo melhor. - Fale, vamos - perguntaram curiosos. - Isaac diz que  o Dr. Mrio. 
Os psiquiatras, embora raramente exagerassem em seus comportamentos na frente do 
diretor, no se seguraram. Deram gargalhadas. Acharam a piada engraadssima. At o 
Dr. Alexandre, que estava presente, no se agentou. Alm disso, algum soltou 
baixinho "um pouco melhor". O Dr. Mrio, humilhado, levantou-se raivoso, convocou 
os psiquiatras para acompanh-lo at o quarto do paciente, mas antes disse: - Prepare 
suas malas para sair desta instituio. Voc cometeu um grave erro que poder manchar 
sua carreira para sempre: falta de tica com seu paciente e com seu diretor. 
Rapidamente dirigiram-se ao local e mais rpido ainda o Dr. Mrio perguntou a Isaac: - 
Quem voc ? Ele levantou a cabea, olhou fixamente para o diretor e disse: - Eu sou 
um sapo. Os psiquiatras gelaram. Gostavam de Marco Polo. Era a primeira vez que um 
estudante de psiquiatria seria expulso do Hospital Atlntico. Marco Polo ficou tenso. 
Teve vontade de abrir a boca e extrair outras palavras de Isaac, mas, se o bombardeasse 
com perguntas tentando retirar palavras que ele no quisesse responder, a sim estaria 
selando sua falta de tica. O Dr. Alexandre, desde a discusso sobre alguns traos da 
personalidade de Einstein e o preconceito, tornara-se amigo de Marco Polo. Tentando 
sair em sua defesa, insistiu ansiosamente: - Qual  o seu nome? Onde voc mora? O Dr. 
Mrio estava com um p no corredor, mas ouviu Isaac dizer: - Sou o Dr. Mrio. Dessa 
vez foi o prprio Dr. Mrio que sentiu uma onda fria percorrendo sua espinha dorsal, 
circulando pela cabea e alojando-se na garganta. Alm de ter ficado profundamente 
envergonhado diante dos colegas, estava sendo intensamente injusto com Marco Polo. 
Ele sabia que Marco Polo, embora fosse irreverente, era arrojado, sensvel e inteligente. 
No se tratava de "mais um" profissional, mas de um construtor de conhecimento, que 
amava o que fazia. Todavia, no suportava sua audcia. Desde que ele entrara na 
instituio, h um ano, o Dr. Mrio perturbara-se com seu comportamento e vinha 
questionando silenciosamente sua prpria prtica e rigidez. Algumas vezes teve noites 
de insnia tentando espantar Marco Polo dos seus pesadelos. Ter de expuls-lo do 
hospital seria doloroso para ele, por isso, apesar de envergonhado, ficou feliz por seu 
aluno e pela pequena evoluo do paciente. Marco Polo humildemente disse ao Dr. 
Mrio: - Por conhec-lo de longa data e o admirar, Isaac identificou-se com o senhor. - 
No tente justificar meu erro. Desculpe-me. E assuma o caso. Com essas palavras, saiu 
rapidamente do ambiente. Foi a primeira vez que o Dr. Mrio

reconheceu um erro publicamente e pediu desculpas. O homem imbatvel comeou a 
enxergar o que sempre fora, apenas um ser humano, e, como tal, sujeito a falhas e erros. 
A partir desse momento, comeou a ser mais flexvel. Sair do seu trono no o deixou 
menos lder nem menos admirvel, ao contrrio. Assumir o tratamento de Isaac, 
portador de uma das doenas mais difceis do Atlntico, era uma tarefa dantesca, mas, 
como Marco Polo detestava o mercado da rotina, aceitou com prazer o desafio. 
Qualquer reao de melhora do paciente era recebida com grande elogio pelo jovem 
psiquiatra. - Quem sou? Onde estou? - Isaac dizia agitado e andando. - Parabns, Isaac, 
voc est melhorando! No tenha medo de pensar! No tenha medo da vida! O paciente 
no compreendia direito o cumprimento, mas compreendia o acolhimento e o afeto. A 
ao dos medicamentos comeou a ser potencializada quando ele passou a colaborar 
com o tratamento. Ao longo das semanas, Isaac foi se alimentando melhor. Aos poucos 
falava frases mais complexas e retornava  sua conscincia. Foi lentamente se 
deparando com sua dura histria, que o fizera romper com a realidade e perder sua 
identidade. Certo dia, ao ter plena conscincia de si mesmo, caiu em prantos. - Eu no 
tive infncia, doutor... - fez uma pausa. - Fale sem medo, Isaac, estou aqui para ouvi-lo. 
- Minha me sempre teve problemas psquicos. Meu pai, embora rico, bebia diariamente 
grandes doses de usque. Era um judeu praticante, mas abandonou a religio. Fez 
novamente uma pausa. - Casei-me apaixonado. Elisa era a mulher mais bela e mais 
amvel. Em seguida, tivemos um filho maravilhoso. Minha famlia era meu osis. 
Quinze anos depois, meu casamento virou um solo estril. Peguei minha esposa na 
cama com o meu melhor amigo, o gerente da minha empresa. Eu era um homem rico, 
mas me sentia um miservel. Isaac soluou. - Minha esposa suplicou-me perdo. 
Hesitante, eu no a abandonei, mas tambm nunca a perdoei. Marco Polo solidarizava-
se com ele atravs do seu silncio. Em seguida perguntou: - E o seu filho? - 
Posteriormente, meu querido filho, Gideo, tornou-se dependente de herona. Ele tinha 
febre, vmitos, dores pelo corpo quando parava um dia de usar a droga. Era horrvel ver 
meu filho de 15 anos nesse desespero. Procurava a herona como um ofegante procura o 
ar. Eu tinha medo que ele morresse. Aflito, tentei ajud-lo de todas as formas, mas ele 
era agressivo, fechado, alienado, parecia impenetrvel. Acusava-me de nunca ter sido 
seu amigo. Agora ele est com 19 anos, mora sozinho, sua dependncia se agravou e  
HIV positivo. H um ano recusa-se a falar comigo. No tenho mais nada. Marco Polo, 
enfim, entendeu as causas da depresso psictica de Isaac. Seu eu, que representa sua 
vontade consciente, preferia imergir num estado de inconscincia a suportar o peso das 
suas perdas e frustraes. - Voc gostava de lagoas? - Pescar era meu passatempo 
preferido. Sempre gostei da calmaria de uma lagoa. Tentando descontra-lo, Marco Polo 
disse:

- Voc  esperto, Isaac. Viver numa lagoa  um dos melhores lugares para fugir da 
realidade. Isaac sorriu. Marco Polo acrescentou: - Mas voc acha esse mecanismo 
saudvel? - No! - Todos passam por sofrimentos na vida, uns mais outros menos. Fugir 
de ns mesmos produz um falso alvio e, alm disso, dilacera nossa sade psquica. 
Isaac olhou para as paredes do hospital, recordou seu processo de adoecimento nesses 
ltimos quatro anos e expressou: - O preo foi muito caro. - No  fcil enfrentar nossas 
runas, mas  a nica maneira de sermos autores de nossa histria e no vtimas dela. - 
Mas o que eu vou fazer da vida? Perdi tudo que eu mais amo. - Todos perdem algo na 
vida. Uns precisam assumir suas perdas, outros precisam recolher os pedaos que 
sobraram. Que atitude voc deve tomar? Nenhum psiquiatra ou psiclogo pode fazer 
essa escolha por voc. Isaac ficava impressionado pela maneira como Marco Polo 
conduzia as sesses de psicoterapia. Ele provocava sua inteligncia e no o tratava 
como um coitado, digno de pena. A cada momento o estimulava a tomar suas prprias 
decises. - Sobraram os pedaos. Preciso recolh-los. - Recolha-os com coragem. No 
importa o quanto algumas pessoas o decepcionaram, voc as ama, no pode apag-las 
da sua vida. Se voc apag-las do seu consciente, no apagar as do seu inconsciente. 
Alm de usar essas tcnicas, Marco Polo recordou como Falco libertara-se das suas 
crises. Pediu que Isaac fizesse um exerccio intelectual diariamente no silncio da sua 
mente. - Tudo em que voc cr o controla. Se o que voc cr o encarcera, ento voc 
ser um prisioneiro; se o que voc cr o liberta, ento voc ser livre. Isaac havia se 
tornado um caso crnico. Ningum esperava mais nada dele, nem ele mesmo. - Como 
me libertar das algemas que me transformaram num doente mental? - Duvide dos seus 
pensamentos perturbadores. Questione seu sentimento de incapacidade, questione por 
que voc est programado para ser infeliz. Grite em seu interior. Critique sua fuga. 
Critique suas fantasias. Determine estrategicamente conquistar as pessoas ao seu redor. 
Retire seu eu da platia. Entre no palco da sua mente e treine ser lder de si mesmo. 
Faa isso diria e silenciosamente. Isaac aprendeu a manipular a arte da dvida, da 
crtica e da determinao e teve uma melhora substancial, apesar de pequenas recadas. 
Todos os profissionais ficaram entusiasmados com ele. Um ms depois, estava to bem 
que diminuram a dose do medicamento. Logo recebeu alta. Continuaria a fazer 
tratamento apenas no consultrio. Antes de sair, Marco Polo deu-lhe algumas 
recomendaes: - Isaac, os fracos condenam, mas os fortes perdoam. Voc acusa sua 
esposa, e seu filho o acusa. Todos erramos. Perdoe-a e, se sentir necessidade, pea 
desculpas ao seu filho, descubra-o. E principalmente perdoe-se, no carregue consigo o 
monstro da culpa. Surpreenda-os e permita surpreender-se por eles. Isaac abraou 
Marco Polo e simplesmente disse: - Obrigado por me fazer acreditar em mim e na vida! 
Obrigado por me fazer acreditar que 

possvel sobreviver quando se perde tudo. Isaac traou conscientemente seus caminhos. 
Fez suas escolhas. Voltou para os braos da sua esposa. Permitiu deixar-se ser amado 
por ela e entregou-se ao amor. Comeou a olhar para seu filho por outros ngulos. 
Descobriu que o maior problema de Gideo talvez no fosse a droga, mas sentir-se 
rfo de um pai vivo. Comeou a encant-lo, cativ-lo, falar menos sobre a droga e mais 
sobre si mesmo. Tornou-se um contador de histrias. Gideo conheceu a historia de 
Moiss, Abrao, do rei Davi, de Salomo. Aps algumas semanas, sentiu que era mais 
importante para seu pai, apesar da sua dependncia. Teve mais foras para lutar contra a 
droga. Mais tarde, Marco Polo tratou dele e o ajudou. Marco Polo rompeu as barreiras e 
as distncias e tornou-se amigo da famlia de Isaac. Do mesmo modo tornou-se amigo 
da famlia de Ali Ramadan quando ele deixou o hospital, um ms aps Isaac. Embora 
no tivesse muito tempo, freqentava suas casas. Gostava muitssimo da culinria judia 
e rabe. Na realidade, tinha um apreo por essas raas fascinantes. Seis meses depois, 
Marco Polo aproximou Ali Ramadan de Isaac. Ali queria viver em outro planeta, pois a 
Terra fora um palco de perdas. Isaac, por sua vez, queria morar numa lagoa, porque a 
Terra tambm fora um palco de perdas, um deserto seco. As perdas e a dor haviam sido 
tantas que os fizeram tecer um belssimo relacionamento. Tornaram-se grandes amigos. 
Passaram a freqentar a casa um do outro. Faziam belos jantares, tinham longas 
conversas sobre o Oriente Mdio. Ambos eram descendentes de Abrao. Tinham mais 
coisas em comuns do que diferenas. Comentavam um com o outro e com o maior 
respeito as belas passagens do Pentateuco de Moiss, dos salmos e das suratas do 
Alcoro. Marco Polo era convidado e os ouvia com grande prazer. Alm de aprender 
com eles, Marco Polo gostava de falar sobre a inteligncia do Mestre da sensibilidade, 
Jesus, que aprendera com o filsofo mendigo. Todos se respeitavam, todos ensinavam, 
todos aprendiam, todos comiam sem parar. Era uma festa o encontro dos trs amigos. 
S faltava o Falco. Mais uma vez assistiu-se a um fenmeno que excitava os olhos do 
corao: uma flor exuberante surgiu no caos do inverno psquico.

C a p  t u l o 18

O Dr. Mrio acompanhou a brilhante atuao de Marco Polo com Isaac e ficou 
deslumbrado. Teceu um carinho especial pelo jovem profissional. Os demais psiquiatras 
comearam tambm a respeit-lo e a serem mais criativos. Cada cabea  um planeta e 
cada planeta tem uma rota peculiar e exige um plano de vo distinto para ser atingido. 
Psiquiatras e psiclogos perderam o medo de tocar, de se relacionar e de brincar 
saudavelmente com seus pacientes. Expandiu-se assim o grau de confiabilidade e de 
empatia entre eles. Tornaram-se mais bem-humorados, sociveis, sensveis. Naquele 
ambiente, a psiquiatria e a psicologia deram um salto qualitativo. Romperam o modelo 
superficial e doentio extrado das relaes empresariais, onde chefes e funcionrios no 
podem aproximar-se, onde a hierarquia tem de ser mantida para o bem da ordem e do 
progresso. Tal modelo servia para disciplinar um exrcito, mas no para formar 
pensadores, pessoas livres e criativas. Apesar do clima do Hospital Atlntico ter 
melhorado, Marco Polo ainda no estava satisfeito. Achava que os pacientes ficavam 
muito tempo mergulhados em suas idias negativistas e pensamentos mrbidos. Faltava 
alguma coisa. Atravs de sua observao clnica, descobriu que as crianas hiperativas, 
com transtorno de dficit de ateno, em quem as mes desenvolveram o prazer pela 
msica clssica na infncia, desaceleraram a agitao, expandiram a concentrao, 
diminuram a ansiedade e tornaram-se mais produtivas. Passado um ms, trouxe um 
aparelho de som e pediu que fosse instalado no ptio central. Comprou CDs de Mozart, 
Chopin, Bach e pediu que os colocassem durante a recreao dos pacientes. Quinze dias 
depois, os pacientes estavam mais serenos, motivados, alegres e menos pensativos. At 
as crises diminuram. Marco Polo e outros psiquiatras desconfiaram que a msica 
gerava uma abstrao sublime que exaltava o universo dos afetos, que rompia o ciclo da 
construo ansiosa e exacerbada dos pensamentos, que liberava endorfinas e 
potencializava o efeito da medicao no metabolismo cerebral. Mas esta era apenas uma 
hiptese que precisava ser comprovada. Do ptio, a msica ambiente comeou a ser 
usada nos quartos e enfermarias do hospital. Cludia, uma paciente que andava 
freqentemente desanimada e com as costas curvadas, animou-se com a msica. Tinha 
sessenta anos, mas aparentava oitenta. O som musical a revigorou. Ningum sabia, 
porm ela havia sido uma exmia danarina e professora de dana na juventude. Era 
uma especialista em valsa. Motivada, Cludia encontrou Marco Polo e contou-lhe seu 
passado. - Eu j brilhei nas pistas de dana, Dr. Marco Polo! O jovem psiquiatra ficou 
encantado com sua histria. - Voc ainda pode brilhar, Cludia. - No sei. Quando um 
vendaval passa por nossas mentes, a arte se dissipa. - Nem tanto. Muitos artistas 
produziram suas obras-primas nos piores momentos de dor e frustrao. O sofrimento 
lapidou a arte.

Cludia saiu reflexiva. Marco Polo guardou seu relato. Certo dia, quando muitos 
pacientes estavam aglomerados no ptio, ele apareceu e tirou o CD de msica clssica. 
Alguns pacientes fizeram um burburinho manifestando sua desaprovao. Em seguida, 
colocou uma belssima valsa. Cludia, ao ouvi-la, ficou excitada. Estava na lateral do 
ptio. Marco Polo dirigiu-se at ela e, na frente de todos, tirou-a para danar. Ela 
quedou extasiada e, ao mesmo tempo, indecisa. Ele pegou suas mos e a levou para o 
centro do ptio. H 25 anos no danava, pelo menos em Pblico. Seus amigos fizeram 
uma grande roda e clamaram: - Dana! Dana! Ela no resistiu. Marco Polo colocou 
erradamente suas mos sobre as costas dela. Delicadamente, ela o corrigiu. Ele no era 
um bom danarino, e Claudia estava com a musculatura rgida. Nos primeiros trinta 
segundos, ela no acertava o passo e ele falhava mais ainda. Em seguida, ela se soltou e 
comeou a corrigir seus movimentos. Os pacientes ficaram encantados. Aplaudiram 
calorosamente. Desconheciam a artista que vivia com eles. Cludia sentiu-se uma 
princesa. Sua mente trouxe doces imagens do glorioso passado. Aos poucos, os 
pacientes comearam a formar pares e comearam tambm a danar. Como no havia 
par para todos, alguns pacientes formaram par com outros do mesmo sexo. Dora entrou 
no ptio com cara amarrada. "Desta vez Marco Polo foi longe demais", pensou. Ao ver 
sua irritao, o jovem pediu que Cludia fizesse par com o Dr. Vidigal, que se isolara 
num canto. O Dr. Vidigal estava prestes a receber alta e nunca havia danado uma valsa, 
mas ficou animado em aprender. Marco Polo foi at Dora e convidou-a para danar. Ela 
recusou-se. De repente, as pessoas comearam a se aquietar e a prestar ateno no clima 
entre os dois. Ele insistiu: - A vida  to efmera, passa to rpida, permita-se relaxar. 
Ela deu-lhe as costas, preparando-se para retirar-se. Contudo, a platia gritou 
novamente: - Dana! Dana! Ela respirou e subitamente voltou-se para Marco Polo. 
Todos se espantaram. Pensaram que ela ia dar-lhe uma bofetada. Com incrvel 
segurana, pegou a mo do rapaz, colocou-a fortemente sobre suas costas e comeou a 
danar com incrvel agilidade. Dora havia feito bal clssico durante toda a 
adolescncia e sabia danar msica de salo com destreza mpar, porm perdera a 
habilidade de danar a valsa da vida. Assombrado, Marco Polo deixou-se conduzir por 
ela. Aps os aplausos, todos novamente comearam a danar. O Dr. Mrio e outros 
psiquiatras ficaram sabendo da confuso no ptio. Ao entrar no ambiente, ficou 
perplexo. "At Cludia, que  to recatada, foi contagiada", pensou. Embora gostasse de 
Marco Polo, o clima era insuportvel para ele. Afinal de contas, sabia que em nenhum 
hospital psiquitrico do mundo havia msica ambiente. Uma roda de valsa era demais 
para sua cabea. Estava para desligar o aparelho quando sentiu uma mo tocando-lhe o 
ombro. Era Dora. Delicadamente o impediu. Os pacientes novamente se aquietaram. - 
Dora, voc sempre foi to dosada, comedida. O que est acontecendo aqui? Vocs 
ficaram malucos? Sorrindo, Dora disse: - Agora, um pouco menos.

Em seguida, Cludia tomou a frente e disse: - Dr. Mrio, por favor, dance comigo! Ele 
resistiu, coou a cabea e achou um absurdo o convite. Entretanto, num lampejo, ficou 
reflexivo e ansioso. Ele j havia atendido Cludia num surto psictico e agora ela queria 
lev-lo para o centro do palco. Ela estava segura e ele, inseguro. Os papis se 
inverteram. "O que est acontecendo, meu Deus!", pensou. As crateras do seu 
inconsciente rapidamente se abriram e perturbaram-no mais ainda. Percebeu que, 
embora fosse o psiquiatra mais respeitado da grandiosa instituio, ele tambm estava 
doente. Tinha medo de ir para o palco, ser observado, falhar, passar por ridculo, ser 
debochado os mesmos sintomas de muitos de seus pacientes. Naqueles poucos segundos 
de intensa reflexo, o Dr. Mrio passou os olhos pela multido de pacientes e descobriu 
que eles possuam algo valiosssimo que ele perdera: a espontaneidade. A 
espontaneidade, uma caracterstica da personalidade fundamental para a sade psquica, 
escasseara nas sociedades modernas. Naquele momento o Dr. Mrio percebeu que ela 
no fazia mais parte do dicionrio de sua vida. A platia, eufrica, clamou mais uma vez 
em coro, porm agora citando seu nome: - Dr. Mrio, dana! Dr. Mrio, dana! Sob a 
mira daquelas pessoas mutiladas pela vida, ele despiu-se da sua inatingvel posio. 
Resolveu tambm entrar na dana. Aparentemente sem jeito, pegou em uma das mos 
de Cludia e colocou a outra mo sobre suas costas. Ela no fez nenhuma correo. 
Logo no incio, o Dr. Mrio tropeou. Porm, para surpresa de todos, transformou seu 
tropeo num passe de dana. A platia gostou. Rapidamente se soltou, fez bonito na 
roda. Sabia danar muito bem o doutor, mas havia se tornado uma mquina de trabalhar. 
Como Cludia, h mais de vinte anos no danava. Tratava de grandes empresrios e de 
celebridades em sua clnica particular, era um especialista em resolver problemas, mas 
desaprendera a arte de viver, no seguia as suas prprias orientaes. Nos primeiros 
anos aps sua formao mdica era solto, leve, feliz. Com o passar do tempo, tornara-se 
circunspecto, fechado, perdera a singeleza. Nem ele se suportava. Marco Polo, 
observando a habilidade e graa do seu diretor, pensou: "Quem dera no escondssemos 
nossas identidades atrs de nossos ttulos! Quem dera a psiquiatria, sem perder sua base 
cientfica, tivesse mais romantismo e generosidade!" O Dr. Mrio e Cludia formaram 
um par maravilhoso. No era um psiquiatra e uma paciente danando, mas dois seres 
humanos que precisavam resgatar o prazer das pequenas coisas. Aps Cludia se cansar, 
ele pegou Dora nos braos e comearam a danar. Dois psiquiatras saram do ambiente 
meneando a cabea com indignao. Comentaram um com o outro: - O Dr. Mrio 
enlouqueceu! Outros psiquiatras, no entanto, inclusive alguns seguranas, aproveitaram 
a oportunidade e se soltaram na pista improvisada. Dora se aproximou de Marco Polo e 
lhe pediu desculpas pela arrogncia como o tratava. Complacente, ele simplesmente 
disse: - Eu a entendo. - Ns trabalhamos num dos ambientes mais tristes do mundo. 
Precisamos ser mais descontrados - acrescentou Dora. - Esse  um grande desafio. O 
maior paradoxo da psiquiatria moderna  que ela usa antidepressivos para tratar o 
humor triste, mas no sabe como produzir a alegria. Mas veja o que

conseguimos. Com to pouco, as pessoas esto muito felizes. - Eu preciso mudar meu 
estilo de vida - ela refletiu. - Todos precisamos. Creio que o ambiente tenso e 
entristecido do Hospital Atlntico  apenas um reflexo da sociedade que estamos 
construindo. Sem que eles percebessem, o Dr. Mrio ouvia atentamente a conversa. 
Interrompendo-a, expressou: - Infelizmente, parece que desaprendemos e no sabemos 
mais como viver. A sociedade l fora no  menos doente do que esse ambiente. 
Aliviado, colocou as mos nos ombros do jovem amigo e expressou: - Muito obrigado, 
Marco Polo! Obrigado por me ensinar que  sempre possvel recomear. Sorrindo, o Dr. 
Mrio fez um comentrio que jamais havia feito: - Precisamos agradecer a nossos 
pacientes por nos ensinarem o caminho das coisas simples. Despediu-se e saiu. 
Enquanto saa, o diretor abraava vrios pacientes que encontrava pelo caminho. Deu 
mais abraos em poucos minutos do que em trinta anos de profisso. Depois desses 
acontecimentos, o Hospital Atlntico mudou para sempre. Havia brilho nos olhos das 
pessoas. As habilidades dos pacientes foram aproveitadas. Cludia abriu uma "escola de 
dana" no hospital. Brilhou como nunca. Sua escola gratuita tornou-se sua obra-prima. 
Quem sabia pintar, encenar, escrever e fazer trabalhos manuais ensinava os que queriam 
aprender. O ndice de melhora e o tempo de internao diminuram significativamente. 
Alguns pacientes sentiram-se to teis que, aps receberem alta, retornavam como 
voluntrios. A arte do prazer irrigou suas vidas. Foi a primeira vez que se teve notcia de 
que os pacientes amaram um hospital psiquitrico.

C a p  t u l o 19

Marco Polo terminou sua especializao em psiquiatria. De vez em quando, visitava 
seus amigos no Hospital Atlntico. Ao mesmo tempo que se destacava como 
profissional, escrevia suas idias sobre o mundo intangvel da mente humana. Sua 
inquietao por novas descobertas e sua incapacidade de aceitar passivamente o que 
contrariava sua conscincia no se abrandaram quando formado, ao contrrio, 
intensificaram-se. Ele concordava com o pensamento de Aristteles: "O homem  um 
animal poltico." Para ele, o ser humano era um ator social. Os psiquiatras e psiclogos 
deveriam sair do microcosmo dos seus consultrios, para atuar socialmente. Deveriam 
contribuir para prevenir os transtornos psquicos e no viver s expensas de um sistema 
que produz pessoas doentes. Marco Polo pouco a pouco se tornou um psiquiatra 
influente na sua cidade e regio. Devido  ousadia das suas idias, com freqncia o 
convidavam para dar conferncias em faculdades. Certa ocasio foi convidado para dar 
uma palestra para duas turmas de alunos do ltimo ano de faculdade de psicologia. A 
platia era composta de mais de cem pessoas. O tema era "Depresso, a doena do 
sculo". Aps sua exposio, Marco Polo comoveu os alunos. Terminou com estas 
palavras a sua preleo: - Futuros psiclogos e psiclogas, a depresso  a experincia 
mais dramtica do sofrimento humano. S sabe a dimenso dessa dor quem j 
atravessou seus vales. As palavras so pobres para descrev-la. Devemos aprender a 
respeitar esses pacientes, ouvi-los abertamente e faz-los deixar de ser espectadores 
passivos de seu caos emocional. Precisamos levar os pacientes a gerenciarem seus 
pensamentos, protegerem suas emoes e reeditarem o filme de suas histrias. Esta  a 
grande tarefa da psicologia. Os que exercem a psicologia devem ser pessoas 
apaixonadas pela vida e, acima de tudo, devem desenvolver habilidades para descobrir 
os tesouros soterrados nos escombros dos que sofrem. O mapa desse tesouro no est 
em nossas teorias, mas nos comportamentos expressos sutilmente pelos prprios 
pacientes. Deixem-se ser ensinados por eles. Jamais se esqueam de que ns no 
tratamos de doentes por no sermos doentes, mas porque sabemos que somos... Marco 
Polo foi ovacionado entusiasticamente pelos alunos. Eles ficaram reflexivos e at 
chocados positivamente com suas idias. Diante do entusiasmo da platia, ele 
comunicou que no ms seguinte haveria um congresso internacional de psiquiatria cujo 
tema principal era justamente a depresso. Se eles quisessem saber mais sobre o 
assunto, poderiam participar. Em seguida, abriu a palestra para o debate. Como o 
assunto era de interesse geral, vrios alunos de direito, engenharia, pedagogia, que 
passavam pelos corredores do anfiteatro e ouviram as eloqentes palavras finais de 
Marco Polo, pediram licena para ouvir o debate. Sentaram-se no corredor. Logo de 
incio, uma aluna tocou com ousadia num assunto srio: - Professor, alguns psiquiatras 
no enviam seus pacientes para os psiclogos. Eles confiam no poder da medicao e 
do pouca importncia  ao psicoteraputica. Alguns acham at mesmo que a 
psicoterapia  uma perda de tempo. Por que a psiquiatria se considera superior  
psicologia? O assunto era polmico, mas real e grave. Embora a psiquiatria e a 
psicologia devessem

caminhar juntas, no poucas vezes andavam separadas, disputando pacientes e 
prejudicando a evoluo deles. Faltava tica e conhecimento nesse delicado terreno. 
Recordando e concordando com as sbias palavras de Falco, Marco Polo disse: - Os 
psiquiatras tm um poder que ditadores e reis jamais tiveram. Atravs dos 
antidepressivos e tranqilizantes, eles penetram no mundo onde nascem os 
pensamentos, onde brotam as emoes. Este poder pode ser muito til, mas, se mal 
usado,  capaz de controlar e no libertar os pacientes. Em tese, os medicamentos 
produzem efeitos mais imediatos, enquanto a psicoterapia, mais duradouros. Entretanto 
nem por isso a psiquiatria  superior  psicologia. As duas cincias so complementares. 
- E por que so separadas? - indagou uma intrpida estudante. Essa pergunta era curta, 
mas suas implicaes eram grandiosas. Ela tocava na evoluo da cincia, na formao 
de dezenas de milhares de profissionais (psiquiatras e psiclogos) e afetava a vida de 
milhes de seres humanos que anualmente adoecem psiquicamente. Como Marco Polo 
no tinha medo de opinar, disse taxativamente o que pensava: - Para mim a psiquiatria e 
a psicologia esto separadas porque a cincia est doente. A psiquiatria e a psicologia se 
desenvolveram separadamente no sculo XX. A psicologia tornou-se uma faculdade 
separada e a psiquiatria, uma especialidade mdica. Elas deveriam unir-se, pois a mente 
humana no est dividida, o ser humano  indivisvel. Em minha opinio, a psiquiatria 
deveria ser uma especialidade da psicologia e no da medicina. Os alunos deliraram. 
Irromperam em aplausos pela elevao do status da psicologia diante da poderosssima 
psiquiatria. Jamais imaginaram que ouviriam esse parecer de um psiquiatra. Marco Polo 
completou: - Os psiquiatras saem bem-formados na compreenso do metabolismo 
cerebral e na ao dos medicamentos, mas malformados na compreenso da 
personalidade. Os psiclogos, ao contrrio, saem bem-formados na compreenso da 
personalidade, mas malformados na compreenso do crebro e na ao dos 
psicotrpicos. Os psiquiatras podem atuar como psicoterapeutas, mas os psicoterapeutas 
no podem atuar como psiquiatras, jamais podem prescrever medicamentos. Esta  uma 
injustia cientfica. - H prejuzos para os pacientes pelo fato de a psiquiatria ser 
separada da psicologia? - bradou curioso um jovem estudante de direito, sentado no 
meio do corredor. Marco Polo ficou feliz por seu interesse. - Em certos casos h, e 
muito. Quando um psiclogo atende um caso grave que necessita de interveno rpida 
de medicao e encaminha para um psiquiatra, pode haver um intervalo de tempo 
perigoso at que o atendimento psiquitrico seja feito. Por exemplo, nesse intervalo, os 
pacientes podem cometer suicdios, ter surtos psicticos ou ataques de pnico. Se os 
psiclogos tivessem mais dois anos de especializao em psiquiatria, poderiam estudar 
melhor o corpo humano, a biologia do crebro, a ao dos medicamentos e, assim, 
seriam capazes de prescrev-los. Mas infelizmente existe uma disputa de mercado nos 
bastidores da cincia. Nem sempre o ser humano est em primeiro lugar. Em seguida, 
uma aluna tocou em outro assunto importante e freqentemente mal entendido. - s 
vezes, os psiclogos, por falta de conhecimento ou por medo de perder seus pacientes, 
tambm no os enviam aos psiquiatras. Quando deveramos envi-los para serem 
medicados? - No h regras rgidas, mas darei alguns princpios. Toda vez que h um 
quadro de confuso mental, risco de suicdio, humor intensamente depressivo, 
ansiedade grave ou insnia, o paciente

deve ser medicado. Por favor, no esqueam que vocs esto mexendo com vidas. Cada 
paciente  mais importante do que todo o ouro do mundo. Usem sempre o bom senso. 
Os alunos ficaram pensativos. H anos estudavam psicologia, mas no tinham esses 
parmetros claros em suas mentes. Alguns psiclogos colocavam em risco a sade dos 
pacientes por no encaminh-los aos psiquiatras. Tinham receio de trabalhar juntos. - 
Por que a insnia deve ser medicada, professor? - Porque o sono  o motor da vida. Ele 
repara toda a energia que gastamos. A sua falta desencadeia ou intensifica muitas 
doenas psquicas e psicossomticas. Voc pode tentar remover ou trabalhar as causas 
de uma insnia, mas no tente por muitos dias. Encaminhe seu paciente para um 
psiquiatra ou at a um neurologista, se o caso for simples. E no se esquea de que voc 
pode brigar com o mundo e sobreviver, mas, se brigar com sua cama, vai perder. Ah! E 
no leve seus inimigos Para a cama. Perdoe-os, fica mais barato. O grupo sorriu. - Qual 
a freqncia de pacientes deprimidos na populao? - Existem diferentes estatsticas. No 
passado dizia-se que era 10% da populao. Atualmente estamos nos aproximando de 
20% das pessoas. O que indica que mais de um bilho de seres humanos, mais cedo ou 
mais tarde, tero um episdio depressivo. E, infelizmente, por preconceito ou falta de 
poltica de sade pblica, a maioria das pessoas no se tratar, trazendo srias 
conseqncias psquicas, sociais e profissionais. A platia agitou-se. A situao era 
gravssima. Pela projeo, de dez a vinte alunos do anfiteatro desenvolveriam 
depresso. Na realidade, alguns j estavam deprimidos. Como nessa faculdade 70% dos 
alunos eram mulheres, uma aluna na lateral da classe indagou: - Quem tem mais 
transtornos emocionais, as mulheres ou os homens? - As mulheres tm uma incidncia 
maior. Houve um tumulto na classe. Os alunos zombaram das suas colegas. Marco Polo 
fitou-os e disse: - As mulheres no adoecem mais facilmente no territrio da emoo 
por serem mais frgeis do que os homens, como sempre acreditou o machismo que 
reinou por milnios. Excetuando as causas metablicas, elas adoecem mais porque 
amam, se doam, se entregam e se preocupam mais com os outros do que os homens. 
Alm disso, freqentemente so mais ticas, sensveis e solidrias do que eles. Elas 
esto na vanguarda da batalha da vida, por isso acham-se mais desprotegidas. Os 
soldados no front da batalha tm mais chances de ser alvejados. Marco Polo suspirou e 
pediu: - Por favor, aplaudam as mulheres desta platia. Sem elas nossas manhs no 
teriam orvalho, nossos cus no teriam andorinhas! Os futuros psiclogos ficaram 
rubros, as futuras psiclogas foram s nuvens. Marco Polo, em seguida, deu uma 
pequena, mas preciosa orientao teraputica para elas. Disse-lhes: - Queridas mulheres, 
vocs podem viver com milhares de animais e no se frustrarem, mas, se viverem com 
um ser humano, por melhor que seja a relao, haver decepes. Doem-se, mas no 
esperem muito retorno dos outros. Esta  uma das mais excelentes ferramentas para 
proteger suas emoes. A partir da, por usarem essa ferramenta, algumas mulheres 
evitaram transtornos psquicos. Passaram tambm a aplicar esse princpio com seus 
futuros pacientes. Uma aluna da rea das cincias exatas, que estava recostada em p na 
lateral direita da classe,

no se agentou: - Professor, eu estou aqui de curiosa. Sou estudante de engenharia, 
mas estou to impressionada com o nvel das idias que penso que os alunos de todas as 
faculdades deveriam ouvir essas palavras. Ns aprendemos a lidar com nmeros e 
dados, mas samos completamente despreparadas para a vida. Por que existe esse vazio 
nas universidades. Marco Polo agradeceu e disse: - O sistema acadmico no precisa de 
conserto, mas de uma revoluo. Ele gera gigantes na lgica, mas meninos na emoo. 
Os alunos no aprendem a libertar a criatividade, a ser empreendedores, a lidar com 
riscos e desafios. As faculdades ensinam a amar o pdio, mas no ensinam a usar as 
derrotas. - E, recordando as histrias dos debilitados do Hospital Atlntico, adicionou: - 
Por mais que sejam cuidadosos, vocs podero sofrer algumas derrotas, s vezes difceis 
de suportar. Mas lembrem-se desta frase: ningum  digno do palco se no usar suas 
derrotas para conquist-lo. Os alunos o aplaudiram com entusiasmo. Em seguida, outra 
aluna indagou, um pouco trmula: - Qual a freqncia das pessoas estressadas na 
sociedade? Como muitos, ela era uma pessoa tmida. Toda vez que falava em pblico, 
suava frio, tinha taquicardia, enfim, sofria um desgaste enorme. Alis, a maioria das 
pessoas na platia tinha algum nvel de timidez. Elas no estavam acostumadas a 
debater, mas Marco Polo criara um clima to instigante que no conseguiram ficar 
caladas. Como crtico do sistema social, Marco Polo passou os olhos pela platia e falou 
convictamente: - O sistema nos transformou em mquinas de consumir, uma conta 
bancria a ser explorada. Temos sido escravos, vivendo em sociedades democrticas. 
Vocs so livres para pensar e sentir o que desejam? Quantas vezes vocs se 
atormentam por coisas que ainda no aconteceram, ou por pseudonecessidades? Os 
alunos sentiram um n na garganta. Em seguida, Marco Polo abrandou seu tom de voz. 
- Embora exista um estresse saudvel que nos estimula a sonhar, a planejar, a enfrentar 
desafios, as sociedades modernas se tornaram fbricas de estresse doentio, que bloqueia 
a inteligncia, obstrui o prazer, gera ansiedade, dores musculares, dores de cabea, 
fadiga excessiva. De acordo com algumas estatsticas, mais de dois teros das pessoas 
esto estressadas nas sociedades atuais. Um estudante brincalho apontou um amigo 
agitado da classe e disse: - Professor, aqui est um "estressado"! Marco Polo tambm 
brincou com a platia. - Atualmente, o normal  ser estressado e o anormal  ser 
saudvel. Se vocs estiverem estressados, so normais. A turma, aliviada, sorriu. Uma 
outra aluna perguntou: - Mas quem pode ficar livre do estresse nesse mundo maluco e 
agitado? Marco Polo fez um passeio em seu passado. - Quem abraa as rvores, 
conversa com as flores e v o mundo com olhos de falco. Os alunos assobiaram. 
Deram gargalhadas, pensando que ele contara uma piada. Havia uma jovem chamada 
Anna, sentada na primeira fileira no canto esquerdo da classe. Era a nica que no 
demonstrava reaes enquanto Marco Polo respondia as perguntas. Ele havia notado seu 
ar de tristeza. Somente quando ele falou sobre abraar rvores e conversar com as flores

ela abriu um sorriso. Marco Polo acrescentou: - Isso no  loucura. No estou 
brincando. Abracem rvores, contemplem a anatomia das nuvens, abracem o porteiro do 
prdio, cumprimentem o segurana da escola, no escondam seus sentimentos de quem 
amam, falem dos seus sonhos. Deixem-me filosofar: a existncia  um belssimo livro. 
Ningum pode fazer uma excelente leitura desse livro se no aprender a ler as pequenas 
palavras... Dizendo isso, Marco Polo encerrou o debate. Os alunos estavam 
impressionados com o que ouviram. Ele falara com poesia numa palestra sobre 
depresso. Jamais tinham visto a psique humana sob essa perspectiva. Vislumbraram a 
psicologia namorando a filosofia. Marco Polo saiu debaixo de aplausos. No corredor, 
tentou aproximar-se de Anna e cumprimentla. Tmida, ela estendeu friamente a mo e 
pediu licena. Em seguida, saiu conversando com uma amiga. Ele achou estranha a sua 
atitude, mas, como os alunos o envolveram, no conseguiu abord-la. Quando a roda se 
desfez, foi ao ptio procur-la. Viu-a novamente. Aproximou-se e perguntou: - 
Desculpe-me, mas qual  o seu nome? - Anna. Mas, por favor, d-me licena que tenho 
compromisso. Marco Polo ficou inconformado. Somente Anna no o aplaudira. No era 
a falta de aplausos que o incomodava, mas a emoo contrada da moa. Da a alguns 
meses ela seria uma psicloga. "Que condies teria para exercer sua profisso?", 
pensou ele. Por isso insistiu: - Posso conversar outra hora com voc? - No! - No 
existe um "no" sem uma explicao. Voc tem namorado? - No! Desculpe-me, mas 
no quero falar. - Ento minha palestra foi pssima para voc - argumentou. - O 
problema no  voc, o problema sou eu - disse Anna com dificuldade, devido  sua 
insegurana. - Voc tem medo de conversar comigo? Ela o fitou e, sem titubear, disse-
lhe: - Voc  que ter medo de conversar comigo! - E saiu sem se despedir. Marco Polo 
perturbou-se com as reaes dela. Mais uma vez confirmava que cada ser humano  
uma caixa de segredos. Atendera tantas Pessoas, conhecia tantos tipos de personalidade, 
mas Anna o intrigara.

Captulo 20  O incansvel apetite para explorar os solos da alma humana levou Marco 
Polo a ansiar conhecer os mistrios que envolviam as reaes de Anna. Entretanto, algo 
sutil e inesperado o fisgou. Anna era uma jovem alta, morena, cabelos longos e 
encaracolados. Ela o atraiu. Fez outra tentativa de ir  faculdade para encontr-la. 
Avistando-o, os alunos novamente o envolveram. Ele agradecia, mas seus olhos 
procuravam outra personagem. Anna, ao v-lo de longe, se dissipou na multido de 
estudantes. A atitude dela o incomodava. Ao mesmo tempo que procurava um 
distanciamento para interpretar suas reaes, os comportamentos da jovem tocavam seu 
orgulho. No era apenas o psiquiatra que fora alvejado, mas tambm o homem Marco 
Polo. Um sentimento ambguo o envolveu. Queria saber ao menos as causas da sua 
resistncia. Preferia que ela o criticasse, o considerasse um tolo, mas no o rejeitasse. 
Ele havia aprendido a se proteger das frustraes, mas como a emoo no segue a 
regras da matemtica, nesse momento, sentiu-se frgil. Na semana seguinte fez uma 
ltima tentativa de encontrar-se com Anna, mas ela no estava presente. Ao indagar a 
uma de suas amigas, ela apenas disse: - Anna  uma pessoa espetacular, mas seus 
comportamentos de vez em quando so estranhos. Ela se isola de todos. Fica dias sem 
assistir s aulas. Parece que tem medo de enfrentar alguma coisa. Marco Polo ficou 
pensando se sua insistncia teria provocado ou agravado seu isolamento. Achou que 
ultrapassara os limites. Criticou sua atitude tola de querer respostas para tudo. Foi 
atingido por um sentimento de culpa. "Deveria ter lhe dado o direito de no conversar 
comigo, ainda que sem explicaes. Afinal de contas ningum  obrigado a gostar de 
mim", refletiu. Na realidade, Anna tinha um passado mutilado, no revelado nem para 
suas amigas. Dissimulava suas reaes. Sorria por fora, chorava por dentro. Era 
portadora de uma depresso crnica que se arrastava desde a infncia. As amigas 
tentavam conhec-la, mas Anna era uma pedra de granito, difcil de se penetrar. Embora 
fosse fechada, era afetiva, sensvel, fiel aos amigos. Amava ler. Goethe era seu escritor 
preferido e Fausto, a sua obra predileta. Apesar de seus perodos de ausncia, era 
considerada uma aluna exemplar, pelo menos nas provas. Tirava as melhores notas da 
turma. Procurava esconder nas notas altas a sua baixa autoestima. Como muitos alunos, 
escolhera conscientemente o curso de psicologia para ser uma psicoterapeuta, mas 
inconscientemente para compreender-se e superar seus prprios conflitos. Entretanto, 
frustrara-se, pois sua doena emocional resistia, perpetuara-se durante os anos de 
faculdade. Percebeu que seria mais fcil ajudar os outros do que a si mesma. Anna era 
prisioneira no nico lugar em que deveria ser livre: dentro de si mesma. Belssima por 
fora, triste por dentro, no suportava crticas, ofensas, desafios. Era tolerante com os 
outros, mas autopunitiva. Cobrava-se demais. Seu perfeccionismo roubava-lhe o 
encanto pela vida e imprimia-lhe uma grave ansiedade. Seus antigos namorados no 
conseguiram entender suas crises e seus isolamentos. Ela no se

entregava na relao por medo de perder quem amava. Quando o relacionamento exigia 
cumplicidade, ela recuava e rompia a relao. Tratou-se com vrios psiquiatras e 
psiclogos desde a infncia. Os resultados no foram consistentes. Alternava perodos 
de melhora com crises. Sua emoo era um navio sem ncora, incapaz de navegar com 
segurana no belo e tumultuado oceano das emoes. Alguns psiquiatras de renome 
fizeram um diagnstico sombrio e inadequado de sua doena psquica. Disseram que ela 
teria de conviver com sua depresso para o resto da vida, pois tinha deficincia de 
serotonina no crebro. Para uma futura psicloga que sonhara em ajudar as pessoas a 
serem saudveis era difcil aceitar a depresso como hspede ad aeternum da sua 
personalidade. O sonho da liberdade que inspirou seres humanos a escrever poesias, 
escalar montanhas, romper grades de ferro quase no existia em Anna, pois se dilura no 
calor das suas crises. Marco Polo amava o desafio. Anna amava a rotina. Ele resolveu 
respeitar o espao dela. No a procurou mais. No ms seguinte, ele foi ao famoso 
Congresso Internacional de Psiquiatria. Milhares de psiquiatras do mundo todo 
participavam do magno evento. Lampejos de esperana seriam anunciados para o 
tratamento das doenas psquicas, em especial a depresso. Marco Polo discorrera na 
faculdade de psicologia sobre os tesouros ocultos nos destroos dos que sofrem. Sua 
forma sensvel de falar sobre a psique levou dezenas de futuros psiclogos a participar 
do evento. Estavam entusiasmados. No sabiam que suas expectativas se tornariam um 
pesadelo. Anna ousou tambm participar. Evitava Marco Polo, mas suas idias a 
atraram. Os alunos esperavam enriquecer sua formao. Afinal de contas, logo 
conquistariam um diploma e teriam de tratar das mais complexas doenas, as que 
atingem o mundo invisvel da psique. Pensavam: "Logo, a vida de um ser humano 
estar em nossas mos." Alguns sentiam calafrios diante dessa gigantesca 
responsabilidade. A maioria das conferncias desse congresso era sobre farmacologia 
(estudo dos medicamentos), lanamento de antidepressivos de ltima gerao e causas 
metablicas das doenas psquicas. O poder dos remdios seria exaltado. O poder da 
interao social, o de tcnicas para proteger a emoo e o da expanso da sabedoria para 
sobreviver nas estressantes sociedades modernas seriam pouco valorizados. Marco Polo 
alegrou-se ao encontrar os estudantes no imenso saguo do hotel onde o congresso se 
realizava. Abraou-os. Viu Anna, ficou feliz, mas cumprimentou-a discretamente. 
Passada a descontrao, ele ficou apreensivo. Olhou ao redor e observou, constrangido, 
os laboratrios farmacuticos instalados em luxuosos boxes seduzindo os presentes. Ele 
havia estimulado os alunos a virem ao templo da psiquiatria, mas comeou a ficar 
preocupado com os fatos imprevisveis que poderiam ocorrer. As indstrias 
farmacuticas - principalmente as indstrias que estavam lanando uma nova droga 
medicamentosa -, patrocinavam o evento, os pr-labores de alguns conferencistas e os 
coquetis. Alm disso, pagavam a inscrio, as passagens e a hospedagem de alguns 
destacados psiquiatras para participarem do conclave. At a dcada de 1970, nos EUA, 
a maior parte das pesquisas clnicas para produzir novas drogas era financiada com 
verba pblica. Com o declnio da economia norte-americana na dcada de 1980, os 
recursos escassearam e os pesquisadores acadmicos comearam a receber

patrocnio das empresas. Na dcada de 1990 a situao se agravou. Cerca de 70% das 
pesquisas eram agora financiadas pelas indstrias farmacuticas, mas a situao ainda 
era positiva, pois grande parte delas realizava-se no santurio das universidades, onde a 
averiguao de dados era mais detalhada, mais comprometida com a sade do ser 
humano e menos com os lucros. Marco Polo tinha conscincia dessas mudanas na 
produo cientfica, coisa rara entre psiquiatras e cientistas. Analisando dados, percebeu 
que essas mudanas se intensificaram no sculo XXI. A maioria das pesquisas, alm de 
ser financiada pelas indstrias farmacuticas, passou a ser realizada dentro das suas 
prprias dependncias e no mais nas universidades. Os objetivos eram cortar gastos, 
reduzir a burocracia e melhorar a rapidez dos resultados. Tal mudana no foi em si 
mesma um processo antitico, at porque essas indstrias contriburam muito para a 
sade mundial. Marco Polo sabia disso. Entretanto, para ele, assim como os tribunais e 
o aparelho Policial so teis para a sociedade, mas s vezes cometem graves erros, as 
indstrias farmacuticas no estavam isentas de comet-los, principalmente porque 
lidavam com quantias inimaginveis de dinheiro. As pesquisas de novas drogas nas 
dependncias das indstrias farmacuticas eram objeto de sua inquietao. Ele se 
preocupava com trs tipos de controle, que, feitos inadequadamente, poderiam 
prejudicar a sade de uma parte significativa da humanidade: do processo de pesquisa, 
dos resultados da pesquisa e manipulao desses resultados e sua divulgao para a 
classe mdica. O terceiro tipo de controle era o que mais o incomodava. No campo da 
psiquiatria, bem como em outras especialidades mdicas, era muito fcil manipular de 
forma inadequada os resultados das pesquisas e propag-los de forma prejudicial. Todo 
remdio tem efeitos colaterais. Omitir tais efeitos era uma forma perniciosa de divulgar 
uma nova droga. Mas a forma que mais preocupava Marco Polo era a maneira com que 
os materiais grficos eram produzidos pelas indstrias farmacuticas e distribudos entre 
os mdicos do globo. Nesses riqussimos materiais, confeccionados com papis 
carssimos, os efeitos positivos das drogas eram super-destacados e os efeitos colaterais 
colocados no rodap, s vezes quase imperceptveis. Como os mdicos trabalham 
excessivamente para sobreviver, vivem estressados e no tm tempo de assimilar o 
universo de informaes transmitido nos congressos e nas revistas cientficas, acabavam 
confiando nas sintticas informaes divulgadas nos materiais didticos produzidos 
pelas indstrias farmacuticas. Baseados nessas informaes, alguns mdicos 
prescreviam medicamentos sem necessidade, sem uma eficcia adequada ou, ento, com 
efeitos colaterais que comprometiam a sade dos pacientes. Na medicina, os dados so 
fundamentais; a manipulao deles, ainda que pequena, dilacera a tica e maximiza os 
riscos. A poderosa indstria dos medicamentos tornou-se um negcio qualquer, onde o 
lucro tinha um destaque primordial. A vida de milhes de pessoas estava em jogo numa 
disputa onde o juiz nem sempre era imparcial. Marco Polo era particularmente 
preocupado com os grandes laboratrios que sintetizavam remdios que atuam no 
delicado e indecifrvel crebro humano, como os tranqilizantes, indutores do sono e 
antidepressivos. Desde seu estreito contato com Falco, comeou a questionar a presso 
e a seduo dessas indstrias para que os mdicos prescrevessem seus

medicamentos. Somava-se a essa presso a permisso de propaganda na mdia de 
medicamentos que exigiam prescrio mdica. Apenas nos EUA e no pequeno e belo 
pas da Nova Zelndia ocorria esta permisso. Comerciais de antidepressivos eram 
divulgados nas TVs por atores profissionais que simulavam ser pacientes depressivos, 
mas que depois de tomar o tal remdio davam um salto emocional e faziam um brinde  
felicidade. As imagens desses comerciais penetravam no inconsciente coletivo da 
populao, gerando a crena nos poderes miraculosos dessas drogas, no levando em 
considerao a necessidade de aprender a navegar nas turbulentas guas da emoo, a 
reavaliar o estilo de vida, a trabalhar conflitos psquicos e a superar decepes. Muitos 
pacientes chegavam diante dos seus psiquiatras ditando os medicamentos que gostariam 
de tomar. O paciente queria controlar o mdico, e o clima ficava pssimo. Com a recusa 
dos mdicos, os pacientes trocavam de profissional e sempre encontravam algum que 
prescrevesse os remdios de sua preferncia. Desse modo, a medicina e em particular a 
psiquiatria, que deveria ser o exerccio pleno de um esprito livre e de um intelecto 
consciente, acabaram sendo pressionadas pelo poder do marketing. A medicina foi 
contagiada pelas leis do mercado. Alm disso, outro problema surgiu no horizonte. O 
acesso pela Internet das informaes sobre doenas e tratamentos levou muitos 
pacientes a serem seus prprios mdicos - mdicos virtuais. A democratizao das 
informaes tambm gerou efeitos colaterais. Alguns internautas realizavam seus 
diagnsticos, faziam suas prescries e se automedicavam. Esqueciam-se das 
particularidades de cada organismo, de cada doena e de cada medicamento, anlises 
que somente os verdadeiros mdicos foram treinados para fazer. O mundo moderno 
estava em conflito, vivia em franco processo de transformao. Mdicos virtuais, 
manipulao de dados dos medicamentos, presses do mercado, tudo isso gerava uma 
inquietao em Marco Polo. Ele deveria se preocupar apenas em ganhar seu dinheiro 
cuidar do seu futuro, desfrutar das suas frias, como qualquer outro profissional. 
Entretanto no conseguia escapar de sua paixo pela humanidade. Alguns dos seus 
amigos no entendiam esse sentimento pelo ser humano, queriam sentir um pouco do 
que Marco Polo experimentava mas tinham dificuldade.  Essa paixo fora iniciada pelas 
histrias que seu pai lhe contava e expandida ao se deparar com os corpos sem histria 
na sala de anatomia. Depois, ela foi forjada na relao com Falco e esculpida quando 
comeou a descobrir o fascinante universo dos "miserveis" da sociedade. Portanto, sua 
paixo pela humanidade no era movida por um messianismo. Desde que desenvolvera 
o princpio da co-responsabilidade inevitvel no conseguia ser individualista, viver 
somente para si. Para ele, nenhum doente mental tinha menos grandeza do que qualquer 
celebridade poltica ou artstica. Uns so artistas por encenar dramas em Hollywood, 
outros o so ao produzir seus prprios dramas no palco de suas mentes. Achava que a 
fama era uma estupidez intelectual e criticava a propagao de gurus pela mdia, pois 
acreditava que todos deveriam construir sua prpria histria. Pensava convictamente 
que cada ser humano merecia toda a dignidade, mesmo os annimos ou as crianas 
especiais. Por ser exmio observador, analisava alguns paradoxos das sociedades 
modernas que o perturbavam. Para ele, nunca a indstria do lazer - a TV, os 
videogames, a Internet, o esporte, a

msica, o cinema - foi to expandida e, no entanto, o ser humano nunca teve um humor 
to triste e ansioso. Nunca as pessoas viveram to adensadas nos escritrios, nos 
elevadores, nas salas de aula, e nunca foram to solitrias e caladas sobre si mesmas. 
Nunca o conhecimento se multiplicou tanto em sua poca, mas nunca se destruiu de tal 
maneira a formao de pensadores. Jamais a tecnologia deu saltos to grandes e, 
contraditoriamente, jamais o Homo sapiens desenvolveu tantos transtornos psquicos e 
teve tanta dificuldade de se tornar autor de sua prpria histria. O drama desses 
paradoxos levou Marco Polo a pensar que, se a cincia no mudasse seu foco e vultosas 
quantias de dinheiro pblico e privado no fossem gastos em pesquisas que evitassem o 
adoecimento do ser humano, a humanidade implodiria. Achava completamente injusto e 
at um crime social esperar as pessoas desenvolverem ansiedade, doenas 
psicossomticas, depresso, para depois trat-las. Considerava que isso feria 
frontalmente seu princpio psicossocial. O que mais sufocava a sua alma era este 
pensamento: "Se as poderosssimas indstrias farmacuticas dependem da existncia de 
doentes para vender seus produtos, qual o interesse que elas tm no desaparecimento 
deles?" No congresso em que Marco Polo e o grupo de formandos em psicologia 
estavam presentes via-se um batalho de funcionrios e profissionais vestidos a carter, 
contratados pelos laboratrios para abordar os psiquiatras e mdicos de outras 
especialidades. Vrios psiquiatras seguiam sua conscincia e no se deixavam seduzir, 
mas era uma tarefa rdua escapar a qualquer envolvimento. Para encant-los, sorteavam 
viagens, davam riqussimos brindes e distribuam riqussimos folders. Os futuros 
psiclogos no estavam acostumados com tanto luxo. Eles no sabiam que por trs 
dessa intensa propaganda de medicamentos estavam em jogo bilhes de dlares. Os 
congressos de psicologia eram bem humildes, sem alardes e pompa. As idias 
sobrepunham a esttica. Havia vrias conferncias simultneas no evento. Sentindo-se 
desconfortvel pelos olhares tensos dos estudantes, Marco Polo recomendou que eles 
assistissem no auditrio principal  palestra de um renomado professor de psiquiatria, 
um conceituado pesquisador em neurocincias, o Dr. Paulo Mello. Ele iria discorrer 
sobre causas e tratamentos da mais insidiosa e angustiante doena psquica. Aps sua 
conferncia haveria uma mesa-redonda, composta de ilustres psiquiatras, e um debate 
aberto aos participantes. Entre os membros da mesa estava o Dr. Mrio Gutenberg, 
diretor-geral do Hospital Atlntico. Anna, ansiosa para saber mais sobre os vales de sua 
dor, aceitou a sugesto de Marco Polo. Ele no sabia, mas fizera uma pssima escolha 
para os futuros psiclogos. Pois na conferncia o complexo funcionamento da mente 
seria tratado como fruto de um computador cerebral O intangvel ser humano seria 
confinado dentro dos limites da lgica. As abordagens causariam nuseas nos jovens 
que alimentaram belos sonhos com a psicologia. Todavia, Marco Polo estava presente e 
sua presena, como em muitos lugares que freqentava, era um convite para estilhaar 
os paradigmas e agitar o ambiente. Um tumulto ocorreu naqueles ares.

Captulo 21

O Dr. Paulo Mello no era apenas um cientista de renome internacional, mas tambm 
um eloqente conferencista. No tinha medo de colocar suas idias. Durante sua 
exposio, comentou sobre as bases biolgicas dos transtornos mentais. Disse que a 
deficincia de neurotransmissores, em especial a serotonina, era a causa fundamental da 
depresso e de outras doenas psquicas. Abordou que os neurotransmissores eram 
como carteiros do crebro que transmitem as mensagens nas sinapses nervosas, ou seja, 
no espao de comunicao entre os neurnios ou clulas cerebrais. A sua deficincia 
gerava falta de comunicao na rede de neurnios, diminuindo as respostas emocionais 
e causando crises depressivas. O papel dos antidepressivos, disse ele, era preservar esses 
carteiros em doses aceitveis no metabolismo cerebral. A platia de psiquiatras estava 
atenta s suas idias, mas os alunos de psicologia no gostaram. Ele no falou nada 
sobre os conflitos na relao pais-filhos, o estresse social, as crises familiares e a m-
formao do eu como causas das doenas psquicas. Sentiram que estavam em um 
mundo diferente do que viveram nesses rduos anos de formao psicolgica. Parecia 
que o ilustre professor falava de uma outra espcie, um outro ser humano que eles no 
estudaram na faculdade. Perceberam o que j desconfiavam: em algumas reas a 
psiquiatria estava to distante da psicologia como o Sol da Terra. Sentiram-se frustrados 
com o convite de Marco Polo. Incomodado, Marco Polo fez um gesto com as duas 
mos, querendo expressar: "Pacincia! Acalmem-se, a conferncia ainda no terminou." 
Melhor que tivesse terminado. Passados alguns momentos, a decepo foi s alturas. O 
Dr. Paulo Mello radicalizou seu discurso, afirmando: - A alma ou psique  qumica, 
fruto do metabolismo cerebral Portanto, toda doena psquica provm de um erro 
qumico e, conseqentemente, precisa de correo qumica para ser resolvida, ou seja 
necessita de medicamentos. Os futuros psiclogos viram o mundo desabar sobre suas 
cabeas. Sentiram-se feridos e humilhados. "Se a psique  qumica e os transtornos 
psquicos so erros qumicos, que espao sobra para a psicologia? Qual  o papel, nessa 
situao, das tcnicas psicoteraputicas?" pensaram. Alguns tiveram vontade de sair. 
No suportavam a afronta. Marco Polo nunca tinha assistido a uma conferncia do Dr. 
Paulo, apenas conhecia sua fama. Sabia que muitos neurocientistas tinham uma viso 
estritamente biolgica e qumica da psique. Tambm sabia que a portentosa indstria 
farmacutica dos psicotrpicos era condescendente com esta viso, utilizava-se dela e 
ajudava a dissemin-la na imprensa leiga mundial: jornais, revistas e TV. Vrios 
jornalistas, desconhecendo os fundamentos da cincia, noticiavam com segurana que o 
dficit de serotonina e outros neurotransmissores eram causadores de doenas psquicas, 
e que este dficit precisava ser corrigido atravs dos medicamentos. No sabiam que 
essas informaes eram apenas suposies e no verdades cientficas irrefutveis. Sem 
perceber, divulgavam a sria e restrita tese de que a psique era qumica e, sem ter 
conscincia, contribuam para os ganhos ele-

vadssimos da indstria farmacutica. Marco Polo sentiu que tinha sido o maior ingnuo 
do mundo ao convidar os estudantes de psicologia para esse evento. Eles poderiam 
sentir-se frgeis para iniciar sua profisso. Seqelas inconscientes poderiam ocorrer. 
Visivelmente preocupado, pediu mais uma vez com gestos que eles no sassem. Para 
arrematar, o renomado conferencista deu o golpe fatal na psicologia. Ele no sabia que 
havia uma platia de formandos nesta rea, pensara que seu pblico fosse constitudo de 
mdicos, em especial de psiquiatras. - Precisamos de medicamentos cada vez mais 
eficientes, como os que apresentei em minha palestra. Os psiclogos sero substitudos 
por drogas de ltima gerao. As neurocincias triunfaro sobre a psicologia. Ningum 
pode contrapor-se a seus avanos. O progresso das neurocincias anuncia um futuro 
saudvel para a humanidade. Os alunos quedaram paralisados, incrdulos diante do que 
ouviram. Eles, bem como a maioria dos presentes, no sabiam que por trs desse 
cenrio estava em pauta muito mais do que a opinio de um cientista num congresso de 
psiquiatria. A palestra do Dr. Paulo era o reflexo do perigoso caminho que a cincia 
moderna estava trilhando. Nos bastidores da cincia estava em jogo uma disputa 
intelectual serissima sobre a natureza do Homo sapiens. Muitos dos atores que 
participavam desse jogo, incluindo cientistas e profissionais, por saberem cada vez mais 
do cada vez menos, ou seja, por serem especialistas em suas reas, no tinham 
conscincia do prprio jogo e muito menos das suas conseqncias para a humanidade. 
Marco Polo h alguns anos pensava e se preocupava muitssimo com essas 
conseqncias. O que estava em questo era se a psique humana seria ou no 
meramente um computador biolgico, um aparelho qumico. Se pensar, produzir idias, 
sentir medo, amar, odiar, sonhar, ousar, recuar eram ou no apenas frutos do 
metabolismo cerebral. Se o ser humano possua ou no um esprito, um mundo 
psicolgico que ultrapassava os limites da lgica e das reaes bioqumicas. Estava em 
jogo o eterno debate sobre quem somos e o que somos. Estava em pauta a ltima 
fronteira da cincia. A julgar pela viso da indstria dos psicotrpicos e pelo 
pensamento de muitos neurocientistas, esse jogo j estava ganho. Se as neurocincias 
realmente vencessem nessa queda-de-brao, como j estava ocorrendo, as 
conseqncias para o futuro da humanidade poderiam ser chocantes. A psicologia 
desapareceria, ou pelo menos perderia sua importncia. Medicamentos seriam usados 
em massa. Psicotrpicos poderiam ser colocados na gua para tratar coletivamente de 
certas doenas psquicas. Vidas seriam controladas. Alm disso, se a mente humana 
fosse meramente um complexo computador biolgico, ela poderia ser alimentada pelos 
computadores eletrnicos. Os professores desapareceriam, seriam substitudos por 
sofisticados programas mais baratos, e no reclamariam. A Internet se tornaria uma 
bab eletrnica, como j estava ocorrendo nos tempos de Marco Polo. Os jogos 
eletrnicos, os programas multimdia e os programas de TV poderiam se tornar a fonte 
mais excelente de prazer e formao da personalidade. No haveria necessidade de 
contemplar o belo, abraar rvores, cultivar flores, nem extrair alegria das coisas 
singelas. Marco Polo sentia calafrios ao pensar nisso. Ele pressentia que a juventude 
estava entristecendo-se mundialmente. Em sua poca, os jovens j haviam perdido a 
capacidade de contestar as loucuras dos adultos, como no perodo da

contracultura. No criticavam mais o veneno do capitalismo selvagem, ao contrrio, 
brigavam para beb-lo em doses cada vez maiores. Exploravam seus pais. Eram vidos 
consumidores, vtimas de uma insatisfao crnica e insacivel. Alm disso, o triunfo 
das neurocincias poderia anunciar tambm o triunfo dos transumanistas, o grupo cada 
vez maior de pessoas que enfatizava a melhoria da espcie humana atravs da 
manipulao gentica e do uso da clonagem. Alguns transumanistas congelavam seus 
corpos aps a morte para serem revividos no futuro, quando as cincias estivessem mais 
avanadas. Eles sonhavam em acelerar o processo de evoluo humana. Neste af 
cientfico, os que no aderissem a esse processo evolutivo ou no se encaixassem no seu 
padro de qualidade poderiam ser excludos. Os riscos seriam gravssimos. As religies 
tambm desapareceriam caso prevalecesse a idia de que a alma humana  apenas uma 
fantstica mquina biolgica, pois o vazio existencial, as inquietaes do esprito, a 
procura pelo Criador e pela transcendncia da morte seriam meros desarranjos 
bioqumicos. Uma vez corrigidos esses desarranjos, os conflitos existenciais se 
dissipariam, pondo um fim na religiosidade humana. As religies tentaram durante 
milnios compreender a natureza intrnseca do ser humano e perceberam que ela  
indecifrvel. Agora chegara a vez da cincia fazer esta fascinante tentativa, porm havia 
um risco no ar. A cincia poderia tornar-se a mais fechada e perigosa das religies se 
vendesse seus postulados e hipteses como verdades inquestionveis. Ao analisar todos 
esses fatores, Marco Polo pressentia que o mundo cientfico estava dentro de um imenso 
Coliseu. Embora houvesse diversas interconexes entre as partes, de um lado se 
encontravam as neurocincias, da qual participava a medicina biolgica, a farmacologia, 
a neurologia, uma parte da psiquiatria clssica e as cincias da computao. Elas 
discursavam sobre neurotransmissores, sistema lmbico, amgdalas, corpo caloso, lobo 
frontal, enfim estruturas anatmicas e metablicas cerebrais como a grandiosa fonte da 
indecifrvel personalidade. De outro lado, estavam as cincias humanistas, que incluam 
outra parte da psiquiatria, a antropologia, a sociologia, o direito, a filosofia e em 
especial uma parte significativa da psicologia. Embora no formulassem um 
pensamento claro sobre a natureza humana, as cincias humanistas enxergavam os 
fenmenos da psique de maneira mais complexa, capaz de ultrapassar os limites das leis 
fsico-qumicas. Para elas, a solidariedade e a tolerncia no poderiam ser conquistadas 
com programas de computador, o esprito humano precisaria ser educado, a sabedoria 
deveria ser lapidada, a sensibilidade necessitaria das experincias existenciais, o papel 
dos mestres seria insubstituvel no desenvolvimento das funes mais importantes da 
inteligncia, como pensar antes de reagir e se colocar no lugar dos outros. Aps 
discursar sobre o domnio das neurocincias, o Dr. Paulo Mello encerrou sua 
conferncia. Foi ovacionado, alguns o aplaudiram de p. Em seguida, sentou-se 
satisfeito com a acolhida. Havia mais de quinhentos participantes na platia. Alm dos 
42 formandos em psicologia, estavam presentes professores de psiquiatria de diversas 
universidades internacionais, psiquiatras particulares, neurologistas, farmacologistas e 
diretores de laboratrios farmacuticos. Os estudantes perceberam tambm a apreenso 
de Marco Polo diante do pensamento radical do conferencista, mas pensavam que ele 
no podia fazer nada, pois era um "peixe pequeno" diante do "tubaro" que se 
movimentava no palco. No o conheciam.

O debate se iniciou. Alguns membros da mesa teceram rpidas consideraes e elogios 
ao conferencista. Em seguida, abriram o debate para a platia participar. Houve um 
silncio glido. De repente, Marco Polo levantou-se, saiu do centro do anfiteatro e 
dirigiu-se apressadamente para o microfone que estava no lado direito do palco, a mais 
ou menos oito metros da mesa. Audcia era sua caracterstica principal. Agradeceu 
rapidamente a oportunidade de falar e sem rodeios, partiu para o confronto com o 
conferencista, olhando-o fixamente. - Estimado Dr. Paulo. O senhor sabe o que  a 
ditadura da hiptese? Ningum entendeu o termo. Este termo no existia na literatura 
cientfica. Fora cunhado pela habilidade de Marco Polo em sintetizar idias. Tentando 
mostrar segurana, o Dr. Paulo respondeu: - No, meu jovem, nunca ouvi falar dessa 
ditadura. Explique-se. - No preciso explic-la. O senhor acabou de comet-la em sua 
conferncia. A platia de psiquiatras fez um burburinho. "Ser que esse jovem est 
questionando o ilustre conferencista? No  possvel!", murmuravam. Os estudantes 
tambm no tinham a menor idia de aonde Marco Polo chegaria, mas comearam a se 
animar. O Dr. Mrio, que estava recostado  mesa, colocou as mos na cabea, pois 
sabia que vinham chuvas e trovoadas pela frente. Constrangido e irritado, o Dr. Paulo 
indagou: - O que voc quer dizer com isso? Marco Polo ensinava perguntando. No 
transmitia conhecimento pronto. Levava seus opositores a pensarem e a tirarem suas 
prprias concluses, mesmo num momento em que parecia digladiar num Coliseu. 
Aprendera a tcnica com o mestre das ruas. Em vez de responder, fez outro 
questionamento: - O que  uma hiptese e qual a distncia dela para uma verdade 
cientfica? O Dr. Paulo comeou a ficar preocupado com a ousadia do jovem. 
Respondeu: - Uma hiptese  algo em que se acredita, que se supe, enquanto uma 
verdade cientfica  um fato de aceitao unnime pela comunidade cientfica. A 
distncia entre elas pode ser pequena ou grande, dependendo da qualidade da hiptese. 
Ento, Marco Polo deu-lhe o primeiro golpe intelectual: - A deficincia da serotonina 
como causadora de doenas psquicas  uma hiptese ou uma verdade cientfica? - Uma 
hiptese. - Parabns, doutor! Ento, o senhor acaba de confirmar que cometeu a ditadura 
da hiptese, pois vendeu para a platia sua hiptese pelo preo de uma verdade 
cientfica. Os alunos de psicologia se entreolharam e o aplaudiram. Perturbado com os 
aplausos, o conferencista retrucou agressivamente: - Isso  uma afronta! Apenas expus 
meu pensamento. - No, doutor. O senhor imps seu pensamento. Deveria ter dito que a 
deficincia de serotonina era uma hiptese. Alm disso, o senhor teve a coragem de 
sentenciar a psicologia ao desaparecimento. O senhor supervalorizou o metabolismo 
cerebral e a ao de frmacos (remdios) e desprezou o complexo mundo emocional e 
intelectual que nos tornam uma espcie inteligente. - Rapaz, deixe de argumentos vazios 
e apresente suas idias para realizar um verdadeiro debate! - rebateu agressivamente o 
professor, tentando esconder seu erro. Marco Polo no se intimidou. Respirava desafios.

- Diga-me, ilustre professor,  possvel entrar na cidade de Nova York de olhos 
vendados e achar a residncia de uma pessoa sem saber seu bairro, sua rua, seu nmero? 
Achando que Marco Polo estava perdido em suas idias, o Dr. Paulo disse-lhe com ar de 
desdm: - No, a no ser que demore dcadas por tentativa e erro. - Ento, como  que o 
senhor encontra de olhos vendados e em milsimos de segundos o endereo dos verbos 
e substantivos em sua memria, que  milhares de vezes mais complexa do que Nova 
York, e os insere nas cadeias de pensamento? Constrangido, ele falou: - No sei. Mas 
quem sabe como isso ocorre? - Mais duas perguntas, mestre. O senhor sabe como  
construda nossa conscincia existencial, que nos faz perceber que somos seres nicos 
no palco da vida? O senhor sabe como essa conscincia reconstri o passado ou 
antecipa os fatos sobre o futuro, sendo que o passado  irretornvel e o futuro  
inexistente? A platia ficou perturbada. A mente do Dr. Paulo ficou confusa com as 
perguntas, mas ele disse honestamente: - A atual fase da cincia est apenas arranhando 
os fenmenos que constroem os pensamentos e desenvolvem a conscincia. 
Subitamente, mudando o assunto, Marco Polo perguntou: - Parabns, mestre! Mais uma 
pergunta: o senhor acredita em Deus? - Essa pergunta  de foro ntimo. Estamos numa 
arena cientfica. No quero falar sobre essas bobagens. Levantando o tom de voz e 
abrindo os braos, Marco Polo bradou para a platia: - Deus est aqui, gente! Ele est 
presente em carne e osso. Apresento-lhes Deus - e apontou as duas mos na direo do 
Dr. Paulo, como Falco fizera com ele. - Voc est tendo um delrio religioso, um surto 
psictico! - disse o conferencista com deboche, tentando descontrair o pblico. A platia 
riu de Marco Polo. - No  um delrio! Se o senhor desconhece os insondveis segredos 
que tecem a inteligncia humana, se no sabe como pensa e se desenvolve a conscincia 
existencial, mas tem a ousadia de afirmar que a psique  o crebro, que a alma  
qumica, ento o senhor  Deus. Pois s Deus  capaz de ter tamanha convico. 
Milhes de pessoas tentaram descobrir este segredo e desceram para seus tmulos com 
suas dvidas, mas o senhor conseguiu. O senhor tem de ser Deus. A platia gargalhou, e 
at os neurocientistas presentes se soltaram. Mas o Dr. Paulo tentou esquivar-se: - Voc 
est me ofendendo. - Desculpe-me. Eu aceito que o senhor expresse sua opinio, mas 
no concordo que o senhor imponha seu pensamento. A minha crtica  que muitos 
profissionais, confiando nas teses de ilustres cientistas como o senhor, as tomam como 
verdades absolutas e, assim, cometem erros crassos. Se o senhor e os demais 
neurocientistas expusessem essas teses com status de hipteses, a democracia das idias 
poderia ser exercida. Os que lessem ou ouvissem suas idias poderiam critic-las e 
filtr-las. A platia emudeceu. Os futuros psiclogos apertaram as mos uns dos outros 
em sinal de aprovao. E Marco Polo parafraseou Shakespeare:

- H mais mistrios entre o crebro e a alma humana do que imagina nossa v cincia! 
A platia novamente sorriu. - Tenho ps-doutorado em psiquiatria e psicofarmacologia. 
E o senhor, que tese defendeu? perguntou o Dr. Paulo com altivez. Um membro da 
mesa, querendo ajudar, acrescentou: - O Dr. Paulo publicou mais de cinqenta artigos 
em revistas cientficas em todo o mundo. O conferencista corrigiu: - No, so cento e 
cinqenta artigos. - Isso, cento e cinqenta artigos. Quantos artigos voc j publicou? 
Quais as suas credenciais como cientista? Alguns psiquiatras da platia assobiaram. 
Pensaram que o jovem colega perderia a voz. - Sou Marco Polo, um explorador de 
mundos - respondeu sem titubear. A platia desta vez deu gargalhadas. Os estudantes 
aplaudiram. - Vamos, rapaz, revele-se. Diante da insistncia, Marco Polo adicionou: - 
Tenho explorado os desfiladeiros onde surgem as idias perturbadoras e os arquiplagos 
onde se levantam as defesas emocionais, at mesmo as defesas aqui presentes, mas no 
defendi ainda nenhuma tese nem publiquei nenhum artigo. Reconheo que sou um 
jovem psiquiatra comparado ao seu currculo. Mas reconheo tambm que a cincia 
mais lcida debate as idias de um pensador pelo seu contedo e no pelos ttulos que o 
autor apresenta. Creio que os verdadeiros cientistas amam o debate e no a submisso. 
A platia ficou alvoroada e caiu em aplausos, solidria com Marco Polo. As 
universidades haviam sido seduzidas pelos ttulos e pela fama do apresentador. 
Deixaram de ser um templo de debates em busca da iseno de preconceitos, como na 
Grcia Antiga. Os congressos de psiquiatria e mesmo de psicologia eram 
freqentemente tediosos. H muito tempo os presentes no viam uma discusso to rica, 
com tantas implicaes cientficas. Vrios professores universitrios de psiquiatria 
vibravam com esse caldeiro de idias. Faziam anotaes com nimo. - Est me dizendo 
que no sou um verdadeiro cientista? O clima aqui est insuportvel - disse o Dr. Paulo, 
suando frio e ameaando deixar a mesa. O Dr. Mrio no permitiu que o conferencista 
sasse do palco. Pegou o microfone e comentou: - Muito interessantes suas idias, Dr. 
Marco Polo. Se tem mais alguma coisa para acrescentar, por favor, continue. O Dr. 
Paulo suou frio e sentou-se. No sabia que os dois se conheciam. Marco Polo procurou 
ser mais brando, elogiou o conferencista, buscando abrir as janelas da sua inteligncia. 
Tinha de declarar para ele e a platia as coisas entaladas em sua garganta. - Sei que o 
senhor  um dos mais renomados psiquiatras do mundo. Eu tenho muito a aprender com 
seu ilibado conhecimento. O Dr. Paulo sentiu-se lisonjeado. - Mas, para mim, a 
medicao, quando necessria,  o ator coadjuvante, e a psicoterapia  o ator principal 
de um tratamento psquico. - Que ingenuidade! Voc ama a poesia e eu, a cincia. Em 
pleno sculo XXI voc desconhece os espetaculares avanos das neurocincias? Nunca 
usou tranqilizantes e antidepressivos nas doenas psquicas? O senhor deve ser um 
psiclogo para ter esse tipo de pensamento.

Alguns psiquiatras acharam a piada maldosa. - Sou psiquiatra, doutor, e uso com certa 
freqncia esses medicamentos. Sei, embora no completamente, das suas vantagens e 
dos seus lirnites. Mas minha tese  de que se no nutrirmos o eu dos pacientes, que 
representa sua capacidade de decidir, para serem os atores principais do teatro de suas 
mentes, no geraremos pessoas livres, capazes de administrar seus pensamentos, fazer 
suas escolhas e construir sua prpria histria. Os futuros psiclogos ficaram excitados 
com essa abordagem. Anna, numa atitude inusitada, se levantou e o aplaudiu. Marco 
Polo observou-a, admirado. O Dr. Paulo ficou profundamente irritado. - O senhor est 
usando uma filosofia barata. - Eu respeito sua posio, mas fao questo de defender o 
que penso. Um outro membro da mesa, o Dr. Antony, um psiquiatra de 65 anos, sereno, 
de voz pausada, um cone no meio acadmico, estava deliciando-se com o calor do 
debate. Mostrando-se extremamente interessado, perguntou a Marco Polo: - Voc 
discorda da hiptese dos neurotransmissores na produo de doenas psquicas, doutor? 
- Dr. Antony, para mim essa tese  pobre se considerada isoladamente. H outras 
hipteses to ou mais importantes, tais como os conflitos na infncia, o estresse social, 
as perdas existenciais, as frustraes interpessoais, a incapacidade de libertar a 
criatividade, de preservar a emoo. Todavia, para mim, a verdade  um fim inatingvel. 
O que deve ocorrer  uma conjuno das hipteses das neurocincias com as da 
psicologia. - O que  a alma para voc, meu jovem? - perguntou o Dr. Antony. Marco 
Polo respirou pausadamente. Teria de entrar num delicado assunto, um assunto que a 
cincia se sentia quase proibida de discutir. Mas no teve medo de expressar seu 
pensamento. Usou a poesia. - Quando vejo uma me perdoar um filho apesar de ele no 
merecer, quando vejo algum apostar num amigo quando ningum mais acredita nele, 
quando vejo um paciente com cncer acreditar na vida apesar de estar morrendo, ou 
quando contemplo um mendigo dividir seu po apesar de no ter qualquer valor para a 
sociedade, fico encantado, embevecido. Eu penso comigo. "Que mundo maravilhado  a 
mente humana." Nesse momento comoveu-se com as recordaes. Mas continuou: - 
Percebo que amar, cantar, tolerar, recuar so reaes que ultrapassam os limites lineares 
das leis fsico-qumicas do crebro. Nossa alma  mais do que uma mquina cerebral 
lgica. Os computadores jamais tero tais reaes, nunca tero conscincia de si 
mesmos, sero sempre escravos de estmulos programados. A platia ficou alvoroada. - 
Suas idias chocam a cincia. Se formos mais do que um crebro organizado, ento o 
que somos e quem somos? - perguntou o Dr. Antony. - No sei quem somos, mas posso 
dizer um pouco sobre o que somos. Para mim, a psique  um complexo e indecifrvel 
campo de energia que coabita, coexiste e cointerfere com o crebro, ultrapassando seus 
limites. Agora, a platia ficou perplexa. Nunca viram um postulado com essa dimenso. 
O Dr. Antony, introspectivo, comentou: - Parabns pelas suas idias inovadoras. Voc 
tocou na ltima fronteira da cincia. Se nossa

espcie comprovar sua tese, ela dar um salto sem precedentes no futuro. No entanto, 
apesar da profundidade desta tese, no h como prov-la. O nico argumento de que 
dispomos  a f. E a f  uma incerteza cientfica. - Tenho alguns argumentos que 
podem fundamentar essa tese, mas ainda esto sendo elaborados. - Esto vendo? Eu 
disse que suas idias eram filosofias baratas! - exclamou com entusiasmo o Dr. Paulo. O 
Dr. Antony o corrigiu rapidamente: - As idias do debatedor so de grande alcance, 
trata-se da tese das teses da cincia. Nossos congressos de neurocincias tm sido secos, 
mrbidos, unifocais. No discutimos os ditames do esprito humano. Temos medo de 
entrar num terreno que no conhecemos, mas que  essencial  vida. Temos receio de 
penetrar na delicada fronteira entre a psiquiatria e a filosofia, entre a cincia e a religio. 
s vezes, penso que essa fronteira no existe, ns a criamos. Seria muito bom que em 
nossos ridos congressos falssemos mais sobre as emoes, educao, espiritualidade, 
crises existenciais, conflito social, e menos sobre o metabolismo cerebral. Vrios 
psiquiatras se levantaram e aplaudiram o Dr. Antony, concordando com o seu 
pensamento. A discusso se encerraria ali se o Dr. Paulo no se mostrasse desrespeitoso 
com o sereno Dr. Antony. - Desculpe-me, Dr. Antony, mas estamos no terceiro milnio, 
e misturar f com cincia e psiquiatria com filosofia  uma ingenuidade cientfica, um 
atraso cultural.  retroceder mil anos no tempo. O senhor j deixou de produzir cincia. 
Hoje  apenas um professor aposentado, est afastado das grandes pesquisas. As 
neurocincias esto cada vez mais perto de provar que a alma  um aparelho qumico. 
Para Marco Polo no havia vencedores nesse embate, mas teses distintas, que deveriam 
ser discutidas com respeito para o bem da humanidade, e no para benefcios de grupos. 
Diante da arrogncia do Dr. Paulo, ele tomou a frente e elevou o nvel do debate. 
Colocou em pauta alguns questionamentos que desde os tempos da sua amizade com 
Falco comearam a ser elaborados. Poucos entenderam de incio seu raciocnio. - Dr. 
Paulo, sabemos que um grupo de pacientes tem novas crises depressivas aps a 
interrupo dos antidepressivos, ainda que usados por um bom tempo, como seis meses 
ou um ano. Mas outro grupo, aps a interrupo dessas drogas, deixa de ter essas crises. 
Esta informao est correta ou no? O professor fez um sinal com as mos para ele 
continuar. - Pois eu lhe pergunto. Por que, ento, o ltimo grupo de pacientes no teve 
mais crises? Sem titubear, o professor imediatamente respondeu: - Os pacientes se 
superaram. Venceram suas dificuldades, reorganizaram seus conflitos, aprenderam a 
enfrentar seus estmulos estressantes. - O dficit de serotonina ou erro qumico 
permaneceu nesse grupo de pacientes que teve pleno sucesso no tratamento? O 
professor sentiu um n na garganta, Marco Polo o pegara em seus prprios argumentos. 
Alguns professores de psiquiatria perceberam a armadilha em que o Dr. Paulo cara. 
Pensaram: "Que argumento fatal" No entanto outros psiquiatras no entenderam aonde 
Marco Polo queria chegar. Um tanto temeroso, o Dr. Paulo respondeu: - Sim, 
provavelmente o dficit continuou. - Parabns, professor! O senhor acabou de 
questionar o futuro das neurocincias. Aps a

suspenso do antidepressivos, o dficit de serotonina continuou, pois o defeito 
metablico que produz o dficit no foi solucionado pela medicao. Se o defeito 
continuou, e o paciente no teve mais crises, isso indica que superar dificuldades, 
reorganizar-se, resolver conflitos so processos psicolgicos, cognitivos, que esto 
muito alm da tese importante, mas simplista da serotonina. Alguns psiquiatras coaram 
suas cabeas. Nunca tinham pensado nesse assunto. O Dr. Antony e o Dr. Mrio saram 
do formalismo e aplaudiram Marco Polo. O Dr. Paulo ficou sem sada. Ele sempre fora 
um exmio pesquisador, mas infelizmente deixara-se seduzir pelo dinheiro. Durante a 
sua conferncia, ele havia divulgado um novo medicamento antidepressivo, cujo nome 
comercial era Venthax. Comentou que participara de pesquisas clnicas para averiguar 
sua eficincia e estava muitssimo animado com os resultados. Ningum sabia, mas o 
ilustre professor recebera secretamente um milho de dlares do poderoso laboratrio 
que tinha sintetizado a droga para divulg-la nesse congresso, bem como em seus 
respeitados artigos cientficos veiculados nas principais revistas especializadas. Na 
indstria farmacutica, quando aceita pela comunidade mdica, uma nica droga  
capaz de dar lucros altssimos, mais do que a grande maioria dos produtos do mundo 
capitalista. O Venthax realmente tinha eficincia teraputica, mas seus importantes 
efeitos colaterais foram minimizados pelo Dr. Paulo. Poderia afetar o fgado, expandir 
os riscos de infarto e, em alguns pacientes, induzir agressividade e aumentar os riscos de 
suicdio. Na platia estava presente o diretor comercial do laboratrio desse novo 
antidepressivo, o Dr. Wilson. Ele estava odiando as idias de Marco Polo. O debate 
desviou a ateno dos ouvintes da nova droga. O Dr. Wilson esperava, a partir desse 
congresso, alavancar o lanamento internacional do Venthax. Ele poderia vender mais 
de cinco bilhes de dlares anuais. Mas estava decepcionado com os rumos da 
conferncia. Vendo o Dr. Wilson completamente insatisfeito na primeira fileira do 
evento, o Dr. Paulo disse: -Vamos encerrar este debate. Mas Marco Polo precisava dizer 
mais algumas coisas: - Somos meninos brincando de cincia no teatro da existncia. Eu 
tambm sou uma pessoa orgulhosa, por vezes estpida, mas estou aprendendo que, 
nesse teatro, o orgulho  a fora dos fracos e a humildade, a dos fortes. O Dr. Paulo 
ficou paralisado e a platia, emudecida. Perceberam que todos so capazes de errar 
nesse delicado campo. Marco Polo no impunha as idias. Ele as apresentava. - Eu no 
sou orgulhoso. Sou realista! - afirmou o Dr. Paulo. - Diga-me, ento, professor, a nova 
droga sobre a qual o senhor discorreu, o Venthax, teve a sua eficcia clnica comparada 
com placebos, que so falsos remdios ou mentiras qumicas? O Dr. Paulo tremulou a 
voz. No queria entrar nesse campo. - Claro! Fizemos estudo duplo-cego. Pegamos dois 
grupos de pacientes deprimidos. Para um ministramos a nova droga, e para o outro o 
placebo. Nenhum dos dois sabia que tipo de substncia estavam tomando. Mas j falei 
de tudo isso em minha palestra. - Mas no nos forneceu alguns dados. Qual  a 
porcentagem de eficcia de um e de outro? - O Venthax teve 62% de eficcia, e o 
placebo, 46%. Os estudantes de psicologia se entreolharam. No sabiam que uma 
mentira qumica, o placebo, tivera uma eficcia no muito distante da droga psicoativa. 
Nunca discutiram esse fundamental

assunto na faculdade. Diante disso, Marco Polo deu o golpe fatal no absolutismo e 
arrogncia do grande mestre: - Por que os placebos tiveram a incrvel eficcia de 
melhorar 46% dos pacientes deprimidos? Novamente caindo em si e intuindo aonde 
Marco Polo queria chegar, Dr. Paulo assinou sua matrcula como pequeno aluno na 
escola da existncia. Com um n na garganta, foi obrigado a responder para no passar 
vergonha maior: - Porque eles acreditaram no tratamento, sentiram-se amparados 
confiaram nos mdicos que os assistiram. - Muito bem, Dr. Paulo, o efeito fabuloso dos 
placebos  o efeito espetacular da mente humana, que tem uma incrvel capacidade de 
sonhar, transcender seu caos, enfrentar suas perdas, recolher seus pedaos, reconstruir 
sua histria, reeditar o filme do inconsciente. As drogas medicamentosas podem ajudar 
muito, mas todos esses processos so conquistados pelo dilogo, pela interveno do eu, 
pelo auto-conhecimento, pela troca, pela interao social. Portanto, obrigado por 
concluir que a psicologia jamais morrer! Os futuros psiclogos levantaram-se e 
ovacionaram com euforia seu amigo. Alguns verteram lgrimas. A esperana de 
encontrar tesouro nos escombros dos que sofrem reascendeu. Marco Polo olhou 
fixamente para a platia e terminou com essas palavras o debate: - As indstrias 
farmacuticas investem bilhes de dlares em pesquisas de novas drogas que atuam no 
crebro humano para tratar de doenas psquicas, mas no investem nada em medidas 
preventivas, em melhorar a educao, desenvolver a arte de pensar das crianas, educar 
a auto-estima, diminuir o estresse social e combater a misria fsica e psquica. A 
sociedade precisa saber que na esteira do adoecimento psquico da humanidade, a 
indstria farmacutica prepara-se silenciosamente para se tornar a mais poderosa do 
mundo, mais robusta do que a indstria das armas e do petrleo. Essa indstria precisa 
de uma sociedade doente para continuar vendendo seus produtos. Alis, nunca se 
venderam tantos tranqilizantes e antidepressivos. Precisamos repensar o futuro da 
cincia e refletir para onde caminha a humanidade   Marco Polo olhou para o relgio e 
calculou que ficaram quase uma hora debatendo.  vista disso, completou: - De acordo 
com as estatsticas, durante o curto perodo em que estamos discutindo nossas idias, 
mais de mil pessoas em todo o mundo tiveram crises depressivas, ataques de pnico, 
surtos psicticos e doenas psicossomticas. Mais de vinte pessoas cometeram 
suicdios. Pessoas maravilhosas desistiram de viver e deixaram um rastro de dor nos 
membros de suas famlias, que se perpetuar por dcadas. Estamos construindo uma 
sociedade de miserveis. Isso no os atormenta, senhores? - Sonhador! - foi a ltima 
palavra do renomado conferencista. Marco Polo, com os olhos midos, tambm disse a 
ltima frase: - Se deixar de sonhar, morrerei! - Nisso veio-lhe  mente imagens de 
crianas com depresso e com anorexia nervosa de que ele tratava, doenas raras de se 
ver antigamente. As crianas com anorexia estavam caquticas, em pele e ossos. As 
lgrimas de Marco Polo ganharam visibilidade. O Dr. Mrio e o Dr. Antony saram de 
suas cadeiras e foram cumpriment-lo. Vrios psiquiatras ficaram entusiasmados com o 
pensamento de Marco Polo. Eles eram profundos e afetivos. Concordavam plenamente 
que a psiquiatria no podia ser estritamente curativa, deveria ser redirecionada para a 
preveno. Enquanto o jovem psiquiatra percorria o auditrio, muitos o

cumprimentaram. Anna o aguardava do lado de fora. Tinha um sentimento dbio de 
alegria e angstia. Alegria, porque as idias de Marco Polo arejaram os becos de sua 
emoo, levando-a a perceber que no estava programada para ser depressiva. Angstia, 
porque suas ltimas palavras a levaram a um mergulho na sua infncia, nos segredos 
que fizeram dela uma jovem cronicamente triste. Ao encontr-lo, deu-lhe um delicado 
beijo no rosto. Surpreso, ele no entendeu sua reao nem se esforou para entend-la. 
O psiquiatra debatedor recuou e o ser humano emergiu. Desejava apenas sentir aquele 
momento. Deixou a emoo sobrepor-se  razo. Saram juntos do anfiteatro. 
Caminharam sem direo. Procuravam um ao outro.

Captulo 22

Anna e Marco Polo encontraram um lugar aprazvel para cruzar seus mundos: uma bela, 
espaosa e florida praa. As folhas bailavam sob a orquestra do vento. Os cabelos de 
Anna moviam-se suavemente e vendavam seus olhos. Marco Polo conhecia bem aquele 
lugar. Nessa praa, repensara sua vida, fizera discursos, construra poesias com Falco e 
dera os primeiros passos para ser um pensador. Recordou-se de uma rvore que gostava 
de abraar. Anna, sem meias palavras, surpreendeu-o dizendo: - Eu sou depressiva! 
Marco Polo no sabia desse fato. - Anna! Voc no  depressiva. Voc  um ser humano 
que est passando por uma depresso. - Ser humano? Quantas vezes me senti a escria 
da sociedade! Marco Polo ficou impressionado. "Que causas levaram uma pessoa to 
bela e, alm disso, futura psicloga, a sentir-se to nfima?", pensou. Sua doena 
devastara sua histria. Sob o clima das palavras que ouvira de Marco Polo no 
borbulhante debate, Anna completou: - Acho que vou parar de tomar meu 
antidepressivo. Serenamente ele lhe disse: - No, Anna. No deixe de tomar seu 
remdio at que aprenda a trafegar sem medo no belo e turbulento oceano das emoes! 
- Mas eu preciso assumir uma atitude. Suas idias e sua coragem no debate me deram 
motivao para isso. - timo. Tome atitudes, mas saiba que no territrio da emoo no 
existem heris, mas pessoas que treinam dia a dia sua fora. Lembre-se do que 
comentei: equipe seu eu para ser a atriz principal do seu tratamento, trabalhe as causas 
que aliceram seu humor depressivo, confronte seus pensamentos perturbadores. Assim, 
voc ser diretora do roteiro da sua vida. Anna ficava fascinada com a linguagem de 
Marco Polo. Ele conseguia falar de fenmenos complexos contando histrias, usando 
uma inspirao criativa e uma linguagem potica. - Eu aprecio suas palavras, mas estou 
cansada. Minha vida tornou-se um peso insuportvel. Foram muitos anos de sofrimento. 
- Posso fazer-lhe trs perguntas? - disse Marco Polo, que j refletira sobre alguns dos 
comportamentos de Anna. - Fique  vontade - ela concordou delicadamente. - Voc  
hipersensvel? Quando algum a ofende, voc se machuca muito, estraga seu humor 
naquele dia? Admirada com a pergunta, ela respondeu: - No apenas o dia. Uma crtica 
ou uma rejeio perturbam-me durante uma semana e, s vezes, o ms ou o ano inteiro. 
Sou muito sensvel. - Voc  hiperpreocupada com a opinio dos outros, com o que eles 
pensam e falam a seu respeito? - Sim. Tenho medo de no ser aceita. Minha auto-estima 
 pssima. Qualquer rejeio, ainda

que com um olhar, me fere. Mas como voc sabe disso? - Voc  hiperpensante, sua 
mente  muito agitada, no pra de pensar? Sofre por problemas que ainda no 
aconteceram ou rumina freqentes situaes angustiantes do passado? Impressionada 
com o senso de observao de Marco Polo, ela respirou e respondeu: - No paro de 
pensar um minuto, minha mente  inquieta. Sofro muito por antecipao. Sofro pelas 
provas, pelo imprevisvel, pelos erros do passado, pelos erros que ainda no cometi. O 
passado me perturba e o amanh me atormenta. - Seus olhos estavam marejados de 
lgrimas. - Anna, voc tem a sndrome tri-hiper. - Tri o qu? Nunca ouvi falar dessa 
sndrome na faculdade. - Tive a felicidade de descobrir essa sndrome e a infelicidade 
de saber que ela atinge milhes de pessoas e est na base da maioria dos transtornos 
emocionais. Analisando inmeros pacientes, observei que muitos tm trs 
importantssimas caractersticas de personalidade que neles esto desenvolvidas 
exageradamente, da o nome tri-hiper. Quem  hipersensvel, hiperpreocupado com a 
imagem social e hiperpensante tem mais propenso para desenvolver depresso, 
sndrome do pnico doenas psicossomticas. Mas h duas boas notcias: a primeira  
que essa sndrome pode ser resolvida, a segunda  que ela atinge as melhores pessoas da 
sociedade, as que so emocionalmente ricas e excessivamente doadoras. - 
Emocionalmente ricas e excessivamente doadoras, como assim? -indagou Anna 
espantada. Eu sempre estudei em meus livros que as pessoas deprimidas eram 
problemticas e voc me diz que elas possuem uma personalidade rica!... -  o que 
penso. Pelo fato de essas trs nobres caractersticas estarem superdesenvolvidas gera-se 
uma enorme desproteo emocional. Por isso elas se ofendem facilmente, exigem muito 
de si e gravitam em torno de fatos que no ocorreram. Anna ficou extasiada. Desde sua 
infncia freqentava consultrios de psiquiatria e psicologia, mas pela primeira vez 
sentiu orgulho de si mesma. Ela era muito sensvel, incapaz de matar um inseto. Doava-
se para todo mundo, vivia a dor dos outros. Os empregados de sua casa eram 
apaixonados por ela. Entendeu que no era uma pessoa frgil, inferior, desprezvel, mas 
um ser humano de valor que no sabia defender-se. Por ser muito inteligente, ela mesma 
concluiu: - Por isso, essas pessoas no se adaptam ao mundo social, competitivo, 
inumano, insensvel. Elas possuem um tesouro aberto, que a agressividade das pessoas e 
os problemas da vida podem facilmente assaltar. Marco Polo admirou sua refinada 
capacidade analtica. - Parabns, Anna! As pessoas que tm a sndrome tri-hiper so 
timas para os outros, mas carrascos de si mesmas. So ticas, singelas, afetivas, mas 
no tm pele emocional. Excetuando os casos em que algum nos fere fisicamente, 
qualquer ofensa, crtica, rejeio ou decepo s pode nos ferir se permitirmos. Como 
disse em sua classe: doe-se, mas no espere muito o retorno dos outros. Em seguida, 
Marco Polo comeou a explicar que no  necessrio que os trs pilares dessa sndrome 
estejam presentes para as pessoas desenvolverem transtornos emocionais. Em alguns 
casos, basta um pilar. Comentou que a preveno dessa sndrome, realizada pela 
educao da emoo, poderia evitar que milhes de pessoas adoecessem. Fitando os 
dceis e midos olhos de Anna, acrescentou: - No se sinta discriminada nem inferior a 
ningum. Voc  melhor do que eu em muitos aspectos. Anna ficou comovida. Sempre 
se sentira pequena diante das pessoas e, principalmente, dos

psiquiatras que a trataram. Em alguns momentos, pensava em desistir da sua profisso, 
em outros, da prpria vida. A poesia era uma das poucas coisas que a entusiasmavam. 
Tentando disfarar suas lgrimas, indagou:
 - Voc leu Goethe? - Admiro a inteligncia e sensibilidade argutas dele. - E completou, 
brincando: - Mas ele foi o filho preferido da sua me. - Como assim?- perguntou Anna. 
- Segundo Freud, o brilhantismo intelectual de Goethe comeou pela me dele. Freud 
disse que os filhos que foram preferidos e valorizados por suas mes se tornam mais 
otimistas, vencedores, enfrentam com mais coragem os acidentes da vida. Marco Polo 
no percebeu que essas palavras feriram as entranhas de Anna. A relao com sua me 
fora pautada pela dor. Percebendo algo estranho no ar, ele tentou consertar. - Mas no 
concordo com Freud. Ele tambm foi o preferido de Amalie, sua me, mas, embora 
fosse um pensador inteligente, seu humor no foi irrigado com otimismo. Por isso, vivia 
atormentado com a idia de morrer antes de Amalie. Minha opinio  que as mes 
amam todos os seus filhos e no preferem um ao outro, apenas distribuem sua ateno 
de maneira diferente, por serem diferentes suas preocupaes com cada um deles. Anna 
no suportou. Verteu lgrimas. Tentou esconder a face sentando no banco. Marco Polo 
estava confuso. Percebeu que havia algo grave na relao de Anna com a me. No 
queria invadir sua intimidade. Apenas colocou suavemente seu brao direito nos ombros 
dela e respeitou sua angstia. Era um entardecer. Os raios solares penetravam no tecido 
das flores e revelavam a bela primavera. O ambiente externo contrastava com o mundo 
de Anna. Depois de alguns momentos de silncio, ele disse: - Desculpe se a feri. Ela 
levantou-se e falou subitamente: - Preciso ir. Na realidade, ela hesitava entre o 
afastamento e o desejo de ficar prxima dele. - Podemos nos ver amanh? - perguntou 
Marco Polo inseguro. - Acho que no. - Por que no? Bloqueando temporariamente as 
palavras de Marco Polo que a encorajaram a resgatar sua autoestima e lutar contra a 
doena, ela voltou-se para o epicentro do seu conflito e disse: - Voc no vai gostar de 
me conhecer. Eu sou uma pessoa muito difcil. Nem eu me entendo. - Somos iguais! Eu 
tambm no me entendo algumas vezes - falou ele com um sorriso. Ento, numa das 
rarssimas oportunidades, ela abriu o mapa da sua dramtica histria e, sob solavancos 
de soluos, bradou em voz relativamente alta: - Roubaram minha alegria! Destruram 
minha infncia sem me pedir licena. Voc no consegue perceber que sou uma fonte 
de tristeza? O que voc espera de mim? O resgate sbito do passado gerou um volume 
de tenso que obstruiu o fluxo das idias de Anna. Marco Polo mergulhou no silncio. 
Esperou que ela se refizesse e continuasse. - Eu era filha nica e pensava que minha 
me me amava e me valorizava mais do que tudo na vida. Mas quando eu tinha oito 
anos, escutei um som que jamais saiu da minha cabea. Ouvi o

estampido de um revlver no quarto dela. Corri para o local e vi a imagem de minha 
me coberta de sangue em cima da cama. Tentei socorr-la, peg-la, mas eu era muito 
pequena. Apenas gritava: "Mame! Mame! No me deixe!..." Ela morreu fisicamente e 
eu, emocionalmente. Ambas falecemos. Raramente algum sofreu tanto como a 
pequena Anna. Antonieta, sua me, tinha graves crises depressivas, mas, apesar das 
crises, procurava dar  filha o mximo de ateno e carinho que conseguia. No perodo 
entre as crises, brincava com Anna e dizia que ela era a melhor filha do mundo. 
Entretanto, as crises aumentaram e a me hipersensvel tinha perodos de afastamento. 
Antonieta dizia algumas vezes para os empregados e na frente da pequena Anna que no 
suportava mais viver. Anna chorava e vivia atormentada. Seu pai, Lcio Fernndez, era 
um rico industrial. Ele nunca compreendeu e apoiou sua esposa. O casal tinha 
freqentes atritos, s vezes na presena de Anna. Lcio entendia muito de matemtica 
financeira e absolutamente nada da aritmtica da emoo. Diferente de Anna e 
Antonieta, que eram hipersensveis, Lcio era um homem frio, calculista, colrico, que 
no sabia colocar-se no lugar dos outros. No amadurecia  medida que seus cabelos 
embranqueciam. Repetia os mesmos erros sempre. Era incapaz de enxergar a angstia 
de sua esposa. Para ele, a depresso era frescura, uma atitude de quem no tem o que 
fazer. Tinha averso a psiquiatras. Considerava-os os maiores charlates da sociedade. 
Na realidade, tinha medo de enxergar o prprio ser. Apenas uma vez entrou num 
consultrio de psiquiatria acompanhado de sua esposa. Saiu chamando o psiquiatra de 
louco. Lcio Fernndez era um homem de muitas mulheres. Sua infidelidade, aliada  
sua postura agressiva e autocentrada, contribuiu para irrigar a baixa auto-estima de sua 
esposa e aguar sua depresso. No se casou aps a morte de Antonieta. O milionrio 
tinha medo de dividir seu dinheiro. Anna nutria profunda mgoa por seu pai, no apenas 
pela sua falta de afeto, mas porque,  medida que foi crescendo, comeou a entender 
que ele fizera muito pouco para prevenir o suicdio de sua me. Um pensamento 
perturbador sufocava-a: de que seu pai facilitara o suicdio. Antonieta tinha se matado 
com uma arma que estava no criado-mudo ao lado da cama do casal. No fundo, Anna 
sabia que seu pai mantinha uma arma no criado-mudo e outra no carro porque era 
desconfiado e inseguro. Tinha uma personalidade paranica. - Certa vez, disse ao meu 
pai que mame falava em morrer. Com um ar prepotente, ele afirmou categoricamente 
que eu podia ficar tranqila, pois quem ameaa no faz. Era incapaz de ouvir os 
clamores de minha me por trs do seu humor triste. Marco Polo, atravs da sua fina 
capacidade de enxergar o que a imagem no mostra e ouvir aquilo que os 
comportamentos visveis no revelam, fez uma pergunta que levou Anna a penetrar no 
centro do seu caos emocional. - Voc tem raiva da sua me? Anna sentia mgoa do pai, 
mas a mgoa que nutria por sua me era muito maior. No entanto, ela negava este 
sentimento. A mgoa se alojava clandestinamente nos pores do seu inconsciente e 
nunca fora superada nas sees de psicoterapia. Seus terapeutas no detectavam este 
dramtico sentimento, seja pela resistncia de Anna em falar sobre o suicdio da me, 
seja porque tinham receio de entrar nesse rido terreno e no conseguir controlar sua 
crise. Afinal de contas, Anna falava em dormir e no acordar mais, em desistir de tudo. 
Alm da mgoa oculta pela me, ela sentia-se envolvida por uma nvoa de culpa. Sua 
me

sinalizara que estava querendo morrer e ela sentia que no conseguira proteg-la. Nada 
 to asfixiante para a emoo de uma frgil criana quanto sentir-se culpada pelos atos 
dos seus pais. Esses conflitos pautaram o desenvolvimento da sua personalidade. Anna 
tornou-se insegura, frgil, com humor cronicamente triste, com medo de enfrentar a 
vida e assumir seus prprios sentimentos. Era autopunitiva, tolerava os erros dos outros, 
mas era implacvel com os prprios erros. Ela sempre demonstrara compaixo por sua 
me diante dos outros terapeutas. Pela primeira vez teve coragem de dizer que sentia 
raiva dela, e no d. Na realidade, seus sentimentos se mesclavam. - Sim. s vezes 
tenho raiva dela. Por que me abandonou? O amor que ela sentia por mim era menor do 
que o desejo de desistir da vida. Eu fiquei s. Perdi tudo. Perdi o prazer de viver falou 
inconformada. E acrescentou: - Voc no disse em seu debate que os que se suicidam 
deixam um rastro de dor que se perpetua por dcadas? Eu sou um exemplo vivo dos 
seus argumentos. Para mim, quem se mata  um grande egosta. Termina seu problema 
e comea o dos outros. Voc j sentiu tal solido? As lgrimas continuavam a ser 
vertidas. Anna perdera o que mais amava, no sobraram pedaos da sua perda. No 
tinha o que recolher. Marco Polo ficou profundamente sensibilizado com sua histria. 
Na infncia, ela deveria ter corrido atrs dos pssaros, brincado com suas bonecas, 
transitado sem medo pelas vielas da existncia, mas o som do projtil e a imagem da 
me inerte numa cama eram uma pea vil que se repetia sem cessar no palco da sua 
mente, contagiando toda a estrutura do seu inconsciente. Marco Polo sabia que em 
alguns casos o desenvolvimento da sndrome tri-hiper tinha uma influncia gentica. 
Acreditava que pais deprimidos no transmitem geneticamente a depresso para seus 
filhos. Na realidade, o que transmitem  uma tendncia para desenvolver a sndrome tri-
hiper, que em alguns casos, se no for corrigida pela educao e pela atuao do eu 
como autor da prpria histria, pode facilitar o aparecimento da depresso e de outras 
doenas. Ele acreditava que as causas sociais e psquicas, como perdas e frustraes, 
eram muito mais importantes no desenvolvimento dessa sndrome do que a gentica, e 
nem sempre precisavam ser intensas. No caso de Anna as causas foram marcantes. Um 
vendaval destrura a fase mais importante da sua vida. A partir do suicdio da me, ela 
nunca mais acreditou que as pessoas poderiam am-la verdadeiramente, e por isso tinha 
enorme dificuldade de se entregar. O medo da perda era um fantasma sempre presente. 
Sentia-se a pessoa mais solitria do mundo. Marco Polo reagiu  sua indagao: - Nunca 
senti a solido por que voc passou, mas de uma coisa estou convicto: quando o mundo 
nos abandona, a solido  suportvel, mas quando ns mesmos nos abandonamos, a 
solido  intolervel. Voc se abandonou. Anna ficou abalada com essa frase. Esperava 
que Marco Polo tivesse compaixo dela, que ficasse paralisado diante da sua misria 
emocional. Embora estivesse profundamente condodo por sua dor, ele instigou a 
inteligncia dela, levando-a a concluir que realmente havia se abandonado. Deixara de 
se amar. Sua solido tornara-se insuportvel. Todavia, ela levantou uma barreira, como 
se no conseguisse superar o seu passado: - Como apostar na vida e am-la, se quem me 
gerou suicidou-se? Ento chegou o momento para Marco Polo ajudar Anna mais 
profundamente. O seu conceito

de suicdio confrontava com o pensamento corrente na psiquiatria e na psicologia. Ele 
levantou suavemente o rosto da moa, penetrou em seus olhos e falou solenemente: - 
Anna, no existe suicdio!... Perplexa, ela imediatamente argumentou: - O que voc me 
est dizendo? Durante anos, procurei entender por que minha me morreu e por que as 
pessoas desistem de viver. E agora voc me diz que no existe suicdio! No brinque 
com meus sentimentos. - Estou falando srio. As pessoas deprimidas tm fome e sede 
de viver - ele afirmou contundentemente. Ento, ela tocou num assunto que era um tabu: 
- No diga isso. Eu tambm j tentei tirar minha vida uma vez. Tomei cartelas de 
medicamentos. O que eu fiz? No quis me matar? - falou, abalada. - No! Voc quis 
matar a sua dor, e no a sua vida. Do mesmo modo, sua me no quis morrer. Na 
realidade, seu desejo era destruir o humor triste, a angstia que a sufocava. - Nenhum 
psiquiatra jamais me disse isso! - Anna exclamou. - O conceito de suicdio precisa ser 
corrigido na psiquiatria e na sociedade em geral. A conscincia do fim da existncia  
sempre uma manifestao da prpria existncia. Toda idia de morte  uma homenagem 
 vida, pois s a vida pensa. A idia de morte no  a atitude onipotente do ser humano 
traando seu destino, mas uma atitude desesperada de tentar destruir o drama emocional 
que ele no conseguiu superar. Assim, no existe a idia pura de suicdio. Toda vez que 
uma pessoa pensa em se matar, ela no leva em considerao a conscincia do nada 
existencial. Seu pensamento  uma reao, no para eliminar sua vida, mas para decepar 
sua dor. A tentativa de suicdio, portanto, revela no o desejo de morrer, mas uma fome 
desesperada de viver. Anna no entendeu plenamente a dimenso psicolgica das idias 
de Marco Polo, mas o pouco que entendeu foi o suficiente para choc-la, alivi-la e 
faz-la dar um mergulho interior. Novamente sua inteligncia se manifestou: - Quando 
pensei em tirar minha vida, um sentimento estrangulava meu ser. Sentia-me num 
cubculo sem ar. Uma idia tentadora passava em minha mente, mostrando que era to 
fcil acabar com tudo aquilo. Mas, na realidade, eu lutava dentro de mim para romper as 
algemas dessa priso. Queria ser livre, respirar, amar, no queria morrer. Aps essa 
concluso, Anna mergulhou mais profundamente nos recnditos do seu ser e abriu as 
comportas do seu remoto passado. Como se sasse de um ambiente escuro e entrasse 
numa sala completamente iluminada, recordou imagens que h anos estavam escondidas 
em suas runas. Lembrou de momentos agradveis em que sua me escondia-se atrs 
dos sofs e das cortinas, brincando de esconde-esconde. Recordou quando sua me 
tocava piano e ela ficava aos seus ps, encantada. Lembrou-se de que, por influncia da 
me, aprendera a gostar de poesia, e que a primeira vez que ouvira falar de Goethe foi 
da boca da prpria me. Recordou-se ainda de uma frase que nunca mais havia 
resgatado: "Filha, eu te amo, nunca te abandonarei." Pela primeira vez, percebeu que 
sua me no fora egosta, e sim uma prisioneira da prpria dor. Ela no quisera se 
matar, mas eliminar sua misria emocional. A raiva que sentia pela me dela se 
dissipou. O sentimento de abandono ruiu naquele momento. Resgatou o amor que a me 
sentia por ela. Ento algo sublime aconteceu.

Anna, aos prantos, exclamou: - Me, eu te compreendo e perdo... Me, eu te amo! 
Voc foi maravilhosa. Em seguida expressou: - Obrigada, Marco Polo! Um peso saiu da 
minha alma. Ela o abraou suave e profundamente. Apertava-o em seus braos. Em 
seguida, num lance de serenidade, comentou: - Se as pessoas que pensam em suicdio 
soubessem o quanto tm fome e sede de viver, no se matariam. Mas usariam essa fome 
e essa sede para combater tenazmente suas perdas, decepes e angstias. A idia de 
suicdio revela uma fome desesperada de viver e no um desejo de morrer. Estas 
palavras tm de ser gritadas e sublinhadas no mundo inteiro. - O pior crcere do mundo 
 o crcere da emoo, mas ningum  escravo quando resolve ser livre. Por enxergar o 
suicdio por este ngulo, vrios de meus pacientes saram deste crcere, extraram 
coragem das suas fragilidades e voltaram a acreditar na vida. Raramente duas pessoas 
falaram de um ponto que estrangula a tranqilidade com tanta suavidade. Como o clima 
estava leve e agradvel, Marco Polo resolveu mostrar uma outra face da sua 
personalidade, a face irreverente. Elevando o tom de voz, expressou: - No tenha medo 
da dor, minha princesa, viva a vida com vibrao. - Eu sou muito complicada - ela disse 
descontrada. - As mulheres mais complicadas so mais interessantes - ele falou 
brincando. Ela desmanchou-lhe os cabelos e fez-lhe ccegas. Sorrindo, ele emendou: - 
Cuidado! Voc  que corre risco ao meu lado. - Como assim? - Anna perguntou, 
surpresa. - Tenho sangue de aventureiro, a irreverncia de um filsofo e o 
desprendimento de um poeta. Lembre-se: sou Marco Polo, um andarilho nos solos da 
vida. Sou explorador de mundos e, agora, do seu belo mundo. - No estou entendendo! 
Em vez de lhe dar resposta, Marco Polo subiu no banco da praa sem se importar com 
os passantes apressados, declamou uma poesia de braos abertos com uma voz vibrante. 
Rememorou os bons tempos. Minha doce donzela! Enfrente a tempestade noturna, 
como os pssaros. Ao amanhecer, mesmo com seus ninhos derrubados, Eles cantam 
sem palco e platia! Para eles, a vida  uma grande festa! Minha querida princesa! No 
tenha medo da vida, Tenha medo de no viver; No tenha medo de cair, Tenha medo de 
no caminhar. Rasgue seu corao, entregue-se, deixe este aventureiro descobri-la! Uma 
pequena multido parou para ouvir o poeta. Anna ficou vermelha, pois sempre evitara 
qualquer exposio diante dos olhos dos outros. Ao terminar a poesia, Marco Polo 
desceu e deulhe um beijo prolongado. Ela, trmula, se entregou. Aps beij-la, vrias 
pessoas aplaudiram.

Algumas senhoras idosas ficaram eufricas diante da cena romntica. Uma delas, de 
mais de oitenta anos, clamou com ternura: - Agarre este prncipe, minha filha. Est 
faltando homem no mercado! Ela entendeu o recado e desta vez ela mesma tomou a 
iniciativa. Beijou-o ardentemente.

Captulo 23 
Na semana que se seguiu, Anna encontrou-se mais duas vezes com Marco Polo. Seu 
amor por ele crescia. Dias depois, ela participou de um seminrio sobre sndrome do 
pnico na universidade. No conhecia a grande maioria dos participantes desse 
seminrio. Um professor fez uma abordagem de que ela no gostou. Comentou que os 
portadores da sndrome do pnico so emocionalmente frgeis, no tm autocontrole, 
desconfiam da opinio dos seus mdicos, giram na rbita da prpria insegurana. Por 
serem frgeis, sob um ataque de pnico, o mundo desaba sobre eles. O contato com 
Marco Polo fez com que Anna tivesse uma percepo mais profunda dos transtornos 
psquicos. No concordava com a viso pessimista e determinista do professor. Ele fora 
incapaz de exaltar as belas caractersticas desses pacientes e de mostrar o drama 
emocional que eles vivem durante a crise. Diante disso, teve a coragem de levantar a 
mo e question-lo. Os poucos amigos que a conheciam admiraram sua ousadia. Nunca 
a tinham visto manifestar-se em classe. - Ser que esses pacientes no so hipersensveis 
e, por possurem uma conscincia acima da mdia das limitaes da vida e do fim da 
existncia, no ficam propensos aos ataques de pnico? Quando esses pacientes 
desconfiam dos mdicos que afirmam que sua sade est tima, isto  um sinal de 
fragilidade ou um grito desesperado de algum que tem sede de viver e quer espantar o 
fantasma da morte? Aps esse questionamento, Anna ficou aliviada. Queria ao menos 
ser respeitada em seus argumentos. Seu pensamento deixou os presentes reflexivos, mas 
o professor no suportou ser contrariado. Em vez de debater seus argumentos, preferiu 
sair pela tangente. Foi irnico. - Voc est aqui para estudar psicologia e no filosofia. 
A platia divertiu-se. Marco Polo sabia defender-se quando criticado e ironizado. A 
chacota dos outros aguava seu raciocnio. Anna ainda no tinha tal defesa, no havia 
reeditado o filme do seu inconsciente, ainda era uma pessoa hipersensvel e 
hiperpreocupada com sua imagem social. Sempre fizera um esforo enorme para no 
errar diante de uma pessoa, que dir diante de um pblico. Agora, na primeira vez em 
que se manifestava diante de uma platia, tinha sido humilhada. Todos esperavam que 
ela reagisse diante do deboche do professor. Mas sua voz ficou embargada, no 
conseguiu contra-argumentar. Chocada, paralisou-se. As risadas dos presentes 
reverberaram em sua mente. Levantou-se e saiu da classe. O clima ficou ruim. Saiu 
como uma derrotada. No outro dia, como era de esperar, no foi  escola. No saiu de 
casa e nem da cama. Punia-se muito. No conseguia parar de pensar no vexame pblico. 
Relembrava continuamente as cenas, teve raiva do professor e mais raiva ainda de si 
mesma por no ter conseguido reagir. Entregouse a uma nova crise. Marco Polo foi 
procur-la na faculdade, mas no a encontrou. Ela ficou ausente por vrios dias. Tentava 
telefonar, mas Anna estava incomunicvel, no queria falar com ningum. Os 
empregados, por conhecerem suas crises, tinham ordens do seu pai para no importun-
la.

Marco Polo estava intrigado: "O que est acontecendo? Por que se recusa a falar 
comigo? Ser que devo desaparecer de sua vida?" Nesse nterim, escreveu uma carta 
para Falco. Contou sobre seu relacionamento com Anna e as suas dificuldades. Falco 
enviou uma carta com pouqussimas e significativas palavras: Querido amigo Marco 
Polo, Se voc est amando uma mulher, lute por ela. Mas saiba que as mulheres so 
maravilhosamente incompreensveis. O dia em que voc compreender uma alma 
feminina, desconfie do seu sexo... Ao ler a missiva, ele meneou a cabea com alegria. 
No dia seguinte, Marco Polo reuniu coragem para visitar Anna. Ao chegar na casa dela, 
ficou assombrado com o palacete de trs mil metros quadrados de construo colonial. 
Ela era to simples, meiga despojada. No imaginava que fosse to rica. Havia dez 
sutes, salo de festas, cinema e inmeras outras dependncias. O palacete ocupava um 
quarteiro inteiro. Os portes eram altos, de ferro fundido, com grades torneadas e 
lanas espetadas, as janelas todas em arco, com vidros verdes jateados. O jardim era 
imenso. Havia muitas flores para esconder uma jovem to triste. Duas arrumadeiras, 
duas cozinheiras, dois jardineiros e uma faxineira cuidavam da casa, e dois motoristas 
serviam Anna e seu pai. Havia seguranas dentro e fora da casa. A maioria das amigas 
de Anna no sabia, mas a segurana da moa era garantida por um profissional 
disfarado nas dependncias da faculdade. Aps contatar um segurana, o mordomo, 
Carlos, foi acionado. Alto, calvo e trajando sempre um palet branco, Carlos 
comandava a equipe. Seu olhar era sisudo, distante e desconfiado. O mordomo parecia 
um iceberg, duro, frio, impenetrvel. - Gostaria de falar com a Anna. Da escadaria do 
palacete, Carlos gritou: - O senhor tem hora marcada? - No, mas sou amigo dela. - 
Anna s recebe pessoas com hora marcada. - Por favor, fale com ela. Provavelmente ela 
me receber. Relutante, o mordomo saiu. Anunciou a visita ao senhor Lcio Fernndez. 
O pai, que no respeitava as mulheres e considerava todo homem um aproveitador de 
sua filha, mandou dizer que ela tinha sado. Marco Polo desconfiou que o mordomo 
estava mentindo, que sequer a avisara. - Senhor, diga-lhe que minha conversa ser 
rpida, falarei apenas alguns minutos. - Retire-se, senhor! Percebendo a insistncia do 
jovem pela janela, Lcio abriu a porta central, aproximou-se de Carlos e de l 
exclamou: - Deixe minha filha em paz! - Desculpe-me, senhor, mas talvez sua filha 
precise de mim. - Que arrogncia! Quem  o senhor para fazer tal afirmao? - Sou um 
amigo.

- Anna tem colegas e no amigos. - Mas eu insisto, sou seu amigo. - Qual  seu nome? - 
Marco Polo. - Qual sua profisso? Marco Polo hesitou em dizer, mas foi honesto: - Sou 
psiquiatra. - Psiquiatra!? Era s o que me faltava. Um psiquiatra tentando seduzir minha 
filha. Ningum o chamou aqui. - Estou aqui como amigo e no como psiquiatra - disse 
Marco Polo irritado. - O senhor est sendo antitico. Retire-se! - A sua filha est num 
casulo. Precisa tornar-se socivel, libertar-se, ser feliz. O prepotente empresrio no 
gostou. - Um msero doutorzinho querendo me dar lio de moral. Saia da minha casa, 
seno vou chamar a polcia! - disse taxativamente o empresrio, e entrou sem se 
despedir. - E no aparea mais aqui! - completou o coronel Carlos. Dois seguranas se 
aproximaram ameaando Marco Polo. Parecia que todo mundo ali,  exceo de Anna, 
vivia num exrcito. O jovem foi embora chateado. Comeou a pensar que Anna at que 
era saudvel, vivendo num quartel daqueles. Era quase impossvel no ser doente 
naquele ambiente. Comeou tambm a ponderar se valia a pena investir nesse romance. 
Ele j tivera outras namoradas. A ltima era extremamente controladora, ciumenta. No 
conseguia respirar sem que ela notasse. Anna, ao contrrio, vivia alienada, trocava-o por 
seus conflitos. Marco Polo viveu o velho dilema da existncia: sua razo pedia para ele 
se afastar, sua emoo pedia para ele aproximar. Antes de desistir, precisava v-la pela 
ltima vez. No outro dia voltou  casa de Anna, certificando-se antes por telefone se o 
pai dela estava ausente. Alm disso, precisava vencer o coronel Carlos. Lembrou-se do 
passado. Usou um disfarce, no to ridculo como nos tempos de Falco, mas no 
menos bizarro. Cabelos espetados, cavanhaque preto, culos escuros. Parecia um 
roqueiro amalucado. Carlos apareceu aps a insistncia do segurana. Antes que ele 
abrisse a boca, Marco Polo falou com uma voz aguda e alta: - Carlos, como est? - 
Como o senhor sabe meu nome? - Como sei? Lcio me disse. Creio que voc me 
conhece - gritou. - No, senhor! - falou inseguro o mordomo diante da potncia da voz 
do estranho. - Nunca viu esta bela imagem nos jornais? - No. - Que absurdo! Os 
mordomos no lem mais jornais. Chame urgente o Lcio. - O Dr. Lcio no est, 
senhor. - O qu? No est? J no se fazem pais como antigamente. Vamos, preciso 
fazer a consulta urgente. - Que consulta, senhor? - Consulta da sua filha! Lcio suplicou 
que eu viesse aqui. Sou um especialista em transtornos intestinais.

- Desculpe-me, mas ele no me avisou. - E precisa avisar! O grande Lcio no manda 
mais nesta casa! Se no abrir essa porta agora, vou embora. E se sua filha piorar, o 
senhor ser o responsvel. Carlos ficou inseguro e Marco Polo emendou: - Alis, o 
senhor est muito plido. Olhe s essas manchas no seu rosto. Deixe-me ver de perto. 
Apesar de autoritrio, Carlos era um hipocondraco, vivia com mania de doenas. Ficou 
vermelho. Passou a mo no rosto, a cabea calva comeou a suar. - O caso parece grave. 
O senhor deve estar fazendo um srio tratamento, no? - No, senhor, no estou em 
tratamento. Mas o que o senhor acha que eu tenho? - perguntou o mordomo 
timidamente. Marco Polo tirou o estetoscpio, colocou-o sobre a barriga de Carlos e, 
para brincar um pouco, colocou tambm sobre sua cabea, dizendo: - Hum! Hum! No 
se preocupe, porque essa doena no mata. Tome este pequeno remdio agora. Aps 
consultar Anna, conversaremos. Deu um laxante para o mordomo. Marco Polo foi para 
o quarto de Anna e o ditador, para o "trono" do vaso sanitrio. O quarto era enorme, 
mas glido e escuro. Tinha cerca de sessenta metros quadrados. Anna estava deitada, 
mas acordada. Marco Polo tirou o disfarce, aproximou-se vagarosamente da cama, 
sentou-se ao seu lado. Ao ouvir a voz do rapaz, ela se assustou, mas no se levantou 
nem o cumprimentou. Ele tentou anim-la. - Anna, o que est acontecendo com voc? 
Ela permaneceu muda. - Sou seu amigo. Fale comigo! - Ela colocou o travesseiro sobre 
a cabea. - Tudo bem, Anna, voc tem o direito de no falar comigo. Se esta  a sua 
escolha, vou desaparecer da sua vida. Levantou-se e comeou a se retirar. Quando ele 
estava no meio do quarto, ela bradou. - Eu no disse que sou complicada? Em vez de 
poup-la, ele comentou: - Anna, o problema no  ser complicada, o problema  
complicar a vida. - Esquea-me!  melhor para voc. Indignado, ele disparou uma frase 
cortante: - O problema no  a doena do doente, mas o doente da doena. Ela tirou o 
travesseiro do rosto e perguntou: - O que voc quer dizer com isso? - O problema  seu 
eu, sua capacidade de decidir, e no sua doena Voc teve motivos para ser deprimida. 
Mas insiste em ser doente. - Eu no desejo ser doente! - No deseja conscientemente, 
mas inconscientemente voc deseja ficar na platia, no tem coragem de subir ao palco 
e dirigir a pea da sua vida. Anna, voc  forte e magnfica, saia do coitadismo! - Eu 
no sou coitada! Marco Polo mesclava elogios com crticas positivas, pois tinha plena 
conscincia de que no era fcil vencer os transtornos psquicos. Sabia que os conselhos 
vazios no adiantavam, era

necessrio ser um arteso da psique. - Ento, por que vive esperando que as pessoas a 
aprovem ou tenham compaixo de voc? Fiquei sabendo que brilhou no seminrio, mas 
no suportou ser confrontada. Anna permaneceu muda, e ele continuou: - Voc  
inteligente, mas autopunitiva, no admite falhar, ser zombada ou criticada. 
Schopenhauer disse que no deveramos basear nossa felicidade pela cabea dos outros. 
Voc se esqueceu de que no deve esperar os aplausos dos outros para ser livre! Anna 
ficou chocada com essas palavras. No podia fugir delas. - Eu sou uma estpida! - 
Tambm sou s vezes. Mas lute por sua sade psquica! Recorde! Voc tem fome de 
viver! No se entregue. - H algo que me amordaa, que sufoca minha alma. Eu sei que 
preciso lutar, mas no consigo. Diante disso, Marco Polo citou um famoso escritor: - 
"No basta saber,  tambm preciso aplicar; no basta querer,  preciso tambm agir." - 
Goethe! - ela reconheceu com alegria. - Sim, Goethe. No basta l-lo,  preciso aplicar 
suas idias. Anna ficou desconcertada. Toda vez que tinha crise, seu pai, em vez de 
encoraj-la a enfrentar seus problemas, a incentivava a fugir deles. Pedia para ela no ir 
 escola quando estava aborrecida, aconselhava-a a trocar de amizades quando ela se 
decepcionava, a mudar de ambiente quando se perturbava. Tentava superproteg-la. 
Queria compensar a ausncia da me, mas sua proteo era doentia, alimentava a 
fragilidade da moa, destrua sua auto-estima. As palavras de Marco Polo a fizeram 
perceber que sempre tinha feito a pior escolha: esconderse. Percebendo sua 
interiorizao, ele acrescentou: - D as costas aos seus problemas, e eles se tornaro 
predadores e voc, a caa. Inverta essa relao. Lembre-se da poesia: "No tenha medo 
da vida, tenha medo de no viver. No tenha medo de cair, tenha medo de no 
caminhar..." Voc  uma pessoa corajosa, j comeou at a brigar em classe - falou 
brincando, e fechou seus argumentos com essas palavras: - Ningum  digno da 
segurana se no usar as suas fragilidades para alcan-la. Anna levantou-se 
subitamente. Num sobressalto, disse: - Espere-me l fora. Surpreso, ele saiu. Ela 
penteou-se, pintou-se, passou base em suas olheiras, vestiu um belssimo vestido azul-
claro com decote em V. Depois de demoradssima meia hora, saiu. Marco Polo no 
acreditou no que via. Ficou surpreso. Ela estava linda, charmosa, sensual. Curioso, 
perguntou: - Voc vai a alguma festa? - A vida  uma festa! - ela afirmou alegremente. 
A partir desse momento, Anna deu um grande salto em direo  sua liberdade. Nunca 
mais foi a mesma. Passou ainda por momentos difceis, chorou no poucas vezes, 
deprimiu-se em alguns momentos, mas no se submetia mais ao seu crcere interior. 
Aprendeu a fazer das suas quedas e das suas falhas uma oportunidade para crescer. 
Resolveu sair de peito aberto para a vida. Marco Polo tomou-a pelo brao e saram. 
Quando estavam para abrir a porta da sala, Carlos gritou:

- Doutor! Doutor! Para espanto de Anna, ele rapidamente colocou o cavanhaque postio 
e os culos escuros e desajeitou o cabelo. - Pois no, Sr. Carlos! - No paro de ter 
diarria, doutor! - disse, plido. - Excelente notcia! O senhor est botando para fora 
todos os seus vermes. - Que vermes so esses? - Orgulhus lumbricoides. Sua cabea, ou 
melhor, sua barriga est cheio de Orgulhus lumbricoides. Anna morria de rir. -  grave, 
doutor? - perguntou o mordomo esfregando a barriga, querendo novamente ir ao 
banheiro. - No! Tome bastante lquido. Sente-se com bastante humildade no vaso, 
concentre-se e ver que em breve os seus vermes o deixaro. E foram embora. Carlos 
ficou felicssimo. Quando se afastavam da casa, Marco Polo disse: - Um dia terei de me 
retratar com Carlos e pedir-lhe desculpas. - No se preocupe. Os empregados no o 
agentam. Quem dera o orgulhus do Carlos fosse eliminado. A noite estava comeando 
e prometia ser uma das mais encantadoras. Sempre reprimindo seus comportamentos, 
Anna nunca tinha corrido nas ruas e brincado de se esconder em pblico. Marco Polo 
fez questo de quebrar sua rotina. Queria libertar sua espontaneidade, libertar a criana 
que se escondia dentro dela e que nunca pudera respirar. Os dois corriam um do outro e 
brincavam como adolescentes no meio da multido. Ela se envolveu no clima e deixou 
de se importar com os olhares dos passantes. Era a sua histria, s sua, tinha de viv-la 
intensamente. Ele estava sem uma mquina fotogrfica, mas, imitando uma com as 
mos, pedia que ela fizesse poses. Clicava sem parar a cmera imaginria. As pessoas 
trombavam uma nas outras ao contempl-los, embriagados de alegria. Ela corria para os 
braos de Marco Polo e ele girava o corpo dela. Anna comeou a entender que a 
verdadeira liberdade comea de dentro para fora...

Captulo 24

A afinidade entre Marco Polo e Lcio Fernndez foi apenas suportvel. O milionrio 
evitava qualquer aproximao. Torcia para que o namoro no evolusse. Algumas vezes 
tomou atitudes para que Anna rompesse a relao. Gritou, pressionou, fez chantagens, 
mas no adiantou. O namoro prosseguiu. Todavia, Lcio Fernndez no se deu por 
vencido. O relacionamento entre Marco Polo e Anna, construdo pouco a pouco, tornou-
se slido demais para ser abalado por manipulaes. Foi tecido com alegria, 
descontrao, dilogos prolongados e comportamentos que fugiam do trivial. Passados 
alguns meses, Anna havia reeditado uma parte significativa dos conflitos arquivados em 
seu inconsciente. Paulatinamente deixou de viver a dor dos outros e esperar 
excessivamente a contrapartida do retorno. Tornou-se bem-humorada, estvel, 
protegida, decidida, capaz de lutar por seus sonhos. O convvio social j no era uma 
fonte de medo e frustraes. Assim, teve segurana para interromper o uso de 
antidepressivos. Anna se formou em psicologia e comeou a estagiar num imenso 
hospital do corao, cujo diretor era amigo de seu pai. Ela e outras psiclogas 
realizavam atendimento aos pacientes submetidos a cirurgias cardacas, principalmente 
aos candidatos a transplantes. Marco Polo freqentemente a surpreendia com um gesto, 
um elogio ou uma atitude inesperada. s vezes, chegava subitamente com um buqu de 
flores e o entregava no corredor do hospital. Beijava-a, dizia umas palavras e saa. Fazia 
de um minuto uma eterna afetividade. Para eles, pequenas reaes tinham grande 
impacto. Certa ocasio, no comeo do estgio, algumas colegas de Anna viram Marco 
Polo fazer uma pequena declarao de amor, tendo numa das mos um boto de rosa 
vermelha. Ficaram surpresas com a atitude dele. Para elas, esse romantismo havia sido 
eliminado nos tempos modernos. Uma das colegas, envolvida por um sentimento de 
inveja, comentou rispidamente: - Seu namorado  um pouco estranho. No me parece 
muito normal. - No  possvel ser normal quando se ama - Anna rebateu. Uma 
enfermeira mal-resolvida nas relaes afetivas e que sempre se envolvia com 
namorados autoritrios e dominadores perguntou: - Dar flores no incio do dia no  
coisa de neurtico? - No sei. Mas sei que ele trata de muitos... - Elas no entenderam. - 
Vocs no conhecem o namorado de Anna? - disse uma psicloga que o conhecia. - 
No! - Ele  o famoso Marco Polo. Uma das pessoas mais inteligentes que j conheci. 
Caladas, adentraram pelo imenso edifcio. Elas no entendiam que a inteligncia e o 
sucesso profissional podiam e deviam ser combinados com a sensibilidade e leveza do 
ser. Anna se tornou querida desde as primeiras semanas no hospital do corao. 
Aprendeu com Marco Polo a cumprimentar alegremente os funcionrios, em especial os 
mais simples, a brincar com os pacientes e a entrar sem receio no epicentro da 
insegurana deles. Aprendeu a ser vendedora de sonhos e de esperana num ambiente 
em que a expectativa de morte contagiava as

pessoas. O casal saa com freqncia, e cada encontro era especial, mas um deles foi 
inesquecvel. Certa noite, Marco Polo manifestou a inteno de dar-lhe um presente 
marcante. Saiu do permetro urbano e levou-a para o campo. Parou o carro e convidou-a 
a sair. Pegou em suas mos e foram andando pela estrada. Enquanto caminhavam, 
chamou a ateno de Anna para a harmonia da natureza. - Todos os dias as flores 
exalam perfume, a brisa toca as folhas, as nuvens passeiam obscuras, mas no 
prestamos ateno. Oua a serenata de grilos!  um magnfico show incessante. Vendo 
a sua maneira simples de encarar a vida, ela perguntou: - O que  a felicidade para 
voc? Surpreendendo-a, ele a assustou, dizendo: - A felicidade no existe, Anna... 
Apreensiva, ela subitamente inquiriu: - Voc me amedronta! Qual  a esperana para os 
que vivem na misria emocional? O que posso esperar da vida, se tive tanta riqueza 
exteriormente e to pouco dentro de mim? Marco Polo completou: - A felicidade no 
existe pronta, no  uma herana gentica, no  privilgio de uma casta ou camada 
social. A felicidade  uma eterna construo. Respirando aliviada, ela indagou: - Como 
constru-la? Como um contador de histrias que passeia pela psicologia, ele fitou seus 
olhos e discorreu: - Reis procuraram aprisionar a felicidade com seu poder, mas ela no 
se deixou prender. Milionrios tentaram compr-la, mas ela no se deixou vender. 
Famosos tentaram seduzi-la, mas ela resistiu ao estrelato. Sorrindo, ela sussurrou aos 
ouvidos de cada ser humano: "Ei! Procureme nas decepes e dificuldades e, 
principalmente, encontre-me nas coisas annimas da existncia." Mas a maioria no 
ouviu a sua voz, e os que a ouviram deram pouco crdito. - Que lindo! Fale mais sobre 
o que  ser feliz, meu imprevisvel poeta. - Ser feliz  ser capaz de dizer "eu errei",  ter 
sensibilidade para falar "eu preciso de voc",  ter ousadia para dizer "eu te amo". 
Lembrando de seu pai, ela expressou condoda: - Muitos pais morrem sem jamais ter 
coragem de dizer essas palavras aos filhos. Esquecem das coisas annimas. -  verdade. 
Tropeamos nas pequenas pedras e no nas grandes montanhas. Olhando para ele num 
clima de terno amor, ela falou de alguns temores reais e no frutos de sua doena. Como 
amava a poesia, tambm usou a inspirao. - Obrigada por voc existir. Mas tenho 
medo de que o nosso amor se evapore como o orvalho ao calor do sol. - Em alguns 
momentos, eu a decepcionarei, em outros voc me frustrar, mas, se tivermos coragem 
para reconhecer nossos erros, habilidade para sonharmos juntos e capacidade para 
chorarmos e recomearmos tudo de novo tantas vezes quantas forem necessrias, ento 
nosso amor ser imortal. - Eu o amo como nunca amei algum! - ela disse, tentando 
aproximar-se para beij-lo. Marco Polo subitamente deu um passo para trs e elevou o 
tom de voz: - Espere um pouco, mocinha! Voc entrou sutilmente na minha vida, foi 
ocupando espaos e,

sem me pedir licena, invadiu meu corao. Portanto... - fez uma pausa prolongada. - 
Fale! Estou ansiosa. - Aceita casar-se comigo, princesa? - disse sorridente, abaixando a 
cabea num gesto de reverncia. Beijaram-se. Dois mundos, duas histrias se cruzaram. 
Amoroso, ele cobriu seus olhos, sua testa e seu queixo de pequenos beijos. Em seguida, 
quis dar algo forte, nico, inesquecvel, que marcasse aquele momento e fosse capaz de 
simbolizar tudo o que ele sentia por ela e revelasse o tipo de homem que ela encontraria. 
Um homem incomum tinha de dar um presente incomum. A lua estava minguante e o 
cu lmpido. Abrindo os braos, ele perguntou: - Anna, olhe para o alto. Observe o 
teatro incompreensvel do universo. O que voc v? Curiosa, ela respondeu: - Vejo 
lindas estrelas. - Escolha uma estrela. Ela sorriu. Havia milhares de estrelas invadindo 
sua pupila. Anna escolheu uma estrela brilhante do lado esquerdo do firmamento. - 
Escolho aquela - disse, apontando. - De hoje em diante aquela estrela ser sua. Mesmo 
quando seu cu estiver coberto pelas tempestades, aquela estrela estar brilhando dentro 
de voc, mostrando os caminhos que deve seguir e revelando o meu amor. Anna 
flutuou. J ganhara presentes carssimos, colar de esmeraldas, anis de diamantes, 
carros ltimo tipo, aes na bolsa de valores, apartamentos, mas jamais se esqueceu de 
que ganhara uma estrela. Percebeu claramente que as coisas mais importantes da vida 
no podem ser compradas. Era riqussima, mas sempre vivera na misria. Ela guardou 
no recndito do seu ser o significado da estrela que Marco Polo lhe deu. Quem tem uma 
estrela em seu interior no precisa da luz do sol para se conduzir. Marco Polo tinha a 
profundidade de um pensador e a sensibilidade de uma criana. No sabia, mas tambm 
precisaria de uma estrela interior. Suas idias teriam alcance mundial. Lutaria pelos 
direitos humanos, tumultuaria ambientes e sociedades, atravessaria vales e planaltos e o 
cu desabaria sobre ele. Para sobreviver, precisaria enxergar com os olhos do corao.

Captulo 25

Anna anunciou ao pai sua inteno de se casar com Marco Polo. Lcio tentou impedir 
de todas as formas. Fez de tudo para que ela se apaixonasse por algum de sua classe 
social e poder financeiro, mas no teve xito. "Imagine, um psiquiatra em minha 
famlia, vigiando meus passos. No suportarei", pensava. "Preciso de algum que 
multiplique meus bens e no que aponte meus problemas", refletia. Tentou mais uma 
vez seduzi-la: - Filha, no  por causa do dinheiro, mas h filhos de banqueiros e de 
industriais fascinados por voc. So pessoas do seu ambiente e do seu meio. Voc se 
sentir menos deslocada. D uma chance para eles. - J namorei alguns deles e aumentei 
meu vazio. - Que vazio? O que esse rapaz tem de especial? - Marco Polo me ama 
intensamente. Alm disso, ele ama o ser humano,  preocupado com a humanidade. - 
No seja ingnua, minha filha! As pessoas s so preocupadas com o prprio bolso. -  
uma pena que voc pense assim, papai. Quem vive para si mesmo s enxerga segundas 
intenes nos outros. Ele resmungou, mas, antes que rebatesse, ela perguntou: - Voc j 
se apaixonou por algum? Lcio claudicou. Nunca tivera uma exploso afetiva, nem 
pela me de Anna. Nos ltimos anos, s desfilava com mulheres bem mais jovens, 
algumas famosas, mas no amava ningum. A nica coisa que movimentava sua 
emoo era aumentar sua grande fortuna. Titubeando, respondeu: - Bom, no sei. Acho 
que sim. - Quem ama, no tropea no "achismo". O amor  a nica certeza da 
existncia, papai. Se nunca amou algum, nem minha me, jamais entender o que 
sinto. Lcio saiu desconcertado. Anna realmente estava diferente. Ele perdera o domnio 
sobre ela. Inconformado, dias depois fez mais uma tentativa. Disse que estava 
comprando uma casa na Inglaterra, conseguiria para ela um trabalho num excelente 
hospital e uma vaga para fazer doutorado em Cambridge. - Voc no precisa terminar 
seu namoro com Marco Polo  disse com esperteza. - Ser bom para o prprio futuro de 
vocs que continue seus estudos e se prepare melhor profissionalmente. Ela no aceitou. 
- Pai, a vida inteira esperei que voc se preocupasse realmente comigo, que conversasse 
sobre nossas vidas. - Eu trabalho para voc, minha filha. Tenho feito tudo ao meu 
alcance para faz-la feliz. Doulhe as melhores roupas de grife. Voc viaja duas vezes 
por ano, de primeira classe, para fora do pas. O limite do seu carto de crdito 
internacional  de 100 mil dlares. E qual  a jovem da sua idade que tem um Mercedez 
conversvel na garagem e um motorista  sua disposio? - Voc me deu muitas coisas, 
papai, mas esqueceu a mais importante. - Qual? - ele perguntou indignado.

- Esqueceu de me dar a si mesmo. No conheo seus sonhos, seus temores, suas 
lgrimas. Somos dois estranhos vivendo na mesma casa - falou, comeando a chorar. 
Abalado, ele tentou evitar o clima emocional. - Filha, voc  a rainha desta casa. - De 
que adianta ser uma rainha presa num palcio, vigiada por seguranas e com um pai que 
s vive para o trabalho? Lcio emudeceu, no sabia contrapor-se a essas verdades. 
Anna, ento, tocou num assunto que nunca havia tratado com o pai. - Pai, ns nunca 
falamos sobre a mame. Quem no dialoga sobre seu passado no o sepulta com 
maturidade, perpetua as suas feridas. A morte da mame  um tmulo aberto em nossos 
coraes. Voc nunca teve coragem de conversar comigo sobre sua doena e as causas 
que a levaram a tirar sua vida. Lcio ficou paralisado, sem reao. No conseguia 
organizar as idias. Este assunto era um tabu. Na casa dos Fernndez at os empregados 
estavam proibidos de coment-lo. O quarto que fora do casal vivia trancado, somente a 
faxineira e a arrumadeira entravam l uma vez por semana. Lcio pensou vrias vezes 
em mudar de casa, mas seu palacete era belssimo, uma manso nica, embora triste. 
Acabou apenas mudando de quarto. Como o pai no se manifestava, Anna, lembrando-
se da pergunta fatal que Marco Polo lhe fizera sobre sua me, tambm fez uma pergunta 
fatal para seu impenetrvel pai. Ansiava ajud-lo. - Voc tem sentimento de culpa pela 
morte da mame, papai? - Culpa? Eu? Que absurdo! No me acuse! - No estou 
acusando, papai, estou perguntando. Estou pedindo para voc olhar para seu interior 
sem medo. As reaes sbitas e eloqentes de Lcio indicaram que a pergunta tinha 
mexido com os pores da sua mente. Procurando desesperadamente evitar o contato 
com o espelho da sua alma, ele olhou para o relgio e disse resolutamente: - Tenho um 
compromisso importante. Preciso ir. Percebendo que ele entrara no desconhecido 
terreno da prpria sensibilidade, ela insistiu: - Espere! Papai, os grandes homens 
tambm choram... Os olhos dele lacrimejaram. Um acontecimento raro para quem no 
se permitia a doce e aliviadora experincia do choro. Sofria muito, tinha insnia e 
perodos de angstia, mas negava a dor. Suas lgrimas sempre ficaram submersas sob 
seus rudes comportamentos. Ao perceber que elas tinham sado da clandestinidade e 
subido ao palco dos seus olhos, rapidamente tentou escond-las. No admitia que um 
espectador contemplasse sua fragilidade, pois somente a glria podia ser admirada. A 
pedra de gelo da sua emoo estava derretendo, mas, antes que o sentimento irrigasse 
sua inteligncia com afetividade, ele se esquivou. - Depois conversaremos sobre os 
grandes homens... - e saiu apressadamente, sem mostrar a face e sem dar chance para a 
filha continuar o dilogo. Lcio Fernndez evitava todas as conversas e situaes que o 
remetessem  interiorizao, no se permitia crescer. Jamais reconhecera um equvoco, 
jamais pedira desculpas nem ajuda emocional. Era um homem doente que contribua 
para formar pessoas doentes. Tinha algumas caractersticas respeitveis desde que o 
assunto fosse nmeros e dinheiro. Era empreendedor, arrojado e perspicaz. Sabia 
investir em novos projetos e farejar por onde caminhava a economia mundial, mas no 
tinha qualquer noo de por onde caminhava sua

qualidade de vida. Lcio tinha oito empresas, nas quais era scio majoritrio. Elas 
empregavam 11 mil funcionrios. Entre suas empresas havia um banco, uma indstria 
de computadores, uma fbrica de suco de laranja e mais recentemente uma indstria 
farmacutica. Alm disso, tinha participao minoritria em dezenas de outras 
empresas. Gostava de investir na Bolsa de Valores, comprar aes das empresas de 
tecnologia de ponta que se tornariam vedetes no mercado globalizado. Na maioria das 
vezes, acertava. Estava listado na revista Fortune como o 83 homem mais rico do 
planeta. Em seu pas era o 42 da lista. Sua fortuna girava em torno de quatro bilhes de 
dlares. Todo ano, o maior prazer de Lcio era melhorar sua classificao nas duas 
listas. O poder e o prestgio gerados por essas listas tornaram-se sua droga. Pensava 
nelas obsessivamente durante todo o ano. Marco Polo no sabia o quanto seu futuro 
sogro era rico. Nem Anna tinha essa noo, pois era desligada, desapegada. Os dois 
nunca falaram sobre o dinheiro de Lcio. Por subir nos bancos das praas e fazer 
poesias, ter uma exploso emocional com as pequenas coisas, cuidar dos feridos da 
alma, romper paradigmas e confrontar preconceitos, Marco Polo pressentia que o 
dinheiro de Lcio poderia ser um grande problema para ele e Anna. Queria ser 
riqussimo em seu mago. Rejeitava ser massificado pelo sistema social. Ansiava fazer 
da sua histria uma experincia nica, exultante, em que cada dia fosse um novo dia. 
Almejava incluir Anna nesse projeto existencial, mas preocupava-se com as 
dificuldades que ela atravessaria ao seu lado. E tinha razo. Por isso, questionou-a: - 
Anna, o sofrimento humano me perturba. Um dia vou sair do meu consultrio e me 
dedicar aos grandes temas sociais. Desde meu primeiro ano de faculdade de medicina 
este desejo me domina. Viver comigo poder ser muito inseguro. Temo por voc. Com 
seu pai, voc no correr riscos. - Mas no terei aventura! - Com ele, voc ter proteo. 
- Mas no terei paz interior! - Com ele, voc ter o melhor padro de vida. - Mas no 
terei conforto! O rapaz ficou pensativo. E, antes que proferisse outra frase, ela 
acrescentou: - Marco Polo, s vezes acho que o conheo muito pouco, mas o pouco que 
conheo me d a certeza de que voc  a minha escolha. Pressinto que ao seu lado meu 
amanh ser imprevisvel. Mas o amanh no existe - disse sorrindo. Beijaram-se. Ao 
afastar os lbios dos dele, ela inclinou um pouco a cabea e brincou: - Mas, por favor, 
quebre menos a rotina e arrume menos problemas. - No consigo - ele afirmou com 
alegria. E no conseguia mesmo. Passada uma semana, Anna e Marco Polo procuraram 
o poderoso Lcio para marcar a data do casamento. Os transtornos foram inevitveis. - 
Vocs so precipitados! Deveriam esperar mais tempo  retrucou o pai. Marco Polo 
insistiu: - No h o que esperar, ns nos amamos. Ento, sem delicadeza, Lcio 
comentou: - Amor! Amor  um interesse disfarado. - Papai, no fale assim! Eu amo 
Marco Polo!

No havendo como impedir o casamento, Lcio tentou bloquear radicalmente o golpe 
do pretendente. No queria que Marco Polo tivesse acesso s suas posses. - S aceito 
que voc se case com Anna se for com separao total de bens! Anna, indignada, 
retrucou: - Sou eu quem decide isso, papai! Marco Polo, intrpido, interferiu, dizendo: - 
Pois eu s me caso com sua filha se levar toda a sua fortuna! Anna se espantou. Lcio 
levantou-se irado com a petulncia dele. Esbravejando, bradou: - Est vendo, minha 
filha? Eu lhe disse que este rapaz era ambicioso! Mostrou a verdadeira cara! Caia fora 
enquanto  tempo! Em seguida, olhou para Marco Polo e acrescentou: - Jamais voc 
tocar em minha fortuna. H um batalho de advogados de olho em voc. Anna estava 
chocada com o rumo da conversa. Marco Polo levantou-se e confirmou: - Sim! Sou 
ambicioso. S me caso se levar toda a sua fortuna, pois para mim sua nica fortuna  
Anna. O resto no tem valor. No quero um tosto do senhor. Anna ficou deslumbrada, 
nunca fora to valorizada. Seu intratvel pai caiu do pinculo do seu orgulho. O 
casamento foi marcado para trs meses depois. Fariam um casamento civil em pblico 
e, posteriormente, o religioso, em particular. O religioso seria ecumnico e contaria 
apenas com algumas pessoas, em especial o amigo de Deus - Falco. Os pais de Marco 
Polo, Rodolfo e Elisabete, moravam em outro estado e estavam felizes com o casamento 
do filho. Rodolfo vivia com dificuldades financeiras. Era um comerciante que gostava 
de ajudar as pessoas, mas no conseguia cobrar dos que lhe deviam. Socivel, afetivo, 
bem-humorado, gostava de ter longas conversas com os amigos. Elisabete era 
descendente de uma famlia rica. Seus avs foram latifundirios, grandes proprietrios 
de terra. Os pais dela viveram de forma nababesca. Tinham os melhores carros, as 
maiores casas, as mais belas roupas. Elisabete vivera uma vida regalada na juventude. 
Mas seus pais, como seus tios, dissiparam a herana. Foi-se o dinheiro, ficaram as jias 
e permaneceu a pose. Era uma mulher recatada, de gestos comedidos e de poucos 
amigos. Apesar da sua ambio, era uma mulher de fibra, batalhadora. Os pais de Marco 
Polo no tinham recursos para contribuir com a festa. Lcio Fernndez tomou a frente. 
Disse que fazia questo de dar a maior festa para Anna. O jovem casal recusou o luxo. 
Lcio, ento, afirmou que faria um evento simples, capaz de combinar com o estilo de 
vida dos noivos. Mentiu. Sigilosamente contratou o melhor buf da cidade. Alugou para 
a festa o salo nobre do mais imponente hotel cinco estrelas, do qual era scio, e 
mandou preparar uma decorao requintada. A festa no tinha a cara da noiva, mas do 
seu pai. Sob o controle de Carlos, o mordomo, e de uma dzia de funcionrios das 
empresas de Lcio, fizeram secretamente no apenas os preparativos do casamento, 
como tambm uma enorme lista de convidados. A maioria no tinha relacionamento 
com Anna. Lcio convidou grandes empresrios, celebridades, deputados, senadores, o 
governador do estado, ministros, o presidente do pas. O bilionrio era um homem 
muito influente. Gastou mais de 500 mil dlares no evento, uma quantia irrisria para 
algum to rico. O que era para ser uma simples festa tornou-se o maior acontecimento 
do ano. Colunistas sociais de

jornais e revistas foram convidados para cobrir o evento. Ocupados com o intenso 
trabalho, Marco Polo e Anna no perceberam o movimento em torno do seu casamento. 
Carlos e sua equipe foram eficientes. A magnitude da festa no objetivava apenas 
satisfazer o ego de Lcio ou expressar sua megalomania usando o poder financeiro para 
encantar as pessoas. Desejava realmente premiar sua filha. A seu modo, ele a amava. 
Alm disso, procurava diminuir a enorme dvida que tinha em sua conscincia. Nos 
raros momentos de lucidez, atormentava-se com a idia de ter abandonado as duas 
mulheres de sua vida: a esposa e a filha. Queria compensar Anna pelos erros que 
cometera e por seu passado deprimente. Como no aprendera a falar a linguagem da 
emoo, falou a nica linguagem que conhecia - a do dinheiro. Imaginava que uma festa 
memorvel poderia redimi-lo.

Captulo 26

Enfim, o grande dia! Marco Polo chegou no salo uma hora antes de Anna e ficou 
espantado com a presena de tantos estranhos. Assustou-se, pensando que entrara no 
ambiente errado. Havia cinco seguranas trajados a carter identificando as pessoas e 
checando a lista. Carlos tinha dito aos seguranas que havia uma lista oficial, a de 
Lcio, e outra, com o nome de algumas outras pessoas: os convidados de Marco Polo e 
Anna, dos quais deveria exigir-se apenas a identificao e o convite. Os seguranas 
acharam estranho haver duas listas, mas ordens so ordens. Marco Polo se identificou. 
Pelo nome o reconheceram. - Parabns pela grandiosa festa! - disseram os seguranas. 
O rapaz apenas movimentou levemente a cabea em agradecimento e entrou. Os lustres 
cintilantes, os tapetes persas espalhados pelo cho, as dezenas de buqus de flores 
distribudos em mltiplos locais saltavam aos olhos. Havia mais de duzentos e 
cinqenta mesas, todas ricamente decoradas, com taas de cristal francs. Vinhos das 
melhores safras seriam servidos. As festas de Lcio eram famosas, ele no poupava 
esforos para agradar os convidados. Mas esta era singular. O psiquiatra pensador, 
poeta, desprendido, destemido, que tinha corao de andarilho, ficou embaraado. 
Marco Polo no acreditava no que via. O que mais o espantava era a presena dos 
estranhos. Havia mais de setecentos convidados e ele conhecia menos de 10% deles. 
Tentava cumprimentar com a cabea os presentes, mas eles no respondiam. No o 
conheciam, no sabiam que era o noivo. No estavam ali por causa dele. Havia mais de 
sessenta garons servindo freneticamente os comensais. Uma equipe com trinta 
seguranas vestidos de terno azul-marinho transitava pelo salo. Ao encontrar Lcio, 
preferiu ser mais amigo do silncio do que das palavras. Sabia que qualquer crtica 
redundaria em discusso, o que estragaria o momento sublime. Apenas pensou: 
"Realmente este homem no gosta de mim!" Sabia que Anna desconhecia os 
preparativos do pai. Lcio foi receber pessoalmente alguns convidados especiais. Levou 
Marco Polo consigo. Ele se deixou levar. - Senhor governador, primeira-dama. A festa 
lhes pertence - disse radiante. - Ah, este  o meu futuro genro - apresentou sem muita 
espontaneidade. Assim, ambos cumprimentaram cerca de vinte personalidades, entre as 
quais alguns riqussimos industriais e banqueiros que tambm constavam da famosa 
lista das grandes fortunas. Havia respeito entre os empresrios e um aparente desprezo 
por essa classificao, mas, no subsolo dos seus comportamentos, vrios eram 
seduzidos por ela. A inveja e a disputa corroam a alma de muitos. Ocorreu a Marco 
Polo que a somatria das fortunas dos convidados ao casamento dava uma quantia de 
150 bilhes de dlares, superior  soma do Produto Interno Bruto dos trinta pases mais 
pobres do mundo, incluindo os da frica Subsaariana, cuja populao ultrapassava 350 
milhes de habitantes. Porm ningum estava preocupado com os miserveis. O que 
importava era a festa. Marco Polo, que aprendera a pensar com um mendigo e vivera 
entre os miserveis, agora se encontrava entre os multimilionrios. A festa, que deveria 
ser um motivo de alegria, prenunciava

ser uma fonte de preocupao. No entanto, ele sempre discursara afirmando que no h 
ricos ou pobres, famosos ou annimos, todos so seres humanos com necessidades 
internas semelhantes. Ao lembrar disso, recomps-se. Um pensamento saltou em sua 
mente e aquietou sua emoo intranqila: "No  o ambiente que faz meu humor, mas 
meu humor que faz o ambiente. Serei feliz." Preferiu relaxar. Anna merecia. O 
secretrio de segurana do estado, o Dr. Clber, tambm estava presente. Como era 
amigo pessoal de Lcio, fez-lhe um favor: mandou que um batalho de policiais 
estivesse pela redondeza e colocou cinqenta membros de elite da polcia anti-seqestro 
disfarados entre os convidados. O objetivo era proteger os grandes empresrios e 
polticos importantes de possveis ataques. Marco Polo procurou seus amigos, mas teve 
dificuldade em localiz-los, pois estavam perdidos na multido de estranhos. Sua me 
vibrava eufrica com o luxo da festa. Era tudo o que sonhara para o filho. Recordou os 
ureos tempos da vida abastada. Um piano e um conjunto de violinos tocados por 
profissionais do maior gabarito animavam o ambiente. O juiz mostrava-se ansioso para 
comear o cerimonial. Estava deslumbrado com a magnitude da festa, nunca abrira a 
boca para pessoas to ilustres. Anna estava terminando de se arrumar. De repente houve 
um tumulto na porta do salo. Alguns seguranas barraram umas 15 pessoas 
malvestidas, com comportamentos bizarros, fazendo trejeitos com a cabea e 
movimentos involuntrios com os membros superiores. No grupo barrado, alguns no 
portavam identidade nem convite; disseram que os tinham esquecido. Mas mesmo os 
que os portavam foram barrados. Os seguranas imaginaram: "No  possvel um 
milionrio se misturar com esse tipo de gente." As pessoas barradas comearam a gritar 
pedindo passagem e produzindo um tumulto na entrada do salo, atrapalhando os nobres 
convidados que chegavam. Alguns deles indagaram dos seguranas: - O que essa gente 
est fazendo na festa de Lcio? - No sabemos, doutor, mas j os estamos expulsando. 
O grupo pressionava para dentro, mas os seguranas, cada vez mais agressivos, os 
empurravam para fora. O chefe da segurana contratado por Lcio chegou. Informado 
da situao, observou os amotinadores e confabulou baixinho com os outros seguranas. 
- Essas pessoas certamente so penetras. Perderemos o emprego se as deixarmos entrar. 
No podemos perturbar as autoridades e a elite financeira. Mandem todos embora, mas, 
por favor, sem escndalo. O grupo resistiu, o tumulto aumentou. Lcio foi informado da 
confuso e ficou visivelmente transtornado. Acionou o secretrio de segurana, que por 
sua vez acionou sua equipe interna, imaginando que criminosos estivessem presentes. 
Chegando ao local, o chefe de segurana disse ao Dr. Clber: - Essas pessoas parecem 
ter sado de um hospcio. Dizem que so amigos do dono da festa. Como isso  
possvel? Observando-os, o secretrio disse baixinho: - Cuidado! Podem ser terroristas 
ou seqestradores disfarados! Em seguida, com um olhar, pediu para os policiais anti-
seqestro agirem. Os policiais corpulentos pegaram nos frgeis braos de Jaime, de 
Isaac, de Ali Ramadan, de Vidigal, de

Romero, de Cludia, de Sara, de Maria, do idoso e gentil Sr. Bonny, comearam, a 
revist-los e em seguida a expuls-los. Eles tinham ido  festa porque Marco Polo os 
fizera sentirem-se seres humanos, estrelas nicas no palco da vida, ainda que fosse um 
palco sem platia. No podiam deixar de agradecer a um amigo to sbio e to caro. 
Agora eram novamente tratados como lixo social. Isaac os trouxera. Isaac era um 
homem mais rico do que vrios convidados da festa. Vestia-se de maneira to simples 
que parecia no ter uma empresa com novecentos funcionrios. Isaac alargara os 
horizontes da viso sobre a existncia. No tinha necessidade de ostentao. A doena o 
abatera, mas no eliminara sua ousadia, sua garra e criatividade. Tornara-se um 
empresrio que s via sentido em pisar no solo do capitalismo e conquistar mais 
espaos financeiros se isso fosse contribuir para o bem-estar dos seus funcionrios e da 
sociedade. Sempre gostara de empregar legalmente imigrantes chineses, rabes, 
indianos, latinos. Conhecia pela prpria experincia a dor da solido de viver em terra 
estranha. Depois ter superado sua doena mental, comeou a empregar tambm egressos 
de hospitais psiquitricos. Realizou uma solidria incluso social. Seus empregados o 
amavam. Como Cludia no tinha dinheiro para comprar uma roupa nova, escolhera um 
vestido longo vermelho, sobreposto por um blazer preto. As duas peas tinham mais de 
vinte anos de existncia e eram o melhor que ela possua. Alm de no combinar, 
contrastavam com o luxo das roupas das demais mulheres da festa. Para Cludia, o 
importante era sentir-se confortvel internamente e demonstrar para Marco Polo que, 
atravs dele, ela aprendera a resgatar seu sentido de vida e a ser til para a sociedade. 
Tambm no tivera recursos para comprar um presente, mas fez da sua presena um 
presente inesquecvel. O grupo chamava a ateno de todos. Normalmente os pacientes 
com depresso, sndrome do pnico e outras doenas emocionais passam despercebidos 
aos olhos sociais, mas os amigos de Marco Polo eram portadores de transtornos mentais 
graves e crnicos. Alguns esfregavam freqentemente as mos no rosto e no peito. 
Outros, como Jaime, traziam seqelas dos longos anos de medicao. Faziam 
movimentos musculares repetidos, parecendo mal de Parkinson. Para pessoas 
preconceituosas, no constituam uma paisagem agradvel. Algumas convidadas os 
olhavam de cima a baixo, estarrecidas. Eles no pareciam pertencer ao mundo dos 
mortais. Sara disse delicadamente para uma delas: - Eu no mordo, madame! Tambm 
sou gente. No meio da agitao, a esposa de um importante senador fez um ar de 
desprezo e espanto diante de Cludia. Esta observou-a, com a sensao de que a 
conhecia. - Voc no teve aula de dana comigo na sua infncia? Perturbada, a outra 
exclamou: - Professora Cludia?! - Sim. Sou eu. - Que bom v-la! - e saiu apressada. Os 
policiais estavam perdendo a pacincia. Como empurrar no adiantava, comearam a 
arrast-los. Alguns diziam: - Saiam, seno sero presos! Outros adicionavam: - No 
perturbem, seus penetras! Esta festa  para gente grande.

Frgeis pela doena psiquitrica e pelo uso prolongado de medicao, alguns 
comearam a tropear e a chorar. Subitamente, Jaime gritou: - Marco Polo! Marco Polo! 
- Todos os seus amigos o acompanharam em coro. O barulho ecoou no interior do salo. 
Marco Polo, que at o momento no sabia da confuso, ficou assustado. Reconheceu 
aquelas vozes. Rapidamente dirigiu-se para a porta de entrada. Ele convidara seus 
amigos e torcia para que viessem, mas sabia que alguns deles procuravam isolamento, 
no gostavam de freqentar ambientes sociais estranhos, pois percebiam os olhares 
discriminatrios. Esquecendo-se dos riscos, foram  festa para mostrar seu gesto de 
amor. De repente, ao ser empurrado com violncia, Ali Ramadan caiu. Sua expresso 
facial de dor e suas lgrimas levaram Isaac a se desfazer do segurana que o agarrava 
para socorrer o amigo. No se tratava de um palestino e um judeu, mas de dois seres 
humanos se ajudando. Isaac levantou cuidadosamente seu amigo e interpelou o policial: 
- Quem voc pensa que , seu bruto? Os seguranas e os policiais de elite no gostaram 
da sua atitude e o empurraram violentamente, bem como aos outros. O caos se instalou 
e ningum se entendia. Nesse nterim, Marco Polo chegou e exigiu: - Parem! Parem! 
Diante do noivo, os seguranas e os policiais se aquietaram. Para o espanto de todos 
aqueles homens e de todos os curiosos que se aproximaram, o noivo exclamou: - 
Cludia, querida, que bom v-la! Jaime, voc aqui, que prazer! Isaac, Ali, meus 
queridos amigos! Ele os abraava e beijava na face e na testa. O Sr. Bonny disse 
timidamente: - Marco Polo, no nos quiseram deixar entrar na festa! - Como no, Sr. 
Bonny? Vocs so os convidados mais esperados desta festa, pelo menos para mim e 
para Anna. O secretrio de segurana ficou perplexo. Havia muitos anos, quando era 
apenas delegado, tivera a mesma sensao diante de um jovem vestido de mendigo que 
aparecera na sua delegacia. De repente, os olhares de Marco Polo e do secretrio se 
cruzaram. Marco Polo estava abraado a Cludia, mas soltou sua voz: - Grande crebro! 
Voc aqui! Desta vez o secretrio ficou estarrecido: -  aquele mendigo, mas agora 
vestido de noivo! No  possvel! - Continua sendo delegado? - Hoje sou secretrio de 
segurana e amigo do seu sogro - falou todo orgulhoso. E adicionou: - Fui longe em 
minha carreira. E voc me deu fora. Nunca esqueci de que voc me disse que meu 
crebro era avantajado. Marco Polo engoliu em seco. Pensou novamente no poder do 
elogio, que  capaz de estimular a autoconfiana das pessoas. Ao mesmo tempo, refletiu 
sobre o poder da rejeio que, mesmo em tom de brincadeira, sem inteno de 
machucar, pode provocar um estrago na personalidade dos outros. "Ainda bem que o 
delegado no descobriu que, brincando, diminu o nmero de seus neurnios", pensou. 
Marco Polo estava preocupado com a discriminao que seus amigos sofreram na 
entrada do

salo. Tal rejeio poderia reduzir a p a auto-estima deles. Precisava reparar essa 
injustia. O secretrio coava a cabea ao v-los. - Parabns, secretrio! Realmente o 
senhor foi longe em sua carreira. - Parabns para ns! A vida  irnica. Hoje voc  o 
centro da festa e eu sou o centro da segurana dela. Em seguida, Marco Polo desfez o 
mal-entendido. Para no deixar dvidas, proclamou em voz bem alta para todos 
ouvirem, tanto os estranhos como os prprios amigos: - Essas pessoas so meus 
convidados especiais! Esto entre os meus melhores amigos! Alguns convidados 
ficaram chocados. Comentaram entre si que tinham entrado na festa errada. Do outro 
lado, os amigos de Marco Polo ajeitavam orgulhosamente suas roupas, olhando os 
seguranas com ar de grandeza. Ali Ramadan abordou Marco Polo perguntando: - 
Existem extraterrestres? Temendo que as alucinaes de Ali tivessem voltado, ele 
repetiu a velha frase: - No sei. Mas sei que criamos monstros dentro de ns. - Olhe 
quantos ETs fora de ns - disse apontando com o queixo para os seguranas. Marco 
Polo sorriu. - So estranhos mesmos, mas, no fundo, so boas pessoas, Ali. Cludia 
bateu no rosto de um segurana e, com a ingenuidade de uma criana, disse-lhe: - 
Bonito! A festa  nossa! Anna conhecia uma boa parte desses amigos de Marco Polo. 
Apreciava a singeleza, a inocncia e a criatividade deles. Certamente iria alegrar-se 
muito ao v-los ali. Antes de entrarem no grande salo, duas famosas atrizes de cinema, 
amigas de Lcio, chegaram ao local perseguidas por alguns reprteres. Uma delas 
tropeou em Sara e caiu. Sara tambm se desequilibrou e foi ajudada por Cludia. 
Irritada com as duas, a atriz encarou-as e espantou-se com os gestos bizarros que faziam 
com os braos e cabea. Chamou o segurana e perguntou com alarde: - Que povo 
estranho  este na festa de Lcio? Marco Polo, vendo suas amigas novamente 
humilhadas, disse  atriz: - De todo o lixo produzido pela sociedade, o culto  
celebridade  o mais estpido. Abalada com a coragem do desconhecido, a atriz 
esbravejou: - Quem  voc para dizer isso? Voc no sabe que sou uma famosa artista! - 
Elas tambm so atrizes do teatro da existncia. J ganharam at um Oscar pelo drama 
que viveram! - falou apontando para Sara e Cludia. - Puxa! Mas eu no as conheo! - 
comentou admirada. - Deveria conhecer. Elas so fascinantes. Cludia e Sara toparam a 
brincadeira. Disseram para as atrizes: - Queridas, depois lhes damos um autgrafo. E, 
tomando-as pelo brao, Marco Polo levou-as para o salo junto com todos os seus 
amigos. Ao entrar pela passarela central, por onde Anna passaria, os convidados ficaram 
paralisados e fizeram um silncio fnebre. Os msicos pararam de tocar. Os gestos 
incomuns e os movimentos involuntrios daquelas pessoas agrediram os olhos dos 
ilustres convidados. No estavam acostumados a conviver com pessoas diferentes. 
Cludia, abraada por Marco Polo, olhava e fazia caretas para os convidados. Romero 
estava envergonhado, cabisbaixo, mas Vidigal, muito solto, cumprimentava todos os 
presentes. Jaime

estava um pouco constrangido, mas logo se libertou ao beijar varias flores que 
encontrou pelo caminho. Ali Ramadan entrou pomposo. Com um leno na mo direita, 
rodando-o em torno da cabea, danava msica rabe enquanto entrava no salo. Era 
um palestino feliz. Isaac andava sorridente. No devia nada a ningum e no exigia nada 
de ningum para ter bem-estar. Enfrentar aquela presso no era nada comparado s 
presses que j havia suportado. Marco Polo observou, um pouco afastado, um senhor 
que no apenas discriminava seus amigos, mas estava assombrado ao v-lo. Parecia 
querer engoli-lo com os olhos. Balbuciou entre os lbios: - Cretino! Ao perceber o que o 
homem dissera, Marco Polo ficou perplexo. No podia acreditar que um convidado o 
tivesse ofendido em seu prprio casamento. Pensou que era coisa da sua cabea, afinal 
de contas a noite estava estressante.  medida que o grupo avanava, os convidados se 
entreolhavam querendo entender o que ocorria. Alguns, em tom de chacota, diziam: - 
Lcio preparou um show circense para ns. Na realidade, Lcio, ao ver a cena, ficou 
borbulhando de raiva. Queria estar em qualquer lugar do mundo, menos nessa festa. 
"Que vergonha! O que vo pensar de mim!", dizia para si mesmo com um n na 
garganta. Antes de os amigos de Marco Polo se acomodarem, Lcio foi chamado, 
porque a noiva havia chegado. Como pai, deveria introduzi-la no salo. Saiu em estado 
de choque, sem olhar para os convidados. Alguns psiquiatras tambm ficaram 
perplexos. Nunca tinham visto pacientes portadores de psicose na festa de um 
psiquiatra. Antes de se sentar, Jaime passou prolongadamente os olhos pela multido. 
Viu homens e mulheres preocupados, tensos, com posturas eretas, rgidas, dosando 
comportamentos e sem manifestar alegria na fenomenal festa. Admirado com a prpria 
observao, pegou no brao do noivo e expressou: - Marco Polo. Que povo es... estra... 
estranho! Analisando o comentrio do amigo, ele concordou: - Realmente so estranhos, 
Jaime!

C a p  t u l o 27

Anna chegou na festa. Tal como Marco Polo, ao ver o esquema de segurana, sentiu-se 
tensa. Quando entrou no salo oval, ficou pasma. Tentando ser discreta, indagou 
baixinho: - Papai, o que representa tudo isso? - Voc merece, minha filha. Ns 
merecemos. Focalizou de longe seu amado. Ele fez um gesto com as mos tentando 
alivi-la, como se dissesse: "Vamos fazer o qu? Relaxe!" O conjunto de cordas 
comeou a tocar a marcha nupcial. Parecia produzir um som celestial que percorria as 
artrias do corpo e penetrava no tecido da alma dos convidados. O vestido branco de 
seda, com poucas rendas, caa sobre o corpo de Anna, delineando-o de maneira sensual. 
O vestido era simples, mas ela estava deslumbrante. Por ser to bela interiormente, era 
Anna quem dava brilho s suas roupas, e no suas roupas a ela. Os cabelos cacheados 
com mechas douradas repousavam sobre seus ombros como ondas sobre a praia. No 
tinha grinalda, apenas carregava um pequeno buqu de lrios brancos na mo direita. 
Era a flor de que mais gostava, a que nascia nos pntanos, tal como ela. Ao v-la, os 
amigos do Hospital Atlntico comearam a aplaudir e assobiar, expressando jbilo. 
Ningum os acompanhou, apenas Marco Polo. O salo media oitenta metros. Enquanto 
Anna e o pai andavam lentamente, as pessoas, emocionadas, os cumprimentavam com 
gestos e olhares. Lcio sentiu-se um rei. Esqueceu por alguns momentos o tumulto 
inicial. Agradecia com a cabea os cumprimentos. Enquanto caminhava, resgatava 
imagens do passado de Anna. A sua pequena filha crescera e tornara-se uma pessoa 
encantadora. Ao se aproximarem de Marco Polo, o protocolo foi quebrado mais uma 
vez. Jaime e Cludia, que conheciam Anna, no contendo a alegria, levantaram-se e 
foram ao seu encontro. Lcio amarrou a cara. S no os ofendeu porque o momento 
exigia discrio. Vrios convidados tambm condenaram a atitude deles. Diziam entre 
si: - Que povo brega e sem cultura. Anna, humilde, os abraou sem o menor 
constrangimento e os beijou, borrando levemente a sua maquiagem. Uma das jovens 
mais ricas do mundo se enriquecera com bens de que muitos dos presentes eram 
carentes: a naturalidade e a simplicidade. Seus gestos foram um brinde para os olhos de 
Marco Polo. Felicssima, Anna ainda acrescentou: - Cludia, voc est magnfica! 
Jaime, voc est belssimo! Ali Ramadan gritou em voz alta: - Que flor! Que flor! Que 
Al a proteja! Isaac, do mesmo modo, bradou: - Que o Deus de Israel seja o seu cajado e 
a sua fora! Lcio, envergonhado, apenas movimentava as pupilas para ver as reaes 
dos convidados. Suando frio, entregou a filha ao noivo. Procurou ficar um pouco 
afastado deles. No queria ser fotografado ao lado daquela gente bizarra, no queria ser 
alvo de chacota nas colunas sociais.

Enquanto o juiz iniciava a cerimnia, uma pessoa aproximou-se furtivamente de Lcio e 
deulhe uma pssima notcia, que quase o fez desmaiar. Era o homem que balbuciara 
"cretino" para Marco Polo. - Sabe quem foi o psiquiatra que denunciou os efeitos do 
Venthax? -disse, como um predador diante da vtima. - O crpula que me fez perder 
cem milhes de dlares na bolsa de valores no ms passado? inquiriu Lcio. - 
Exatamente. - No me diga que o estpido do meu genro teve a coragem de convid-lo? 
Quem  o vilo? -  o seu prprio genro - disse o psiquiatra. E, com sarcasmo, 
adicionou: - Quem tem genro como o seu no precisa de inimigo. - O que voc me est 
dizendo, Dr. Wilson?! - bradou, profundamente abalado. Lcio, seis meses antes do 
debate de Marco Polo com o Dr. Paulo no congresso de psiquiatria, havia comprado 
60% das aes da indstria farmacutica que sintetizara o Venthax. Lcio j era o dono 
da empresa quando o Dr. Paulo foi subornado. A empresa prometia ser uma mina de 
ouro se houvesse uma aceitao macia da nova droga pela classe mdica. Marco Polo 
comeara a us-la logo aps o congresso e percebeu importantes efeitos colaterais em 
seus pacientes. Como foi desafiado pelo Dr. Paulo Mello, resolveu fazer uma pesquisa 
mais sria sobre esses efeitos. O resultado foi colocado num dos primeiros artigos que 
tinha publicado. O artigo sara h um ms numa revista cientfica e rapidamente ganhou 
destaque na imprensa mundial, em especial nos jornais e TVs. Lcio havia amaldioado 
o artigo, mas jamais passara por sua cabea que Marco Polo fosse o autor. Lcio repetia 
obsessivamente: "Todo remdio tem efeito colateral. Esto me perseguindo!" As aes 
do laboratrio caram 15% e continuavam em queda. Foi um desastre econmico. 
Diante dos fatos relatados pelo Dr. Wilson, Lcio mudou de cor, comeou a ficar 
taquicrdico, ofegante, suar frio, parecendo estar diante da pior situao de perigo. O 
perigo era Marco Polo. A falta de simpatia por ele se converteu em dio mortal. 
Imediatamente mandou um segurana chamar o secretrio de segurana. Ofegante, 
disse-lhe: - Precisamos interromper este casamento agora! - Voc est louco, Lcio? - 
No, mas vou ficar. - O que est acontecendo? - Acabei de descobrir que meu futuro 
genro  o meu pior inimigo. - Lcio, voc est brincando, ele  uma boa pessoa - disse o 
secretrio, transtornado. - Boa pessoa! Esse homem me fez perder cem milhes de 
dlares em um ms! O secretrio desmontou. No estava acreditando. Jamais 
presenciara um evento to perturbador. A festa, que j estava confusa, ganhou um clima 
de guerra. Enquanto isso o juiz dava continuidade ao ritual. - O que seu genro fez? Ele o 
roubou? - Quase isso. Ele acabou com a imagem de uma das minhas grandes empresas, 
o laboratrio Montex. Vou perder uma posio no ranking! - disse inconformado. - 
Ranking? - Deixa pra l. O Dr. Wilson esclareceu para o secretrio:

- O jovem psiquiatra denunciou na imprensa os efeitos colaterais de um dos nossos mais 
importantes medicamentos. - Ele sabia que a indstria farmacutica era de seu sogro? - 
perguntou o secretrio. Sem convico, o Dr. Wilson afirmou: - Claro que sim! Ao 
saber disso, a falta de ar de Lcio aumentou e ele comeou a ter vertigem. Os 
convidados mais prximos ficaram comovidos ao ver a cena. Pensaram que ele estava 
emocionado em casar sua nica filha. "Deve estar sentindo solido pela partida da Anna 
e a alegria de v-la mulher", imaginaram. Pensaram que ele estivesse recordando a 
pequena filha correndo e brincando e, agora, assumindo os desafios da vida. Um 
deputado federal sensvel aproximou-se, tentando consol-lo: - Eu o compreendo, 
Lcio. J casei uma filha. Fique tranqilo, agora voc ganhou um filho. Ao ouvir isso, 
Lcio sentiu um tremor sbito. Queria engolir o deputado, gritar com ele. Os dois 
amigos o seguraram. O deputado no percebeu o que estava ocorrendo. Movido de 
compaixo, voltou ao seu lugar. Em seguida, Lcio voltou  carga: - Um filho! Estou 
perdido! Termine esse casamento antes de comear! Anna entender quando eu 
desmascar-lo! - Calma, Lcio! - disse o secretrio. - Calma! Voc teve calma quando 
precisou de 50 mil dlares? Este sujeito pode me arruinar! Lcio Fernndez, como 
vrios de seus amigos, no estava preparado para ser um bilionrio. Ele gravitava na 
rbita do dinheiro, e no o dinheiro em sua rbita. Antes de enriquecer, era mais solto, 
sereno, socivel, despreocupado. Depois que se tornou um arquimilionrio, passou a ser 
controlador, autoritrio, ansioso, desconfiado. Precisava de muito para sentir pouco, e 
esmagou, assim, seu prazer de viver. Os empregados de seu palcio eram mais felizes 
do que ele. O dinheiro o empobrecera. Alm disso, Lcio tinha uma personalidade 
paranica. No chegava a ser uma psicose paranica, pois no rompia com a realidade, 
mas ele vivia atormentado com idias de estar sendo perseguido ou lesado. Vivia com 
medo de seqestros. Tinha trs carros blindados e andava com uma escolta de quatro 
seguranas. No bastasse isso, no confiava nem em seus amigos. Achava que todo 
mundo se aproximava dele por interesse. Mas, de todos os seus fantasmas psquicos, o 
de que sua filha casse nas garras de um aproveitador era o maior deles. Agora, aos seus 
olhos, seu maior pesadelo se materializava. O secretrio ficou acuado porque Lcio 
revelara que ele tinha precisado do seu dinheiro na frente do Dr. Wilson. Queria atender 
o dramtico apelo que lhe fora feito, mas, como a situao era delicadssima, ainda teve 
flego para retrucar: - Como interromper este casamento? J pensou no escndalo? Olhe 
para o governador. H mais de vinte deputados federais, dez senadores e trs ministros 
presentes. So raros os empresrios deste pas que renem pessoas to poderosas num 
mesmo lugar. Ento Lcio caiu em si. Embora muitos polticos dependessem do 
dinheiro dele para se eleger, o escndalo poderia gerar conseqncias imprevisveis. 
Ento, de relance, olhou para os amigos de Marco Polo e viu uma paisagem que o 
incomodou. - Olhem para esses miserveis. Eles no precisam representar. So o que 
so. Maldito escndalo! Precisamos de um libi!

C a p  t u l o 28

O cerimonial do casamento iniciou-se. O juiz elevou o timbre da sua voz e pronunciou 
as famosas palavras: - Se h algum no recinto que tem alguma coisa contra este 
casamento, fale agora ou cale-se para sempre. Lcio gelou. Queria gritar, mas no 
podia. Aps um momento de silncio, uma pessoa bradou na entrada do salo. - O noivo 
abandonou a sua criana! Os presentes fizeram um silncio mortal. Alguns comearam 
a passar mal. O juiz emudeceu. O acusador, ainda distante, insistiu: - Por que voc 
abandonou a sua criana? Elisabete sentiu falta de ar e pensou: "Jesus Cristo! Nunca 
aconteceu isso em nossa famlia." Os polticos e empresrios ficaram espantados. O 
secretrio de estado falou em tom baixo: - A festa do ano promete ser o escndalo do 
sculo. As mulheres exclamavam: - Que vergonha! Como algum pode abandonar um 
filho? Todos comearam a condenar Marco Polo. Lcio, num sobressalto, levantou-se, 
pegou no brao do secretrio e disse: - Esse  o nosso libi! Esse cara nunca me 
enganou! Chame os seguranas. Retire Anna imediatamente do local! - Calma, Lcio! 
Espere! - Esperar o qu? - Isto pode gerar uma agitao incontrolvel. A integridade 
fsica das autoridades poder ser colocada em risco! - disse trmulo. O homem estranho 
comeou a se aproximar e a bradar: - Voc deixou a criana chorando, sem respirar! 
Alguns convidados comentavam: - Assassino! Esse sujeito no vale nada! Anna sentia 
um n na garganta. Marco Polo tentava ansiosamente elevar os olhos para ver quem o 
denunciava. Seus amigos do Hospital Atlntico aquietaram at mesmo seus movimentos 
repetitivos. Quase no respiravam. A platia, atnita, queria alcanar o acusador com os 
olhos. O salo tornou-se pequeno para tanta indignao. O burburinho era intenso. O 
secretrio resolveu agir. Acionou vinte carros de polcia. Pediu que ficassem de 
prontido ao redor do hotel. Tambm colocou os cinqenta policiais disfarados a 
postos. Combinou que ao levantar a mo direita e abaix-la subitamente estaria dando o 
sinal para entrarem em ao. Iria retirar Anna, proteger Lcio, as autoridades e os 
empresrios mais importantes. Quando levantou a mo para dar o comando final, outra 
voz bradou vibrante no salo. Era a voz de Marco Polo: - Eu assumo minha culpa. 
Abandonei minha criana. O ativismo profissional e as preocupaes com a existncia 
roubaram meu tempo. Mas prometo-lhe que no a abandonarei mais.

As senhoras idosas comearam a dizer umas para as outras: - Que pai desnaturado! 
Como pde trocar o trabalho pela sua criana? Isso  desculpa! - Alimente-a com a 
sabedoria, nutra-a com a simplicidade, irrigue-a com a liberdade! No deixe sua criana 
morrer. Eduque-a. - O estranho falou com voz mais alta. Lcio expressou: - Alm de 
meu inimigo,  um pssimo pai. O escndalo j est causado. Vamos, acabe com isso! - 
disse ao secretrio, empurrando-o para que tomasse uma atitude. O suor escorria como 
gotas de chuva pela face do secretrio. Sabia que a confuso poderia ser tal que algumas 
pessoas correriam o risco de ser pisoteadas. Quando ia dar o comando pela segunda vez, 
viu Marco Polo pegando Anna pela mo e indo ao encontro do denunciante. Respirou 
fundo e pediu para que os cem olhos fixados nele esperassem. - Sim! Eu a educarei. - E, 
olhando para a sua noiva, exclamou: - Pedirei para Anna me ajudar a cuidar dela. 
Alguns, perplexos com a sua ousadia, diziam: - Irresponsvel! Fez o filho e agora quer 
que outra mulher o assuma. Lcio foi mais longe. - Canalha! Quer introduzir um 
bastardo na minha famlia. Tem de ser agora, secretrio! O secretrio ergueu pela 
terceira vez suas mos. No podia desagradar quem tanto o favorecera. Quando ia 
abaix-la e dar incio  agitao, outra voz ocupou o ambiente. Para a perplexidade dos 
presentes, em especial de Lcio, uma jovem que sempre fora frgil, tmida, insegura e 
que no se expressava em pblico entrou em cena. Anna exclamou: - Cuidarei da 
criana de Marco Polo como se fosse meu filho.  E olhando para os presentes, 
acrescentou: - E quem no deixar sua criana interior viver perder sua espontaneidade, 
destruir sua simplicidade, sufocar sua criatividade. Ser infeliz diante de Deus e 
diante dos homens. Transformar-se- num miservel, ainda que viva em palcios. Ser 
estril em sua inteligncia, ainda que seja um intelectual. Os deputados, os senadores, 
ministros, banqueiros, industriais e suas esposas quase tiveram um ataque de pnico 
coletivo. Ofegantes, passaram as mos no rosto, coaram as cabeas, entreolharam-se e 
ficaram profundamente abalados. O denunciante se aproximou. Marco Polo proclamou: 
- Falco, meu amigo! S faltava voc nesta festa! Ele e Anna o abraaram 
afetuosamente. E o beijaram. A platia saiu do assombro e aos poucos foi se 
deslumbrando. O irreverente Falco no poderia aparecer de outro modo. Ele nunca se 
preocupara com a maquiagem social. Neste sublime momento da vida de seu querido 
amigo, no se importou com formalidades nem se preocupou com o que os outros 
poderiam pensar das suas reaes. Queria dar publicamente o melhor presente que um 
ser humano pode dar: o seu corao. Seu jovem amigo estava se tornando famoso e 
saturado de atividade. Isso alegrava Falco e, ao mesmo tempo, o preocupava. Sabia 
que, se Marco Polo, bem como qualquer pessoa que atinge o sucesso, no tomasse 
cuidado, poderia destruir no mago do seu ser a criana curiosa, aventureira, ousada que 
ama, que cria, que sonha e que se encanta com a vida. Sabia que o nico lugar em que 
no era admissvel envelhecer era no territrio da emoo. Muitos convidados j haviam 
destrudo sua criana interior e viviam num asilo emocional. A existncia havia perdido 
o sabor. Viviam porque estavam respirando. No se questionavam, no

se interiorizavam e no percebiam que a vida e a morte eram fenmenos indecifrveis 
no teatro da existncia. Tornaram-se platia neste insondvel teatro. Movimentavam-se 
muito, mas no saam do lugar. Eram deuses ricos, famosos, mas falidos. Anna j havia 
estado com Falco algumas vezes. Concordava e aprendia com as idias dele e de 
Marco Polo. Eles a contagiaram com sua borbulhante alegria, sua coragem para explorar 
o novo e pensar diferente. Um ajudava o outro. Queria ser como eles, raciocinar como 
adulto e sentir como criana. Falco estava presente porque tambm queria agradecer a 
Marco Polo por ter rompido seus paradigmas e ajudado a resgatar seu filho. Marco Polo 
foi discpulo e mestre, filho e pai, indicando que os pequenos podem aprender com os 
grandes e os grandes podem permitir-se aprender com os pequenos. No h hierarquia 
no terreno da sabedoria. Aps ver sua filha e Marco Polo beijarem o estranho homem, 
Lcio no se agentou. Sentouse e s conseguia dizer: - Isso  uma miragem! O que 
est acontecendo? - No tenho a menor idia! - disse o secretrio limpando o suor do 
rosto com um leno. Alguns convidados, agora mais tranqilos, abriram o leque do 
pensamento e exclamaram: - Que pea teatral fabulosa. Nunca vimos isso. Lcio  um 
gnio! Outros, sob estado de choque, procuravam alvio nas altas doses de usque e 
vodca. Outros ainda, envoltos numa cortina de medo, temiam que sasse tiro no local. 
Apesar das reaes distintas, a maioria do pblico, sob intenso impacto, se aglomerou 
ao redor dos trs personagens, fazendo uma espcie de roda. Alguns subiram nas 
cadeiras e mesas para ver o espetculo. O juiz do cerimonial piscava os olhos sem parar, 
num tique nervoso. Confuso, perguntou ao pianista: - O casamento de milionrios  
sempre assim? Aps abraar Marco Polo e Anna, Falco recordou os velhos tempos das 
praas. Como se estivesse em cima de um banco, num ambiente completamente livre, 
proclamou para ambos: - Todo amor  belo em seu nascedouro, mas poucos resistem ao 
calor do sol. Que o amor de vocs suporte os testes da existncia! Rodopiando Anna 
pela mo esquerda, Marco Polo bradou: - Velejarei pelos mares da ansiedade, escalarei 
as montanhas dos medos e percorrerei os vales das decepes para no deixar o amor 
morrer! Farei tudo ao meu alcance para transformar esta bela mulher em princesa da 
minha histria! As senhoras que queriam crucificar Marco Polo mudaram de opinio. - 
Que rapaz romntico! Que prncipe!  de um desses que minha filha precisa. Em 
seguida, Falco se afastou um pouco de Marco Polo e comeou a cantar com sua voz 
estridente a msica que se tornara seu estandarte de vida, What a Wonderful World. 
Com as mos, encenava a melodia e apontava para as flores. Marco Polo o 
acompanhou. O piano e os violinos entraram em ao. Foi fenomenal. Enquanto 
cantavam, colocaram Anna no meio deles. No incio da msica, pediram licena em 
seus pensamentos a Louis Armstrong e mudaram completamente a letra, inventando 
algumas frases dirigidas  noiva. Para os dois pensadores, Anna simbolizava todas as 
pessoas que passaram pelo caos na infncia, por irreparveis perdas, mas, apesar disso, 
acreditaram que valeria a pena viver a vida. Sua superao os encorajava.

- A vida no a poupou, voc suportou tormentas, mas sobreviveu - cantou Marco Polo. - 
Obrigado por voc existir. Com voc, a vida fica mais doce - cantou Falco. - E eu 
penso comigo... Como voc  maravilhosa - cantaram os dois juntos. - Voc tropeou, 
feriu-se, mas no desistiu dos seus sonhos. - Voc brilha para ns, voc brilha para o 
mundo. - E eu penso comigo... Como voc  maravilhosa. A msica penetrou no tecido 
mais ntimo da psique de Anna, tornou-se uma atividade sublime do saber, alou vo da 
sua emoo, provocou-lhe um xtase e a fez chorar. A princesa que vivera numa 
masmorra se libertou. Enquanto chorava, um filme passava na sua mente, constitudo de 
belas imagens, da imagem de sua me abraando-a, tocando piano para ela, o primeiro 
encontro com Marco Polo, a conquista, a estrela que ele lhe deu. Raramente uma 
criana atravessou os desertos percorridos por Anna e raramente algum encontrou um 
osis to agradvel. Vrios convidados tambm desataram a chorar. Aps o canto em 
homenagem a Anna, Cludia entrou em cena. Gritou para os msicos: - Valsa! - E tirou 
Falco para danar. Sorrindo, fez um gesto com as mos abertas querendo dizer "Vamos 
nessa!". Os noivos tambm comearam a danar, livres e alegres. Os demais amigos de 
Marco Polo tambm entraram na dana e comearam a revolucionar a festa. 
Posteriormente, Cludia tirou outra pessoa para danar. Falco, entendendo o seu 
recado, tambm convidou outra senhora, a esposa de um banqueiro que jamais havia 
danado com o marido. Jaime chamou para danar uma senhora de meia-idade que era 
solteira. Marco Polo ps-se a danar com Dora. Anna tirou um amigo idoso de seu pai, 
de quem gostava muito. Os msicos ficaram eufricos, mas o juiz do cerimonial quase 
teve um ataque cardaco. Gritava: -Ainda no terminei o casamento! - mas ningum o 
ouvia. Isaac no sabia danar valsa. Ali Ramadan havia aprendido com Cludia. Vendo 
o amigo deslocado, o prprio Ali tentou ensin-lo. Sem receio de aprender, Isaac deu 
com o amigo os primeiros passos de dana. Foi a primeira vez na histria que se teve 
notcia de que um palestino e um judeu danaram juntos uma mesma valsa. De repente, 
apareceu o Dr. George na pista. Marco Polo alegrou-se intensamente ao ver seu ex-
professor de anatomia. Depois que o "vendaval" Marco Polo passara por sua vida, ele 
tinha revisto seus valores e sua rigidez. Sua esposa o suportara com herosmo, mas 
valeu a pena. O Dr. George aprendeu o caminho da afetividade. Tornou-se um homem 
dcil, gentil, socivel, que resgatou sua criana interior. Aprendeu a brincar com seus 
dois filhos. Na festa de aniversrio deles vestia-se de palhao para diverti-los. Fez 
tambm uma reviravolta na sala de anatomia. Sua primeira aula deixou de ser sobre 
tcnicas de dissecao de vasos sangneos e msculos e passou a abordar a crise 
existencial e os sonhos dos futuros mdicos. O mestre aprendeu a amar o debate de 
idias e no a submisso. Mudou tanto que pedia para os alunos investigarem a histria 
dos cadveres que iriam estudar. Se no a encontrassem, deveriam imaginar uma 
histria com sonhos, alegrias, perdas, desafios, para depois escrev-la e afix-la em cada 
mesa de anatomia em sinal de respeito s pessoas que ali estavam. O Dr. George 
montou uma associao chamada Um Ser Humano, Uma Fascinante Histria.

Esta associao objetivava ensinar alunos de outras faculdades a descobrirem o valor da 
vida e saberem que para tornar-se um grande mdico  necessrio ser um explorador, 
um Marco Polo que descobre grandes histrias por trs dos annimos. Em seguida, 
apareceu discretamente na pista o Dr. Flvio, o especialista em emergncia. Ele agora 
era chefe do setor em seu hospital. Aps Marco Polo cruzar a sua vida, entendeu que 
diante da dor e da morte no h gigantes nem heris. Tornou-se preocupadssimo com 
os conflitos que se escondem atrs das cefalias, das dores musculares, das dores no 
peito, das taquicardias, das crises hipertensivas. O Dr. Flvio, movido pela 
sensibilidade, montou a associao Ser Humano Integral. Esta associao, constituda 
de mdicos, psiclogos e psiquiatras, visava conscientizar, atravs de folhetos e 
palestras, os profissionais de sade das salas de emergncia de todos os hospitais do 
pas para dialogarem com seus pacientes. Desejava trein-los a ouvir com o corao e 
entenderem que tratavam de doentes e no de doenas, de seres humanos e no de 
rgos. O sucesso deste treinamento diminuiu as internaes, solucionou doenas e 
preveniu inmeros suicdios. Sua esposa, grvida de seis meses, fez questo de ir ao 
casamento de Marco Polo. Queria agradec-lo pelas mudanas em seu marido, embora 
Marco Polo soubesse que quem mudara de fato as suas rotas tinha sido o prprio Dr. 
Flvio. O progresso emocional do marido fez com que ela se sentisse a futura mame 
mais feliz do mundo. Eis que apareceu o Dr. Alexandre. Quando Marco Polo o viu 
danando com sua esposa, diminuiu o ritmo e o cumprimentou afetivamente. O nobre 
professor entendera que, se um dos maiores gnios da humanidade, Einstein, foi vtima 
e tambm agente do preconceito, ningum estaria livre deste mal. Fez ento algumas 
pesquisas e detectou que muita gente ainda pensava que quem ia a um psiquiatra era 
louco. Com a ajuda de Marco Polo, montou uma associao denominada Preconceito 
Nunca Mais para diminuir o estigma social dos pacientes psiquitricos e para elevar a 
auto-estima deles. Comeou a mostrar que no fundo todo ser humano possui alguma 
doena psquica, e a doena do preconceito  a pior delas. Apareceu por trs do casal de 
noivos, de um jeito suave, quase imperceptvel, um homem bemresolvido, sereno, 
equilibrado, sbio, um artista da psiquiatria. Era o Dr. Antony. Ele e a esposa, com 
quem estava casado h mais de quarenta anos, danavam como um casal de 
adolescentes. Os noivos pensaram: "Queremos envelhecer como eles", pois a maneira 
com que se olhavam revelava que eles tinham transformado a fase de menor fora 
muscular na fase de maior fora da emoo e da cumplicidade do amor. Depois que 
Marco Polo debatera naquele famoso congresso sobre a ditadura da hiptese da 
serotonina, sobre o confronto entre a psiquiatria e a psicologia e expusera sua complexa 
tese de que a psique humana coabita, coexiste e cointerfere com o crebro, o Dr. Antony 
e vrios professores ilustres de psiquiatria perderam noites de sono. Chamaram o jovem 
psiquiatra para montar uma sociedade cientfica destinada a estudar a ltima fronteira da 
cincia: a natureza da psique ou alma do Homo sapiens. Marco Polo, o Dr. Antony e 
seus amigos faziam reunies do mais alto nvel acadmico. Participar delas era como 
uma carcia na inteligncia. Alm disso, comearam a debater a possibilidade de a 
psiquiatria se tornar uma especialidade da psicologia e no apenas da medicina. De 
repente, saiu do lado esquerdo da multido uma pessoa apressada. Pedia licena com

insistncia. Caminhava eufrico em direo  pista de dana. Era o Dr. Mrio. Ao v-lo, 
Marco Polo parou de danar. Abraou prolongadamente ele e sua esposa. O Dr. Mrio, 
numa atitude inusitada, beijou-lhe o rosto. Em seguida, o diretor do Hospital Atlntico 
tomou sua esposa nos braos e no centro da pista comeou a mostrar seus dotes. 
Quando conheceu Marco Polo ele estava no terceiro casamento e em via de separao, 
mas, depois que o "furaco" Marco Polo passou pela sua histria, as muralhas ruram. 
Saiu do seu trono, deixou de ser um psiquiatra em casa, humanizou-se, tornou-se um 
cavalheiro. Seus trs filhos, gerados nos dois primeiros casamentos, estavam fazendo 
psicoterapia. O Dr. Mrio era especialista em critic-los, apontar seus erros e ser um 
manual de regras, mas, aps beber da fonte da espontaneidade e se tornar um danarino 
na vida, comeou a abra-los, beijlos, cativ-los, ouvi-los. Aprendeu a pedir 
desculpas, reconhecer suas falhas e ter coragem de dizer que os amava. Seus filhos 
ficaram simplesmente perplexos com ele. Descobriram afinal que tinham um pai-
psiquiatra e no um psiquiatra-pai. Rapidamente evoluram no tratamento. Deixaram, 
assim, de ser futuros hspedes de um hospital psiquitrico. O Dr. Mrio deu um salto 
to grande na compreenso da existncia que comeou a ministrar inmeras 
conferncias nacionais e internacionais, desestimulando a hospitalizao na psiquiatria. 
Entendeu que a internao psiquitrica causava rombos no inconsciente. Nos casos em 
que ela seria inevitvel, os hospitais deveriam envolver os pacientes com dana, teatro, 
artes plsticas, levando-os a sentirem-se teis. Contou com a ajuda de Dora e de outros 
psiquiatras. Cludia era uma das mais ativas, e Isaac tornou-se o maior patrocinador 
desse projeto. Isaac e Ali Ramadan tambm se tornaram sonhadores. Tinham longas 
conversas com Marco Polo para saber como poderiam fazer para ajudar o povo 
palestino e judeu a superarem seus conflitos. Gemiam emocionalmente a cada ataque 
terrorista dos palestinos e a cada retaliao de Israel. Choravam no mais por suas 
doenas, mas pelos seus povos. "O hospital em que estvamos internados era um 
ambiente menos sofrvel e perturbador do que alguns terrenos do Oriente Mdio", 
pensavam. Sob a orientao de Marco Polo, entenderam que, infelizmente, a violncia 
na Palestina matava fisicamente alguns e emocionalmente, milhes. No havia 
vencedores nesse conflito, todos eram vtimas. Acreditavam que - se palestinos e judeus 
se convencessem de que no eram duas raas ou duas culturas em conflito, mas seres 
humanos da mesma espcie, com necessidades psquicas semelhantes - grande parte das 
resistncias e desconfianas mtuas seria debelada. Os trs amigos batalhariam pela 
conscientizao e propagao desta idia. A exceo de Isaac, a somatria dos recursos 
financeiros dos reacionrios amigos de Marco Polo que montaram programas para 
ajudar a sociedade era irrisria. O saldo era quase negativo. Alguns tinham carros 
financiados, outros, casas penhoradas, e ainda outros, dvidas nos bancos. Mas, apesar 
disso, fariam uma revoluo social incomparavelmente maior do que a dos 
arquimilionrios na festa de Lcio, cujo "PIB emocional" era um dos mais baixos deste 
belo planeta azul. Dois meses antes do seu casamento, Marco Polo falara para Anna e 
Falco sobre algo que queimava em seu corao O princpio da co-responsabilidade 
inevitvel continuava controlandoo. Queria montar uma instituio chamada Ser 
Humano Sem Fronteiras para tratar dos conflitos sociais, dos confrontos raciais, da crise 
da educao, das misrias fsicas e psquicas. Alm disso, queria fazer um movimento 
mundial para pressionar as indstrias farmacuticas de

medicamentos psicotrpicos para investir parte de seus lucros na preveno de doenas 
psquicas. Sofreria graves conseqncias por essa ousadia. Marco Polo achava que a 
soluo para os graves conflitos humanos passava pela juventude e no pelos adultos. 
Todavia, entristecia-se em saber o que o capitalismo selvagem estava fazendo com o ser 
humano, em especial com as crianas de todas as sociedades modernas. Afligia-se ao 
tomar conhecimento de que na Inglaterra 78% das crianas a partir de dez anos tinham 
como passatempo predileto ir s compras. Era o que demonstrava o Conselho Nacional 
do Consumo do pas. Elas cresciam com uma ansiedade e insatisfao crnicas, porque 
no aprendiam a libertar sua criatividade e extrair prazer dos pequenos estmulos do 
ambiente. Na grande maioria dos pases, a situao dos jovens era semelhante. Falco e 
Marco Polo perturbavam-se com a fome fsica e emocional do terceiro milnio. A cada 
cinco segundos morria uma criana de fome no mundo, e a cada segundo assassinava-se 
a infncia de uma criana pelo consumismo. Poucos se importavam contra esses dois 
gravssimos crimes contra a humanidade. Os dois amigos rebeldes lutariam com todas 
as suas foras, at sua ltima gota de sangue, para que milhes de jovens de todas as 
raas, de todas as religies, de todas as culturas, deixassem de ser servos de um sistema 
social que entorpece a mente, rouba-lhes a identidade e os transforma em meros 
clientes. Queriam que eles se engajassem no projeto Ser Humano Sem Fronteiras, se 
apaixonassem pela humanidade, criassem projetos mundiais para transform-la. Para 
eles, os jovens deveriam atuar no palco da vida como atores principais e no morrer na 
platia, subjugados por uma vida individualista, ilusria, autodestrutiva, dependente, 
encarcerada pela rotina e amordaada pelos padres doentios de beleza. Marco Polo 
tinha falhas, precipitaes, momentos de ansiedade, mas conviver com ele era um 
convite para andar em solos nunca antes percorridos. Faria da sua histria uma grande 
odissia, to excitante como a de Marco Polo no sculo XIII. Iria envolver-se em 
grandiosas confuses, abalaria alguns pilares da sociedade, sofreria perseguies 
implacveis. Mas no mudaria seu jeito de ser, nem mesmo deixaria de abraar rvores 
e falar com as flores. O relacionamento com Anna arrebatou ainda mais sua coragem. 
Jamais se viu um casal to louco por aventuras. O tumulto na festa do seu casamento era 
um reflexo da vida que teriam. A desordem era to grande que havia risco de o 
casamento no se realizar. Marco Polo alegrou-se em ver seus amigos reunidos sem 
receio da vida. Aprendera com todos eles. Para delrio de Lcio Fernndez, no apenas 
os amigos de Marco Polo quebraram o protocolo. Alguns casais, incluindo empresrios, 
deputados, senadores e at um ministro, deixaram de ser espectadores e entraram na 
pista de dana. A maioria das autoridades, dos empresrios e das celebridades, no 
entanto, ficou irritadssima com Lcio, pois tinham vindo fazer contatos polticos e 
sociais, mas encontraram um bando de lunticos. Amarraram a cara, curtiram o velho 
mau humor. Havia outros psiquiatras presentes. Alguns acharam que estava havendo um 
delrio coletivo. Outros se soltaram, no fizeram exigncias para se relaxar, deram 
oportunidade ao prazer. Lcio comeou a ter crises histricas. Esfregava as mos 
repetidamente no rosto, rangia os dentes, seus lbios tremiam. Tornou-se um srio 
candidato ao Hospital Atlntico. Olhou para o secretrio, seu guardio, e repetiu: - 
Rapte minha filha, leve-a embora deste local ou vai haver um segundo suicdio na 
famlia! - Voc est maluco, Lcio!

- Quinhentos mil dlares pelo servio! - disse sem titubear. - Quanto? O secretrio 
vacilou. Nisso um casal o atropelou, enquanto danava. O assunto ficou 
momentaneamente truncado. Nunca mais houve um episdio chocante como aquele. O 
juiz do cerimonial, de meia-idade, j fizera o casamento de muitas pessoas, mas por 
insegurana nunca se casara. Durante o conturbado casamento ainda no concretizado, 
pensou, perplexo: " melhor no se arriscar." Foi um evento irreverente, de uma jovem 
que se encantou com um vendedor de sonhos que contagiou pessoas mutiladas que 
reconstituram suas vidas e que, apesar de todas as suas limitaes, aprenderam a danar 
a valsa da vida com a mente livre, sem medo de ser o que so e sem medo do amanh. 
No foi um final feliz, foi uma vrgula feliz, pois esta histria, assim como a vida, no 
tem um ponto final,  um eterno recomeo. A felicidade teria de continuar a ser 
reconstruda, pois ainda chorariam, atravessariam perdas, desafios, ansiedades e 
incompreenses. A certa altura, Marco Polo, Falco, Anna, o Dr. Mrio, o Dr. Antony e 
outros amigos fizeram uma roda no meio do salo e comearam a girar com emoo. 
Giraram, giraram e giraram. Enquanto giravam, observavam atentamente o rosto dos 
espectadores e percebiam que, para a maioria das pessoas, a sociedade moderna se 
tornava cada vez mais um grande hospital psiquitrico ou uma sociedade de mendigos 
que no abandonaram seus lares, mas abandonaram a si mesmos. De pessoas que, s 
vezes, tm mesa farta, mas mendigam o po do prazer, da tranqilidade e da sabedoria. 
Para outros, no entanto, o mundo se tornava uma escola, ou um circo, ou um terreno de 
aventuras, ou uma pista de dana, ou uma mescla de tudo isso. Marco Polo e seus 
amigos no sabiam onde as pessoas, incluindo eles, se localizariam no futuro da 
humanidade. S sabiam que essa localizao dependeria da coragem de cada um em 
caminhar nas trajetrias do seu prprio ser, abrir as janelas da sua inteligncia, repensar 
sua histria e fazer livremente suas escolhas. Quando deixaram de girar, gritaram em 
coro para eles mesmos e para a platia: "Bem-vindos ao futuro!..."

Fim

http://groups.google.com.br/group/digitalsource 
http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros
